“Far From God” marca um regresso claro a uma estética mais gótica. Sentiram essa necessidade como algo consciente ou foi algo que surgiu naturalmente durante o processo criativo?
A direção que tomamos é sempre natural. Não temos qualquer espécie de agenda ou necessidade de adotar um padrão musical ou uma rotina de lançar um álbum a cada dois anos para ir em digressão. Conseguimo-nos livrar dessa lógica que tritura a criatividade das bandas para atender ao mercado. Assim sendo, acho que a história musical da banda se tornou a nossa maior influência e, desta vez, escolhemos o gótico como conceito, mas o metal é sempre a nossa base.
A canção nasceu, segundo o Fernando, de um só fôlego. Esse tipo de impulso ainda é comum na banda ou tornou-se mais raro com o tempo?
Depende. Das músicas, da influência, do vibe na banda. Como disse, não existe bem uma fórmula, é mais um processo que envolve a mim, ao Pedro (Paixão, teclista) e ao Ricardo (Amorim, guitarrista). Somos nós quem compõe tudo: eu letras e algumas vozes, eles toda a música. Vamos para o nosso estúdio, trocamos ideias online, aproveitamos o tradicional e o orgânico, mas também nos servimos das novas ferramentas. O importante é soar bem, ler-se bem e ter o feeling Moonspell, que é o que interessa no final.
O imaginário vampírico volta a estar no centro da vossa narrativa. O que é que essa figura ainda vos permite dizer hoje que outros temas não conseguem?
Há na figura do vampiro uma inquietude moderna. Todos procuramos a paz e o amor, e a maldade e as circunstâncias humanas são impeditivo dessa busca. Padres, vampiros, seres de luz, todos símbolos de que algo não está bem e que precisa ser corrigido. Não me quis juntar às novas vozes da intervenção, acho que há muita polarização e creio haver um desgaste de muita gente a falar e pouca a acertar ou a tentar construir pontes. O que os Moonspell oferecem com este disco é a fantasia, a mitologia, a metafísica do conflito, culpa e amor. É um disco romântico.
Depois de tantos anos a definir o gothic metal, como é que olham para o género atualmente? Ainda se reconhecem nele ou sentem que ele já não vos contém totalmente?
Não olho. Sinto que a etiqueta gótica se tornou banal. Fazer música gótica é penetrar profundamente na nossa dor, nos nossos falhanços, na nossa negritude. Não é algo que se faça como projeto, não basta pintar os olhos, arranjar uma miúda para cantar e comprar uma cartola. Claro que existem bandas atuais como os Twin Tribes, os French Police, La Bande-Son Imaginaire, os Nuker que, mais dentro da eletrónica, ajudaram a expandir o som e o público. Mas dentro da fusão com o metal sentimos que estava na altura de fazer um disco mais simples, mais direto, que ajudasse melhor a desvelar essa ligação que para nós foi óbvia desde os anos 90.
O novo álbum partilha o nome com o single. Isso indica uma espécie de manifesto? É este o disco que melhor representa os Moonspell nesta fase?
Esperamos que sim. Demorámos algum tempo a escolher o caminho e a trabalhar num resultado que fosse bastante identitário e representativo. Não há um manifesto, há sim uma clara evidência de que o homem se afastou de Deus e que o utiliza da forma mais macabra e violenta que consegue. Aconteceu no passado com o Cristianismo católico, acontece ainda com o evangelismo brasileiro e norte-americano e, fundamentalmente, com o Islão, que está a deixar o mundo em chamas.
“Opus Diabolicum” mostrou uma dimensão sinfónica muito forte da banda. Esse lado teve influência na construção deste novo disco ou são universos separados?
Os universos de Moonspell têm uma espécie de centro que se ramifica. O OD tinha de acentuar a parte sinfónica porque tínhamos uma orquestra a acompanhar-nos. Tudo o que fazemos provoca influência no que vamos fazer, mas os processos foram absolutamente autónomos e, no mais possível, estanques. Mas existem muitas músicas neste disco que, sendo mais melódicas, se adequariam ao arranjo clássico. Vamos vendo, nunca é aconselhável fechar portas.
A relação com a América Latina continua muito intensa desde os anos 90. O que encontraram lá que talvez nunca tenham encontrado em Portugal?
