O Amadora Jazz regressa entre 7 e 10 de maio com uma edição que reforça uma ideia que tem vindo a crescer em silêncio: o festival deixou de ser apenas um alinhamento de concertos e passou a funcionar como um sistema completo de criação, circulação e pensamento do jazz em Portugal. Esta 14ª edição mostra isso com mais clareza do que nunca.

A programação espalha-se por vários espaços da cidade e aposta num equilíbrio raro entre nomes internacionais de peso, criação local e um trabalho consistente de mediação com novos públicos. Não é apenas diversidade. É estratégia.
Um festival que se constrói de dentro para fora
A residência artística volta a assumir um papel central e já não surge como elemento experimental. Está integrada no ADN do festival. Depois do encontro entre Luís Vicente e Hamid Drake em 2025, que deu origem ao disco Amadora Tapes, o foco desloca-se agora para o projeto FLORA, liderado por Marcelo dos Reis.
Entre 7 e 9 de maio, o Auditório de Alfornelos transforma-se num espaço de criação ativa. O trio trabalha material novo que será apresentado ao vivo e registado. A presença do trombonista italiano Salvoandrea Lucifora adiciona uma camada extra de diálogo, reforçando a ideia de que o festival não se limita a mostrar música. Também a produz.
Formação de públicos como eixo real
O Amadora Jazz insiste numa área onde muitos festivais falham: a construção de público. E aqui isso não aparece como discurso institucional. Está mesmo no programa.
A apresentação de Às voltas num loop, criação do Jazz ao Centro Clube, leva o festival até à Escola Secundária Seomara da Costa Primo. A mistura entre rap e jazz não é apenas estética. Funciona como ponte geracional, aproximando linguagens e criando pontos de entrada para quem ainda não tem relação com o género.
Esta escolha diz muito sobre a visão do festival. Não basta trazer nomes grandes. É preciso garantir que existe futuro para quem vai ouvir.
Nomes internacionais que definem o presente do jazz
Nos Recreios da Amadora, o programa internacional concentra algumas das figuras mais relevantes do jazz contemporâneo. Fred Hersch apresenta-se a solo, num formato que privilegia a intimidade e a construção emocional ao detalhe. É um dos pianistas mais consistentes da atualidade, com uma linguagem profundamente pessoal.
Mary Halvorson chega com o seu quarteto e um percurso que tem vindo a redefinir o papel da guitarra no jazz moderno. A sua abordagem é imprevisível, fragmentada, mas sempre coerente.
O encontro entre Louis Sclavis e Benjamin Moussay fecha este eixo internacional com uma cumplicidade construída ao longo de décadas, recentemente fixada em disco. Aqui, a linguagem é outra. Mais contida, mais narrativa.
Um programa que pensa o jazz para além do palco
O festival abre também espaço para reflexão. A celebração do centenário de Miles Davis surge através de uma palestra multimédia de João Moreira dos Santos e de uma exposição de XicoFran, cruzando pensamento crítico e expressão visual.
A entrada da Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos no circuito do festival reforça essa ideia de expansão. É aí que Miguel Calhaz apresenta ContraCantos, Vol. 2, num formato intimista que revisita a canção portuguesa a partir do jazz.
O encerramento com a GeraJazz, no Cineteatro D. João V, mantém uma das marcas mais fortes do festival. O compromisso com os jovens músicos não aparece como gesto simbólico. Está integrado no desenho do evento.
Fica a sensação de que esta edição não quer apenas ocupar dias no calendário. Quer ocupar espaço real na forma como o jazz é vivido, pensado e partilhado em Portugal.

