Kumpania Algazarra revelam tudo sobre o novo álbum Tudo ao Contrário e o single Ignite numa entrevista sem filtros

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Chegar a um décimo disco não é apenas uma marca de resistência. É um ponto de viragem. Os Kumpania Algazarra chegam a Tudo ao Contrário com essa consciência e com vontade de mexer no que parecia estabilizado. O novo trabalho nasce num tempo inquieto, mas a resposta da banda é direta. Transformar tensão em movimento, dúvida em encontro, som em partilha.

Nesta entrevista, o coletivo de Sintra regressa às origens nas ruas, revisita momentos-chave do percurso e explica como a eletrónica entrou no centro da nova linguagem sonora. Fala-se de identidade, de risco e da necessidade de continuar a experimentar quando muitos já estariam confortáveis. Uma conversa aberta, sem filtro, onde se percebe melhor o que está por trás deste novo capítulo e o que ainda está por vir.

@Créditos Cátia Barbosa

A história dos Kumpania Algazarra começa em Sintra e nas ruas. Que memórias guardam desses primeiros tempos e de que forma essa energia inicial ainda vive na banda hoje?

Sintra obrigou-nos muito a inventar, a inventar formas de tocar, de chamar as pessoas, de criar momentos inesperados. Foi aí que tudo começou e onde fomos descobrindo a nossa maneira de fazer música.
Tocar na rua põe-nos em contacto direto com o público. É uma energia muito contagiante e ajuda-nos a perceber logo o impacto da música que estamos a tocar.
De certa forma, esse processo acabou por se tornar parte da identidade da banda, quase como um laboratório ambulante, onde experimentamos ideias e vemos como as pessoas reagem.

Ao longo de mais de duas décadas, a banda passou por vários palcos, países e fases musicais. Qual foi o momento em que sentiram que os Kumpania deixaram de ser apenas um projeto de amigos e passaram a ser uma banda com identidade própria?

Foi um processo que aconteceu de forma natural nos primeiros anos da banda.
No início, éramos até rotulados de “saltimbancos”, o que nos deu tempo e liberdade para viajar, experimentar e descobrir a nossa própria identidade e o nosso lugar no mundo da música.
Com o tempo, isso acabou por se tornar muito mais do que um projeto: transformou-se num verdadeiro modo de vida.

O vosso percurso sempre misturou fanfarras, ska e influências balcânicas. Como nasceu essa mistura tão particular e o que vos levou a seguir esse caminho sonoro?

As sonoridades que misturamos na nossa música refletem muito as viagens da banda e também as experiências de cada elemento.
Desde o início, os instrumentos de sopro e acústicos fizeram parte do projeto, pela sua mobilidade e independência, permitindo-nos tocar em qualquer lugar.
Nas viagens, acabamos sempre por descobrir um “novo condimento”, novas influências e novos ritmos.
Além disso, os artistas que tivemos o privilégio de conhecer e com quem trocámos experiências ajudaram-nos a abrir o olhar e os sentidos, mostrando que a música não tem limites e que explorar novos horizontes é parte essencial do nosso caminho.

Chegar ao décimo disco não acontece por acaso. Quando olham para trás, que discos ou momentos foram decisivos para moldar aquilo que os Kumpania Algazarra são hoje?

Para nós, cada disco é um marco na nossa história, como um mapa do percurso da banda.
Todos são importantes e desafiantes, pois refletem diferentes fases e experiências.
Olhar para trás faz-nos perceber que cada disco e cada momento vivido ao longo da nossa história foi decisivo para a banda.
Todos trouxeram desafios e aprendizagens diferentes, ajudando-nos a explorar novas sonoridades e a fortalecer a nossa identidade musical.
Momentos como as primeiras tours internacionais, tocar em festivais grandes ou as nossas experiências nas ruas marcaram também o caminho da banda, permitindo-nos crescer e evoluir ao longo do tempo.

