Existe um ponto em que a criação deixa de ser controlo e passa a ser entrega. Johnny Reed trabalha exatamente nesse limite. O músico norte-americano prepara a chegada de “9 DREAMS”, um disco que nasce de caminhadas no mar, ideias captadas no telemóvel e uma ligação direta ao subconsciente, onde a música aparece antes de ser explicada.
Num tempo em que muitos artistas seguem estratégias bem definidas, Reed mantém um percurso singular. Faz tudo sozinho, da escrita à produção, sem filtros nem pressa. Nesta conversa, fala sobre o peso dos sonhos, a importância de improvisar e a forma como continua a construir uma identidade própria longe das fórmulas mais previsíveis da indústria.

Cresceste rodeado por fortes influências do rock clássico. Que memórias desse período inicial mais te marcaram?
Toco bateria desde o 5º ano. No 8º ano, fui convidado para entrar numa banda onde três dos músicos estavam no ensino secundário e o vocalista principal estava na universidade. Eles sabiam todas as músicas, The Beatles, The Rolling Stones, etc., e tinham as harmonias a três vozes bem ensaiadas. Eu era apenas o miúdo na bateria, mas sentia-me quase como se estivesse nos Beatles. Mais tarde, descobri o álbum “Disraeli Gears” dos Cream e os discos da The Jimi Hendrix Experience, que ouvia no hi-fi da minha família o mais alto possível, enquanto tocava bateria com toda a paixão. Foi esse som mais duro e intenso que alimentou o meu interesse por improvisar, fazer jams e sentir a música. É por isso que, ainda hoje, algumas pessoas dizem que o meu som está algures entre os Beatles e Hendrix.
O teclista dessa banda disse-me: “Johnny, abre três dedos e toca em todas as teclas brancas alternadas.” Eu fiz isso, depois ele disse para baixar o dedo do meio uma tecla. Eu disse “Ah” e percebi que mover apenas um dedo criava um som completamente diferente. Comecei então a explorar e a ensinar-me a mim próprio. No ano seguinte entrei no secundário e continuei a tocar com outros músicos na garagem da minha família. Lembro-me que tínhamos equipamento fraco, e o que realmente precisávamos era de grande equipamento para soar bem. Um dia, o baixista da primeira banda trouxe um tipo de cabelo comprido que tinha estado nos Strawberry Alarm Clock. Ele pegou na nossa guitarra sem marca e num amplificador fraco e fez aquilo soar incrível. Essa foi a lição da minha vida, não é o instrumento, é o músico. Nunca esqueci isso. Só tenho uma guitarra elétrica, uma Fender Telecaster dos anos 60, e nunca quis outra. Se eu não conseguisse fazer essa guitarra cantar… bem, já sabes o resto da história.
Quando percebeste que a música não era apenas uma paixão, mas o teu caminho de vida?
À medida que tocava com outros músicos, via pessoas a desistir por causa de namoros, trabalhos, maior foco na escola, etc. Havia muitas razões. Numa vez, durante um ensaio, toda a gente foi surfar, exceto eu e o guitarrista. Nesse dia acabámos por escrever uma música chamada “Why Leave Now?”. Ambos tínhamos aquele espírito de paixão pela criação musical, e isso nunca me deixou.
Por essa altura, saiu o primeiro álbum de Elton John e “Your Song” levou-me a mergulhar no piano. Nunca toquei de forma convencional nem tive formação, simplesmente sentia e tocava o que me surgia. Nunca perdi essa paixão como muitos que conheci. Lembro-me de ver o programa de televisão “Midnight Special” com o apresentador Wolfman Jack e de ouvir Cat Stevens. Peguei imediatamente na minha guitarra acústica, que era a única que tinha, e comecei a tocar, improvisando palavras e música, tentando captar a emoção que sentia na música dele. Não queria aprender as músicas dele, queria criar algo com a mesma carga emocional que sentia. Hoje continuo igual, só quero continuar a improvisar e a ligar-me emocionalmente à música.
Escrever, tocar e produzir tudo sozinho sempre fez parte do teu processo ou foi algo que se desenvolveu com o tempo?
Continuei a tocar noutras bandas como baterista, enquanto escrevia músicas no piano e na guitarra acústica. Só cantava por necessidade, porque os outros não queriam cantar. Quando Paul McCartney lançou o álbum “McCartney”, percebi que ele tocava tudo, e isso inspirou-me muito. A possibilidade de eu fazer isso, wow, seria incrível.