Para que não restem dúvidas, nós temos no nosso público português o nosso público mais fiel e caloroso. Mas também o que tem a vida mais complicada, devido à escassez de concertos da banda e ao absoluto desprezo com que a maior parte da rádio, TV, jornais e imprensa digital nos trata, o que afeta a nossa comunidade também.
O que encontro lá fora é respeito, o mesmo calor dos fãs, países onde ser metaleiro é como ser do hip-hop ou do fado, e não uma coisa do outro mundo. Em Buenos Aires, em Istambul e em Boston até visitas da embaixada e do consulado tivemos. Aqui em Portugal, nunca vi ninguém, também não tem feito falta. Mas podiam aprender qualquer coisa connosco e com os nossos fãs.
Ao fim de mais de três décadas, o que é que ainda vos desafia enquanto banda? É a criação, a estrada ou a necessidade de se manterem relevantes?
A estrada é sempre um desafio. Criar também. E quando há desafio, há dinâmica de superação. Tudo nos desafia. Somos uma banda portuguesa, não temos os pergaminhos nem o entendimento de bandas escandinavas. Ser de Portugal e chegar a algum lado é um tremendo desafio, devido à crise permanente no nosso país e à nossa distância geográfica de todos os outros países.
Não tenho necessidade de relevância, talvez de reconhecimento, mas não é maior que a das outras pessoas. Sou apenas um músico, um espírito curioso e um homem de muita sorte em poder ter esta vida que tenho e que não sei se mereço.
Há uma ideia recorrente de que bandas com longa carreira vivem do passado. Sentem esse peso ou conseguem ignorar completamente essa narrativa?
O curioso é que essas ideias vêm exatamente do público e do mercado que as impõe e que as cultiva, e que, muitas vezes, se queixa da direção que as bandas tomam. É o mesmo princípio para a pirataria, o digital, o “já não compro discos, mas vou aos concertos”. O mundo e, em especial, a indústria da música são muito mal compreendidos.
Quanto a mim e aos Moonspell, compreendo que a banda é composta de três tempos: passado, presente e futuro. E todos os três nos definem. Dois deles deixarão de existir quando assim for. Em todo o caso, música é memória e, por vezes, somos demasiado duros connosco próprios. Que mal há na nostalgia? Que mal há em evoluir e fazer coisas diferentes? Ou voltar às raízes góticas? Ou fazer outro disco em inglês e depois, mais para a frente, fazer um em português?
O importante não é ignorar ou seguir a narrativa. É escrevê-la pela nossa mão.
O regresso aos grandes festivais europeus reforça a vossa presença internacional. Ainda existe algo por conquistar fora de Portugal?
Tanta coisa. Mas eu vou dia a dia, mês a mês, ano após ano. Tenho 51 anos e, como não sei fazer nada, pude fazer tudo. E foi muito mais do que aquilo que imaginei. Portanto, não vivo refém das expectativas nem da falta de ambição. As oportunidades vão aparecendo e nós vamos dizendo que sim ou que não. Nós é que mandamos e isso é precioso e raro numa banda.
O Halloween tornou-se quase um território natural dos Moonspell. O que é que esse ritual representa hoje para vocês enquanto banda e enquanto identidade?
Ao princípio, fomos gozados. Não era uma festa portuguesa. Agora, até os hipermercados e os cabeleireiros têm um espaço Halloween. Nunca escondemos a história e a importância desta data. Imitámos uma das nossas bandas preferidas, os Type O Negative, que, todos os anos, faziam um concerto de Halloween em Brooklyn. Nós começámos a fazer no Porto, onde vamos este ano celebrar a noite das bruxas, e depois a coisa tornou-se numa peregrinação e nós jogámos com isso. Entretanto, os Type O acabaram, por morte do vocalista e mentor, e nós continuámos e passamos sempre uma música deles antes de entrarmos no palco.
O Halloween é uma festa celta, de passagem, de contacto com as memórias e com o que nos assusta, nomeadamente o medo da morte e a saudade dos mortos. Tal como as letras dos Moonspell, por isso sempre fez todo o sentido para nós e para os fãs. Não iríamos propriamente tocar a Fátima no 13 de maio, creio eu.
Quando olham para este momento específico, com novo disco, concertos e uma carreira consolidada, sentem que estão a fechar um ciclo ou a abrir outro?
Nada se fecha, nada se abre, tudo se transforma.


