A poucos dias do lançamento de Double Exposure, o novo álbum de Penny Arcade começa a ganhar forma como um dos registos mais instintivos e diretos da carreira de James Hoare, músico britânico natural do Reino Unido. Conhecido pelo seu percurso em bandas como Veronica Falls e Ultimate Painting, Hoare segue agora um caminho mais solitário, onde a urgência criativa, o som analógico e a imperfeição assumem um papel central.
Nesta entrevista exclusiva, o artista abre o processo por detrás do disco, desde a decisão de afastar as guitarras para segundo plano até à escolha de trabalhar com caixas de ritmos e órgãos vintage. Double Exposure surge como um álbum marcado pela espontaneidade, gravado em fita e construído a partir de primeiras ideias, sem sobreprodução nem filtros excessivos. O resultado é um trabalho cru, emocional e profundamente humano.
Ao longo da conversa, Hoare reflete também sobre o disco de estreia Backwater Collage, as dificuldades na produção anterior e a necessidade de encontrar novas formas de expressão. A dualidade emocional presente nas novas canções, entre luz e escuridão, revela um lado mais pessoal, ainda que escondido sob letras ambíguas.
A mudança iminente para o sul de França e o impacto desse momento de transição ajudam a contextualizar o ambiente do álbum, ainda que de forma indireta. Ao mesmo tempo, Hoare deixa pistas sobre o futuro do projeto Penny Arcade, que pretende manter em constante evolução, sem se prender a fórmulas ou expectativas.
Com lançamento marcado para 17 de abril, Double Exposure afirma-se como um disco de ideias captadas no momento certo, onde a limitação técnica se transforma em linguagem criativa e onde cada faixa existe apenas o tempo necessário para deixar a sua marca.

O que te levou a criar o projeto Penny Arcade depois de anos em bandas como Veronica Falls e Ultimate Painting?
Sempre colaborei com outras pessoas e senti que era altura de fazer o meu próprio projeto e ver o que surgia musicalmente. Quando trabalhas com outras pessoas, as tuas ideias passam por diferentes filtros, e desta vez quis perceber o que acontecia ao passar tudo pela minha própria perspetiva, do início ao fim.
Quando ouves Backwater Collage hoje, o que ainda sentes como “teu” e o que já parece distante?
Sinto que ainda sou eu e que é algo que vive no presente. Dito isto, há algumas faixas que me custa ouvir, porque as regravei várias vezes com diferentes bateristas e nunca fiquei totalmente satisfeito com o resultado. Provavelmente só eu é que noto isso. No geral, estou contente com o disco e soa-me fresco quando o ouço hoje.
Em que momento percebeste que Double Exposure precisava de seguir um caminho diferente do disco de estreia?
Inicialmente comecei a gravar de forma semelhante ao primeiro disco, com bateria, baixo, guitarras, etc. Mas depois quis captar algo mais cru, e conseguir a bateria certa tinha sido difícil em Backwater Collage, por isso comecei a trabalhar com caixas de ritmos. Só depois de já estar a gravar há algum tempo é que percebi que esse era o caminho a seguir.
Este novo álbum parece guiado pelo impulso e pela urgência. Como foi trabalhar com essa falta de filtro em estúdio?
Foi refrescante trabalhar assim. Muitas das minhas gravações favoritas no passado foram feitas muito rapidamente, por isso percebi que esse era o caminho. Quando trabalhas rápido, não pensas demasiado nas coisas, e muitas vezes a primeira take é a melhor, por isso mantive todas as primeiras gravações. Também não fiz mais takes porque trabalho em fita e não há espaço para isso.
As guitarras parecem passar para segundo plano. Foi uma decisão consciente ou algo que aconteceu naturalmente durante o processo?
Não foi uma decisão consciente colocar as guitarras em segundo plano, foi mais o facto de trabalhar com caixas de ritmos ser uma forma muito simples e direta de gravar, e os órgãos funcionarem sempre bem com esse tipo de máquinas básicas. Procurava um som mais despido, por isso não quis sobrepor demasiadas guitarras elétricas.
As caixas de ritmos e os órgãos assumem o protagonismo neste disco. O que te atrai nesse lado mais cru e limitado do som?
Tenho vários órgãos e caixas de ritmos vintage e adoro o som deles (Farfisa, Acetone, Elka, Vox, etc.). Normalmente uso-os de forma mais subtil em fundo, mas neste disco trouxe-os mais para a frente. Não foi uma decisão consciente, simplesmente começou a soar bem e funcionou naquele momento, além de combinarem muito bem entre si.
Sempre me senti atraído por este tipo de som. Bandas como Young Marble Giants e Broadcast. Gosto especialmente do carácter mais direto das caixas de ritmos. Não as podes programar, fazem uma ou duas coisas, mas fazem-nas muito bem e com bastante personalidade.
Existe uma forte dualidade ao longo do álbum, entre luz e escuridão. Isso reflete um estado emocional específico?
Costumo escrever de forma pessoal e reflexiva, mas muitas vezes escondo isso em letras ambíguas. Muitas vezes estou num estado de espírito mais leve ou mais sombrio, e isso acaba por aparecer nas músicas. É sempre um ou outro, nunca algo intermédio. Ou estou bem ou estou em baixo.
Grande parte do álbum foi gravada rapidamente, quase como demos. Achas que a imperfeição pode ser mais verdadeira do que uma produção polida?
Acho que sim. Muita da música atual é demasiado editada e produzida, e isso acaba por retirar a alma. Em muitos dos meus discos favoritos ouvem-se imperfeições técnicas, mas é música feita por pessoas. Quero sentir entusiasmo, emoção e energia numa gravação. Se discos dos Can ou dos The Doors fossem feitos hoje, todos quantizados e editados, não seriam os mesmos.
O título Double Exposure sugere sobreposição de momentos e ideias. Como interpretas essa “dupla exposição” na tua vida?
Muitas vezes não sei bem como uma situação está ou para onde vai. Depois fazes algo no impulso, sem planeamento, e de repente o que estavas a fazer no dia anterior começa a fazer sentido. Gosto dessa sobreposição de ideias e momentos.
A tua mudança para o sul de França influenciou diretamente o som do álbum ou foi mais um pano de fundo subtil?
Na verdade terminei o disco mesmo antes de me mudar. Estive a fazer as misturas até ao último momento no meu antigo apartamento. Agora estou a trabalhar em material novo que já parece estar a ser influenciado pelo novo ambiente.
Depois de um disco tão instintivo, sentes vontade de continuar nessa direção ou de seguir algo mais estruturado?
Não sabia que estava a seguir esse caminho no último disco até já estar bastante avançado, por isso só vou perceber quando começar a gravar o próximo. As músicas em que estou a trabalhar agora têm um lado mais acústico e energético, mas isso pode mudar. Quero envolver os músicos que tocam comigo ao vivo no próximo disco e dar-lhe um carácter mais solto e orgânico. Essa é a ideia, pelo menos. Talvez seja mais estruturado nesse sentido, mas pode acabar por ser algo diferente.
Olhando para o futuro, vês o Penny Arcade como um projeto em constante evolução ou já começas a definir uma direção mais clara?
Gosto da ideia de o Penny Arcade estar sempre a evoluir. Quero continuar a desenvolver o projeto e seguir em frente. Uma das razões pelas quais não quis lançar música em nome próprio foi precisamente para evitar ficar preso à ideia de artista a solo. Talvez venha a encontrar uma direção mais definida, mas neste momento gosto dessa liberdade de poder ir mudando, mantendo ao mesmo tempo uma identidade.