Procurei soluções e comprei um Teac 3340, um gravador de fita reel-to-reel de 4 canais com sincronização. Era importado do Japão, mas não estava em lojas, era algo meio secreto, não era um item de comércio oficial, por isso tive de o ir buscar a outra cidade. Ensinei-me a usá-lo, e assim nasceu para mim o multi-tracking. Gravava 3 pistas, depois misturava para 1, e ficava com mais 3 novas pistas. Na altura, isso era enorme.
Mais tarde tive um gravador Scully de 8 pistas de 1 polegada, maior do que eu. Continuei a gravar, depois passei para um Fostex de 8 pistas de 1/4 de polegada, e finalmente para uma interface digital no computador. Passei a ter imensas pistas. Adoro todos os instrumentos. Ao piano toco como Elton John, na bateria como Ginger Baker, na guitarra elétrica como Hendrix, e por aí fora.
Consegui um baixo por acaso, dentro de um saco com peças, de um amigo, por 15 dólares. Estava desmontado, com a parte de trás de madeira meio solta do corpo. Aparafusei aquilo e esse é o único baixo que alguma vez tive, e usei-o em todos os meus 9 álbuns. Antes contratava guitarristas e cantores, mas percebi que gostava mesmo de criar partes de guitarra pouco comuns e texturas, e o mesmo com vozes, improvisando harmonias.
Mais tarde tive de ficar em casa para cuidar da minha filha, que sofreu um acidente de carro. Não podia viajar, por isso fiquei perto de casa. Um dia, um amigo ouviu uma música minha com voz mais crua e disse que soava a Bob Seger e que eu devia fazer um álbum assim. Fiz. Criei o projeto RAWK DAWG, inventei quatro nomes para os membros e lancei o álbum “Rock with an Attitude”, seguido de “We Only Came to Rock”. Foram os meus dois primeiros discos. Era uma banda de rock de Hollywood irreverente, sem harmonias, nada polido, descrita como “jóias cruas do rock”. Tivemos CDs na Tower Records na Sunset Blvd e anúncios na rádio KLOS 95.5. Fiz tudo, mesmo tudo. Não estava à espera que alguém me descobrisse.
Também consegui passar em mais de 250 rádios pelo país, com a ajuda de Stevie B da MIA Mind Radio Promotion, em Nova Iorque. Foi assim que desenvolvi o método “faz tu mesmo”, que já apliquei 9 vezes nos meus 9 álbuns a solo.
Olhando para os teus primeiros trabalhos, o que sentes que mais mudou na tua identidade artística?
Os dois primeiros álbuns foram como RAWK DAWG, uma banda de rock cru, direta e irreverente. Cheguei a estar na capa da Rock City News em Hollywood com os Motley Crue e as 16 bandas “bad boy” de Los Angeles. Depois fiz uma pausa e voltei ao estúdio.
Peguei na minha guitarra acústica, sim, apenas uma, e continuei a escrever músicas. O mesmo amigo, Bob, apareceu e disse: “Devias fazer um álbum das tuas outras músicas em acústico e piano.” Foi assim que nasceu “The Johnny Reed Show”. Mais uma vez toquei tudo, mas agora com harmonias e mais próximo das minhas raízes.
Lancei mais 7 álbuns como Johnny Reed. “The Johnny Reed Show” é o nome da minha banda, mas desta vez não inventei nomes, disse claramente que era tudo feito por mim. As músicas vão desde baladas como “Such a Beautiful Bird” no álbum “ACT 2: The Johnny Reed Show”, até temas mais rock como “Know Your Soul” em “Alternate Reality 7”, passando por vários estilos. Disseram-me que “9 DREAMS” é o meu White Album.
O teu novo álbum “9 DREAMS” é um disco conceptual. Quando surgiu essa ideia e o que a desencadeou?
O álbum desenvolveu-se sozinho, como todos. Não há planeamento. Não escrevo letras nem sigo um plano. A primeira música, “Walk in the Waves”, foi também a primeira que gravei. Todos os sábados caminho nas ondas, não no passeio, mas dentro de água.
Existe muito pensamento negativo hoje em dia. Os jornalistas já não dão notícias, dão opiniões. Por isso refugio-me na natureza e no oceano. Perco-me ali como num sonho. Canto ideias improvisadas, gravo no telemóvel e depois levo para o estúdio. A frase “I walk in the waves, and they wash away the things that I don’t want to think about” surgiu assim. Não havia plano para refrão, foi tudo improvisado.
