Merai revela “Diz-me” e abre caminho para o universo de Linhas Imaginárias

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Uma nova canção chega com ambição de leveza, mas carrega dentro de si uma tensão mais funda. “Diz-me”, o novo single de Merai, surge como um primeiro gesto público de Linhas Imaginárias, um álbum que se anuncia como espaço de travessia entre identidade, perceção e algo mais difícil de nomear.

 

fotografia por João Marques (@joaomaresque)

Pensado para o verão, o tema não se limita a cumprir esse papel imediato. Há ritmo, há corpo, há vontade de movimento. Mas também há perguntas escondidas na superfície, como se a música estivesse a testar até onde pode ir sem perder a sua delicadeza.

Uma canção que dança e questiona

“Diz-me” apresenta-se com uma estrutura acessível, quase intuitiva. A primeira escuta deixa ficar a sensação de leveza, de uma música feita para acompanhar dias longos e noites abertas. Funciona nesse plano. Mas não fica por aí.

Por baixo dessa camada mais direta, a canção constrói um discurso sobre identidade. Sobre o confronto entre aquilo que se é e aquilo que os outros esperam ver. Não como conflito dramático, mas como algo que se infiltra no quotidiano, silencioso, constante.

A proposta é clara: aceitar a contradição como parte do processo. Ser múltiplo, instável, em transformação. Não como fragilidade, mas como afirmação.

Linhas Imaginárias como território artístico

O single funciona como porta de entrada para um projeto mais amplo. Linhas Imaginárias não surge apenas como um conjunto de canções, mas como um conceito estruturado, quase um sistema de pensamento traduzido em som.

A ideia central gira em torno da separação e da unidade. Entre o eu e o todo, entre aquilo que parece distinto e aquilo que talvez nunca tenha estado realmente separado. É um território conceptual, mas não fechado.

Musicalmente, o projeto cruza referências. Pop, folk e música clássica aparecem como pontos de apoio, mas não como limites. O resultado aponta para uma linguagem híbrida, onde a intuição convive com construção consciente.

Uma artista que constrói o seu próprio universo

Merai, nome artístico de Mariana Frangioia Portela, nasceu em Lisboa em 2000 e tem vindo a afirmar-se como uma criadora multidisciplinar. Música, escrita, performance e imagem não surgem como áreas separadas, mas como partes de um mesmo corpo criativo.

Nos temas anteriores, como “Ser (Mito de Orfeu)” e “O Meu Corpo Não”, já se percebia uma preocupação com o simbólico e com a dimensão política. Há sempre uma camada de leitura que ultrapassa o imediato, mesmo quando a forma parece simples.

Em Linhas Imaginárias, esse percurso ganha mais consistência. A artista assume a produção e os arranjos, reforçando o carácter autoral do projeto. Não é apenas interpretação. É construção total.

Expansão para além da música

O trabalho de Merai não se limita ao formato canção. Em 2025, editou o livro Contos e Mitos de Plorema, expandindo o seu universo para a literatura. Essa relação entre som e palavra não é decorativa. É estrutural.

Paralelamente, tem desenvolvido projetos em dança contemporânea e participado em contextos de reflexão sobre feminismo, arte e democracia. Há uma linha contínua entre essas práticas, mesmo quando os formatos mudam.

“Diz-me” surge assim como mais do que um single. Funciona como ponto de entrada para um ecossistema criativo em expansão, onde cada peça parece ligar-se a outra, mesmo quando isso não é imediatamente evidente.

O videoclipe já está disponível, tal como o tema nas plataformas digitais. Fica a sensação de que isto é só o início, mas não de forma anunciada ou grandiosa. Mais como um caminho que se vai revelando aos poucos, sem pressa de explicar tudo.

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