Barba Rala estreia “Nos Tempos do Egoritmo” e transforma ansiedade digital em rock pulsante

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A sensação de estar sempre a ser observado, comparado e medido já não é só uma impressão vaga. É o ambiente em que se vive. É nesse território que a banda catarinense Barba Rala se move no seu primeiro álbum, “Nos Tempos do Egoritmo”, lançado de forma independente no dia 10.

 

Um disco que pega nessa pressão invisível e transforma-a em som denso, inquieto e, por vezes, quase claustrofóbico.

Gravado ao longo de um percurso que começou bem antes do estúdio, o álbum apresenta onze faixas que recusam ficar presas a uma única linguagem. Há rock alternativo, progressivo, stoner e ecos de psicadelismo, mas o mais importante aqui não é a etiqueta. É a sensação de fluxo constante, de mudança, de instabilidade. Como se cada música fosse um reflexo diferente da mesma inquietação.

Um conceito que nasce do presente

O título “Nos Tempos do Egoritmo” não é apenas um jogo de palavras. É uma síntese bastante direta do que o disco quer provocar. Ego e algoritmo cruzam-se para falar de identidade, exposição e da forma como cada pessoa se constrói num espaço digital que nunca desliga.

Segundo o guitarrista e produtor Weskley San, o disco não procura apontar culpados. Procura expor padrões. A comparação constante, o excesso de estímulos, a dificuldade em estar verdadeiramente presente. Tudo isso aparece ao longo das faixas, não como discurso fechado, mas como perguntas abertas que ecoam de música para música.

Essa abordagem acaba por dar ao álbum uma dimensão mais humana. Não há respostas fáceis aqui. Só a tentativa de compreender um comportamento coletivo que já se tornou rotina.

Som em mutação constante

Uma das decisões mais interessantes do disco é a recusa em manter uma linha sonora fixa. Cada faixa assume uma identidade própria. Às vezes mais pesada, noutras mais atmosférica, noutras ainda mais fragmentada.

Esse contraste não soa acidental. Pelo contrário, funciona como extensão do próprio conceito. A sensação de viver tudo ao mesmo tempo, de saltar entre estímulos, de nunca pousar verdadeiramente em lado nenhum. O disco traduz isso em dinâmica sonora.

O groove surge como elemento de ligação, quase como um fio condutor que mantém tudo coeso no meio da diversidade. É isso que impede o álbum de se perder na sua própria ambição.

“O Show Vai Começar” como espelho social

Para apresentar o disco, a banda escolheu “O Show Vai Começar”. A faixa mergulha numa estética circense para construir uma metáfora clara sobre o comportamento social contemporâneo.

A ideia é simples, mas eficaz. Todos fazem parte do espetáculo. Uns observam, outros atuam, mas ninguém está realmente fora do palco. Essa ambiguidade reforça o conceito central do álbum e dá-lhe uma camada visual e simbólica interessante.

A música funciona como porta de entrada para o universo do disco, sem revelar tudo. Deixa espaço para descoberta, que é exatamente o que o projeto pede.

Anos de palco antes do primeiro registo

Formada em 2017 em Santa Rosa do Sul, a Barba Rala chega ao primeiro álbum com um percurso sólido de concertos e construção de identidade. Isso sente-se. O disco não soa a estreia hesitante.

O baixista Kauê resume bem esse ponto ao dizer que este não é propriamente um começo. É um registo de algo que já vinha a ser desenvolvido há anos. Uma espécie de fotografia de um momento específico da banda, mas com história por trás.

Essa maturidade dá ao álbum uma segurança pouco comum em primeiros trabalhos. Há intenção. Há direção. E há uma consciência clara do espaço que ocupam dentro da cena independente brasileira.

No fim, fica a sensação de que este disco não tenta acompanhar o tempo. Tenta capturá-lo. E talvez seja isso que o torna mais desconfortável do que confortável. Porque obriga a olhar de frente para hábitos que já se tornaram automáticos demais.

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