Depois pensei num sonho recorrente onde alguém me pedia para construir uma nave espacial. Transformei isso numa música. Mais dias na praia, mais improviso, mais gravações. Um vizinho perguntou se era mais um álbum conceptual. Nem tinha percebido, mas estava a formar-se assim. O nome “9 DREAMS” só surgiu quando a décima música estava quase pronta. “See What Tomorrow Brings” fala de um homem salvo pelos seus sonhos.
Existe uma forte ligação entre os teus sonhos e a tua composição. Como funciona esse processo na prática?
Sim, existe essa ligação. Consigo colocar-me num estado onde não estou a pensar, apenas a agir, quase como um role play enquanto improviso. Os sonhos não são forçados, deixam-se fluir. Às vezes acordo a meio de um sonho e gravo no telemóvel.
Alguns sonhos repetem-se, como “Build You a Spaceship” ou “Cannery Row”, e sinto que devo segui-los. Nunca escrevo as músicas antes. Começo com poucas palavras e deixo tudo acontecer, sem saber para onde vai.
“Walk in the Waves” soa como uma declaração do álbum. O que querias que as pessoas sentissem logo nesse primeiro impacto?
É uma declaração, uma sugestão e uma resposta. Num mundo cheio de distrações, se estás rodeado de negatividade, isso afeta-te. Sempre acreditei que não devemos deixar que os outros controlem os nossos pensamentos.
Se alguém te diz algo negativo, percebe que essa pessoa está a lidar com algo interno. Não deixes que te afete. Eleva-te acima disso. A ideia é simples, caminhar nas ondas e desligar, até da televisão.
A tua música é muitas vezes descrita como orgânica e enigmática. Identificas-te com isso?
Sim, já disseram isso. Que a minha música é única e enigmática. Muitas vezes não sabem para onde ela vai. Pode ser misteriosa, direta, irónica ou difícil de interpretar. Algumas músicas são simples, outras mais complexas. Crescem de forma orgânica, sem auto-tune. É por isso que algumas rádios de rock clássico no Canadá passam a minha música. Tudo é feito com “JI”, não “AI”, incluindo imagens e arte.
Num tempo dominado por algoritmos e consumo rápido, como vês o lugar dos álbuns conceptuais hoje?
Muitos dizem para lançar singles, músicas soltas, vídeos curtos. Mas o meu sonho sempre foi fazer álbuns, como Led Zeppelin e outros grandes.
Um álbum dá substância. Mostra o que o artista vive e observa. Não é sobre um sucesso rápido, é expressão real. A inteligência artificial pode fazer tudo perfeito, mas eu sou humano.
Na música “Build You a Spaceship”, a ideia é que os alienígenas me pedem ajuda porque a IA deles falhou e eles esqueceram como pensar.
Assumes vários papéis no teu processo criativo. Isso dá-te mais liberdade ou mais pressão?
Nunca é pressão, é prazer. Sei que se começo no piano, depois a guitarra elétrica vai trazer outra dimensão. Às vezes começo com bateria simples e depois desenvolvo.
Uma harmonia pode mudar completamente uma música. Nunca planeio, improviso. Gosto muito de tocar baixo, tanto como base como melodia.
Gosto de experimentar. Posso gravar várias guitarras e apagar no dia seguinte se não funcionar. Às vezes até odeio uma música e depois volto a ela e volto a gostar.
Olhando para o futuro, gostarias de explorar outras áreas criativas além da música?
Sim, já fiz muitos projetos. Fui a voz do King Kong para a Universal Pictures e para Peter Jackson em merchandising. Ele aprovava tudo pessoalmente.
Os sons dos dinossauros e do King Kong não existiam, fui eu que os criei. Trabalhei em centenas de brinquedos e jogos para empresas como Mattel, Hasbro e outras.
Agora estou a trabalhar com a ORBIUM Studios em filmes, televisão, animação, música, brinquedos e apps. É um espaço criativo enorme e também sou parceiro.
Se imaginares a tua carreira daqui a dez anos, o que gostarias que se mantivesse no teu som?
Daqui a dez anos… quem sabe, talvez estejamos em Marte com Elon. Mas a minha música vai continuar. O décimo álbum virá. Tenho muitas ideias, apontamentos, e uma delas vai chamar por mim.
Quero manter um som imprevisível, improvisado, às vezes mais emocional, sempre orgânico e com atitude. Quero apenas tocar na essência dos grandes, como The Beatles, The Rolling Stones, David Bowie, Queen, Pink Floyd, Jimi Hendrix, Cream e muitos outros que foram os meus professores.