O novo álbum chama-se Tudo ao Contrário. Em que momento surgiu este conceito e o que representa para a banda neste ponto da carreira?

O título “Tudo ao Contrário” reflete o nosso olhar sobre o mundo a partir de uma perspetiva humana.
Não é algo novo, mas sim a ideia de ver a realidade com “olhos de ver”. Tudo está interligado e, neste ponto da nossa carreira, e perante o estado do mundo, sentimos que era o momento certo para partilhar a nossa visão da realidade, aquela que todos vivemos no dia a dia.

Neste trabalho sente-se uma presença mais forte da eletrónica. Foi uma evolução natural do vosso som ou uma decisão consciente de explorar novos territórios?

Neste disco decidimos apostar um pouco mais em elementos eletrónicos, que trouxeram uma energia nova e fresca à nossa música.
Esta abordagem pode até levar algumas faixas às pistas de dança, mas vai além disso. Acompanhar a nossa evolução natural e experimentar novas sonoridades faz parte de quem somos enquanto músicos.

O single “Ignite” fala muito de celebração e de energia coletiva. O que vos inspirou na criação desta música e o que esperam que o público sinta quando a ouve ao vivo?

O single “Ignite” nasceu da energia que se cria nos momentos em que nos reunimos para celebrar o simples facto de estarmos juntos.
É sobre esquecer tudo o resto e reacender a chama da vida que nos une.
Esperamos que quem ouça a música sinta essa mesma força e tenha vontade de dançar e contagiar-se com a celebração.

O videoclip foi gravado em Sintra. Era importante para vocês manter essa ligação ao lugar onde tudo começou?

Neste videoclip, o mais importante não era o local, mas sim o conceito da festa, que depende das pessoas e da energia que criam.
Ainda assim, escolhemos Sintra para a gravação, um lugar mágico e especial para nós, que acabou por tornar tudo mais próximo e significativo.

Os vossos concertos sempre foram conhecidos pela intensidade e pela ligação com o público. O que procuram transmitir quando sobem ao palco?

Quando subimos ao palco, procuramos sobretudo divertir-nos junto do público.
Nesses momentos, sente-se uma fusão de energia e temos a responsabilidade de fazer essa energia circular entre todos, criando uma experiência partilhada e intensa.

Depois de tantos anos de estrada, como é que a banda mantém viva a criatividade e a vontade de continuar a experimentar?

Ao longo dos anos, fomos adquirindo experiências e enfrentando adversidades, e a criatividade tornou-se a nossa forma de nos adaptarmos e de continuar a crescer.
Experimentar na música é, para nós, parte da própria essência.

O panorama musical mudou muito desde o início dos Kumpania Algazarra. Como veem hoje a cena musical portuguesa e o espaço para projetos que cruzam géneros como o vosso?

O panorama musical em Portugal e no mundo está em constante mutação. O espaço para a música alternativa tem diminuído ao longo dos anos, com menos apoio para artistas emergentes e uma redução dos espaços culturais alternativos.
Temos assistido a uma gentrificação cultural, o que nos leva a valorizar ainda mais a diversidade e os pontos de união.
Ao mesmo tempo, é inspirador ver projetos semelhantes, como outras fanfarras, a crescer por várias regiões de Portugal.
Muitos dos que, há 20 anos, eram fãs jovens participam hoje também nas festas pelas ruas, e a celebração continua a expandir-se!

Com um novo disco a caminho e vários concertos anunciados, que objetivos ou sonhos ainda gostariam de concretizar nos próximos anos com os Kumpania Algazarra?

Este ano, já temos concertos marcados em lugares tão variados como a Turquia, Galiza, Açores, Alhandra, Plasencia, Minho e Covilhã.
Nos próximos anos, queremos continuar a viajar, conhecer e partilhar experiências com outros artistas, manter a festa sempre viva e, acima de tudo, inspirar a união e melhorar a condição de vida neste planeta que partilhamos.

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