Nem todos os discos envelhecem com dignidade. Alguns ficam presos ao seu tempo. Outros, raros, parecem crescer com ele. Songs in the Key of Life pertence claramente à segunda categoria. É daqueles álbuns que continuam a ser redescobertos como se tivessem sido lançados ontem.
Editado em 1976, surge num momento em que Stevie Wonder já não precisava de provar nada a ninguém. E talvez por isso tenha arriscado tudo. Em vez de um disco direto e conciso, entrega um projeto expansivo, quase enciclopédico, onde cabe um pouco de tudo. Mas não soa disperso. Há uma visão clara a ligar cada faixa.
A força do álbum está na forma como cruza emoção e técnica sem esforço aparente. Há canções íntimas, quase frágeis, e outras cheias de energia e celebração. “Isn’t She Lovely” capta um momento pessoal com uma leveza desarmante. “Sir Duke” é pura celebração musical. “I Wish” tem aquele groove impossível de ignorar. E no meio disto tudo, há espaço para reflexão social sem cair no discurso pesado.
A produção é outro ponto-chave. Camadas e mais camadas de som, mas sempre com espaço para respirar. Nada parece excessivo. Tudo tem função. E isso nota-se mesmo décadas depois, quando muitos discos da mesma época já soam datados.
O mais curioso é que, apesar da duração generosa, o álbum nunca se arrasta. Pelo contrário. Há sempre um detalhe novo à espera numa audição seguinte. Um arranjo escondido, uma linha melódica que tinha passado despercebida, uma escolha rítmica inesperada.
Ouvir Songs in the Key of Life hoje não é um exercício de nostalgia. É perceber como se constrói um clássico sem seguir fórmulas. E como a ambição, quando é bem executada, não afasta. Aproxima.


