Davi Santiago em entrevista: “Fui Só Amor”, o EP de estreia e a identidade entre Portugal e Brasil

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A entrevista a Davi Santiago chega num momento-chave da sua afirmação na música portuguesa, com o lançamento de “Fui Só Amor” a funcionar como porta de entrada para um EP que cruza emoção, identidade e procura espiritual. Entre memórias de infância no Rio de Janeiro, a descoberta da própria voz e a construção de uma linguagem que mistura Portugal e Brasil, o artista revela o processo por trás das canções, a relação com o público e a forma como transforma vulnerabilidade em matéria criativa.

 

Cresceste entre duas culturas musicais muito fortes. Que sons da tua infância ainda reconheces no que fazes hoje?

Ótima questão, acho que nunca tinha pensado sobre isso. Agora que parei para refletir um pouco, cheguei à conclusão de que, no fundo, sempre tive uma predisposição para a introspeção e isso foi algo presente na minha vida desde muito novo. Isso atraiu-me naturalmente para a música.

Cresci rodeado de samba e lembro-me especificamente de um álbum dos Natiruts que o meu pai adorava, mas talvez o que me tenha marcado mais profundamente foi o contacto direto com a guitarra quando era criança. Durante uma fase da minha infância, eu e a minha família frequentámos um centro espírita no Rio de Janeiro e até hoje lembro-me da canção que aprendi na guitarra durante as aulas de música que eles organizavam. Havia algo na relação direta entre a música e os sentimentos que fazia muito sentido para mim. Não é bem um som da minha infância, mas é um sentimento muito específico que definitivamente me influencia até hoje.

Quando começaste a escrever as primeiras canções, o que sentias que ainda não sabias dizer, mas já tentavas?

Acho que algo que sempre quis tentar expressar foi a necessidade que tenho de encontrar respostas, tanto para questões pessoais como para questões de caráter mais espiritual ou cosmológico. Já há muitos anos que sou extremamente interessado pelo budismo e acredito que, nas minhas primeiras composições, tentava transmitir esse sentimento de estar perdido e querer encontrar respostas que deu origem a esse interesse.

Hoje em dia, algumas das minhas canções já conseguem abordar bem essa questão, mas no início sentia que era algo grande e complexo demais para algum dia conseguir expressar. Ainda sinto isso, mas um pouco menos.

A tua voz tem uma história física e emocional muito particular. Em que momento percebeste que essa característica podia ser uma força e não uma limitação?

Acredito que o momento crucial em que percebi que era possível usar a minha voz a meu favor foi após a minha primeira apresentação ao vivo. Participei num concurso de talentos em Viseu, que acontece todos os verões, e recebi um feedback muito positivo de pessoas que não conhecia.

Já tinha cantado para amigos próximos e família, mas receber essa validação do público, mesmo sabendo que nem toda a gente gosta da minha voz, foi muito especial.

“Olha o Brilho” abriu caminho para este novo ciclo. O que é que essa primeira faixa te ensinou sobre o rumo que querias seguir?

“Olha o Brilho” foi um grande professor, sobretudo no que diz respeito à importância das redes sociais e das plataformas digitais na promoção do meu trabalho. Foi pouco antes de lançar essa faixa que comecei a interagir mais com o Instagram e, desde então, a minha presença na plataforma cresceu e a audiência tornou-se mais dinâmica.

Perceber que esse trabalho traz resultados ajudou-me muito, sobretudo porque tinha dúvidas sobre como chegar a novas pessoas.

“Fui Só Amor” parece mais direto e exposto. Foi uma canção difícil de terminar ou surgiu de forma natural?

É realmente uma canção mais direta e exposta, mas não foi difícil de terminar. Surgiu de forma muito natural, como acontece sempre que guardo um sentimento durante tempo suficiente.

Chega um momento em que já não é possível conter e algo nasce. Neste caso, foi “Fui Só Amor”.

O EP cruza referências do Brasil e de Portugal. Essa mistura acontece de forma consciente ou já é algo instintivo em ti?

A ideia de usar a relação entre Brasil e Portugal como analogia para o perdão foi pensada, mas essa dualidade nasceu de forma muito natural em mim.

Cada vez mais sinto que sou um híbrido cultural entre estes dois países e, ao mesmo tempo, uma espécie de nómada que não pertence totalmente a nenhum deles. É um tema que me leva a muitas reflexões pessoais.

Trabalhaste com Guilherme Marta e Ruben Teixeira na parte técnica. O que procuraste preservar na tua identidade durante esse processo?

Abraço facilmente novas ideias e incentivo quem trabalha comigo a explorar caminhos diferentes a partir do que eu apresento. Ainda assim, há algo que procuro sempre preservar: o sentimento de que aquilo que está a ser tocado é genuíno.

Essa sensação de captar um sentimento na sua forma mais crua é essencial para mim, e tanto o Guilherme Marta como o Ruben Teixeira conseguiram transmitir isso com grande precisão.

O videoclip introduz uma dualidade muito forte entre interior e exterior. Essa tensão também existe na forma como vives a música no dia a dia?

Sim, completamente. A música sempre foi algo muito íntimo para mim, mas ao mesmo tempo maior do que qualquer barreira pessoal que eu possa ter.

Essa tensão nem sempre é fácil de gerir. Por vezes sinto-me desconectado de mim próprio e da música por causa disso. Pode funcionar tanto como impulso como bloqueio, depende muito do meu estado de espírito.

As tuas letras tocam em temas como amor, morte e espiritualidade. Há alguma destas dimensões que ainda te custa explorar completamente?

Todas, sem exceção. São dimensões que considero infinitas, tanto naquilo que nos podem ensinar como na sua profundidade.

O amor, a morte e a espiritualidade não têm limites e isso torna impossível explorá-los por completo, pelo menos na minha perspetiva.

Tens referências muito distintas, de Djavan a Nick Drake. Como equilibras influência e identidade sem perder autenticidade?

Acredito que a autenticidade vem da forma como utilizamos as nossas referências de maneira construtiva e alinhada com aquilo que somos. Não tenho qualquer problema em assumir as minhas influências e sinto que isso vem da consciência de que trago mais do que apenas essas referências.

Todos somos um conjunto de experiências e tentar fugir disso é praticamente impossível. A diferença está no que fazemos com essas influências. É aí que, para mim, se mede a autenticidade.

Estás a entrar num momento de maior exposição. O que mais te desafia nesta fase de afirmação enquanto artista?

Acredito que o maior desafio seja, de facto, alcançar essa exposição. Lido relativamente bem com a dinâmica da exposição e com críticas, sejam positivas ou negativas.

Os anos a ouvir comentários sobre a minha voz e a experiência de mudar de país ajudaram-me a criar alguma resistência. Gosto de interagir com quem me acompanha e faço esse trabalho com prazer, mas ganhar reconhecimento hoje em dia é difícil. A competição é, basicamente, global.

Depois do lançamento do EP, que tipo de caminhos queres abrir a seguir, tanto a nível sonoro como na forma de te apresentares?

Foi durante a criação deste projeto que percebi o quão diferente é tocar com uma banda em comparação com tocar sozinho. Apesar de ser mais exigente em termos logísticos, sinto-me muito grato por partilhar essa experiência com outras pessoas.

Durante anos, o meu processo criativo foi solitário e sentia falta dessa partilha. A nível sonoro, quero explorar abordagens mais densas e completas, talvez afastar-me um pouco da calmaria. E, em palco, quero apostar mais em atuar com a banda completa.

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