“Mão Verde III” chega com mais do que novas canções. Traz um posicionamento claro dentro da música portuguesa atual, onde arte e educação se cruzam com intenção. O projeto liderado por Capicua cresceu ao longo dos anos, ganhou corpo coletivo e afirma-se hoje como uma referência quando se fala de música feita para crianças sem simplificar ideias nem baixar exigência.
Nesta entrevista, percebe-se melhor de onde vem este percurso e para onde quer ir. Há uma origem quase improvisada, um crescimento sustentado pelo público e uma vontade constante de ir mais longe, tanto nos temas como na forma de os trabalhar. Ecologia continua presente, mas agora há espaço para falar de democracia, desigualdade, liberdade e comunidade, sempre com poesia, ritmo e um lado lúdico que não esconde a complexidade.
Entre o palco, as escolas e as famílias, a Mão Verde tornou-se um ponto de encontro raro. E talvez seja isso que torna este terceiro disco tão relevante neste momento.

O que vos motivou a criar a Mão Verde e que necessidade sentiram na altura?
A Mão Verde nasceu em 2015, a convite do Teatro São Luiz, em Lisboa, que me convidou para fazer uma temporada de concertos para crianças. Ora, eu não tinha nenhum repertório para o público infantil, mas aceitei o desafio. Convidei o Pedro Geraldes para fazer a música e escrevi as letras. A verdade é que o concerto correu tão bem que as pessoas perguntavam pelo disco. Foi esse entusiasmo que nos levou a gravar o primeiro álbum, que saiu com livro no ano seguinte. Do ponto de vista temático, eu senti que deveria dedicar o projeto à ecologia (daí o nome), pela importância do tema, pelo interesse natural que as crianças têm pela natureza e por sentir que, no meu trabalho habitual, não tinha dedicado ao tema a atenção merecida. Com o tempo, o projeto foi crescendo, fazendo estrada, e sentimos vontade de convidar a Francisca Cortesão e o António Serginho para tocar connosco. Correu tão bem que fizemos um segundo disco-livro, em 2022 (já em quarteto), e agora o terceiro! Este é, portanto, um projeto muito fértil!
Que mensagem central querem transmitir com “Mão Verde III”?
Este terceiro disco-livro expande o projeto do ponto de vista temático. Porque, além de falarmos de ecologia e natureza, como é habitual, temos muitas canções sobre igualdade, democracia, liberdade, diversidade e outros temas importantes. O direito à cidade e à habitação também são temas centrais. Mas sempre pelo atalho da poesia, brincando com estilos de música e abordando esses temas sérios de forma lúdica e divertida!
Como conseguem transformar temas complexos em canções acessíveis para crianças?
É um exercício criativo muito desafiante, mas muito divertido. Nunca quisemos simplificar ou aligeirar. Fazemos música sofisticada, com letras que fazem perguntas complexas, que usam palavras pouco óbvias e que pretendem fazer pensar, mas vamos sempre resgatando o imaginário infantil, as lengalengas. Vamos usando o humor e a poesia como ferramentas e, no fim, todos se divertem! Nós e o público de todas as idades que nos acompanha!
Que impacto esperam ter nas famílias e nas escolas com este disco?
Os dois discos-livros anteriores foram muito bem acolhidos, quer pelas famílias, quer pelas comunidades escolares, que usaram as nossas canções para fazer trabalhos e espetáculos de final de ano, para dinamizar a horta da escola ou projetos de reciclagem. Foi incrível ir recebendo esse feedback ao longo dos anos. Sobretudo porque os livros estão cheios de notas informativas que aprofundam os temas das canções e, portanto, prestam-se muito a ser material didático. Ora, neste terceiro disco-livro, esperamos que essa utilização continue, até porque aqueles que conhecem o projeto tendem a ser muito fiéis. A prova disso foi termos tido casa cheia na Casa da Música, para assistir à apresentação do disco novo, com um público muito entusiasmado, mesmo sem conhecer ainda as canções.
Para onde querem levar o projeto a seguir?
Para a estrada! A ideia é fazermos a maior digressão que for possível fazer nos próximos tempos, para levar as novas canções pelo país e ver verdes e maduros a dançar como se ninguém estivesse a ver!

