Mezzanine – Massive Attack

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A palavra-chave aqui é Mezzanine. Não como memória dos anos noventa, mas como um ponto de tensão que nunca fechou. Há discos que ficam presos ao seu tempo. Este parece fazer o contrário, cresce à medida que o presente acelera e fica mais inquieto a cada nova escuta.

Quando os Massive Attack chegam a este terceiro álbum, já tinham criado uma linguagem própria dentro do trip hop. Em vez de a polir, desmontam-na. O que antes era fluido torna-se rígido, o que era quente passa a ser frio. Há uma sensação de rutura que não é anunciada, mas sente-se em cada faixa.

O processo interno ajuda a explicar essa mudança. Tensões criativas, direções diferentes, um ambiente pouco estável. Tudo isso acaba por infiltrar-se no disco. Não como drama explícito, mas como pressão constante. É um álbum que parece feito com resistência.

O som reflete isso. As linhas de baixo são densas e dominam o espaço. As guitarras entram como textura, quase como interferência. A eletrónica perde suavidade e ganha peso. Não há abertura, há contenção. E o silêncio, quando aparece, não alivia nada.

As vozes reforçam essa distância. Elizabeth Fraser surge com um lado etéreo que nunca conforta. Horace Andy funciona como presença fantasmática. 3D (Robert Del Naja) mantém tudo num registo controlado, quase desligado. Não há tentativa de aproximação.

Alguns momentos definem o território do disco. “Angel” constrói tensão de forma lenta e implacável, sem nunca oferecer libertação. “Teardrop” parece mais acessível à superfície, mas continua carregado de estranheza. “Inertia Creeps” mergulha num ritmo repetitivo que cria uma sensação quase física de inquietação.

O impacto de Mezzanine não está só na influência que teve. Está na forma como continua a soar deslocado. Num tempo de consumo rápido, este disco pede atenção e recusa facilitar. No fundo, não é sobre escuridão. É sobre isolamento. E isso ainda não passou.

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