O verão açoriano já começou a ganhar forma e o 42º Festival Maré de Agosto acaba de revelar uma programação que mistura reggae, punk, soul, música eletrónica e nomes emergentes num dos cenários mais fortes da música ao vivo em Portugal. Entre 19 e 22 de agosto, a Praia Formosa, em Santa Maria, volta a transformar-se num ponto de encontro raro entre tradição alternativa, espírito comunitário e descoberta musical.

Num tempo em que muitos festivais parecem cada vez mais iguais, o Maré de Agosto continua a insistir numa identidade própria. Continua pequeno na escala industrial dos grandes eventos nacionais, mas enorme na forma como constrói ambiente, memória e relação com o público. E isso sente-se logo neste cartaz de 2026.
Um sunset sobre a baía abre quatro dias de música
A edição deste ano arranca a 19 de agosto com o Palco Terra em formato sunset no Miradouro da Macela. A escolha do local muda logo a atmosfera do primeiro dia. Em vez da lógica tradicional de abertura tímida, o festival aposta numa entrada mais contemplativa, virada para a paisagem e para a experiência coletiva.
Os açorianos We Sea aparecem como um dos nomes mais interessantes desta abertura. A banda mistura indie rock melódico com uma carga atmosférica muito ligada ao imaginário atlântico. Existe ali qualquer coisa de íntimo, mas também cinematográfico, como se as canções fossem feitas para acompanhar o horizonte da ilha ao final da tarde.
Os Manga Limão trazem outra energia. Mais leve, mais descontraída, mais virada para o contacto direto com o público. E depois surge DJ Antoine C, nome conhecido da noite açoriana, para prolongar o ambiente até mais tarde.
Reggae, world music e rave sem filtros
O dia 20 apresenta talvez um dos blocos mais fortes de toda a edição. Os Terrakota regressam aos palcos numa altura em que muita gente já não esperava voltar a vê-los com regularidade. A banda lisboeta continua a carregar aquela mistura explosiva de reggae, ska, afrobeat e espírito de rua que sempre transformou os concertos numa espécie de celebração coletiva.
Ao lado deles aparece Queen Omega com os The Royal Souls. A artista de Trinidad & Tobago traz um peso diferente ao cartaz. Mais espiritual, mais político, mais ligado às raízes do reggae consciente. A presença dela dá ao festival uma dimensão internacional muito forte e pode acabar por ser um dos momentos mais intensos da edição.
Depois entra DJ K77, nome ligado ao techno melódico e a uma estética mais cinematográfica. O contraste entre reggae roots e música eletrónica pesada pode parecer improvável no papel, mas é precisamente este tipo de choque que sempre ajudou o Maré de Agosto a escapar da previsibilidade.
Entre soul, punk e novas ligações atlânticas
O alinhamento dos dias seguintes continua a fugir da fórmula fácil. Oma Jali chega com um percurso pouco comum, depois de experiências ligadas ao jazz, pop e televisão francesa. Já os alemães Wüstenberg aparecem com um rock alternativo mais emocional e atmosférico, claramente pensado para palco.
No mesmo dia, DJ OKO traz a influência rave britânica, misturando drum and bass, techno e hard dance. É uma mudança clara de energia que mostra também como o festival tenta aproximar linguagens muito diferentes sem perder coerência.
O último dia talvez seja o mais transversal. Cais do Sodré Funk Connection recuperam o funk clássico com metais explosivos e uma abordagem muito física ao palco. Depois surge Vitor Kley, um dos nomes mais populares do pop brasileiro recente, provavelmente responsável por atrair uma geração mais jovem ao festival.
E há ainda os italianos Talco, veteranos do punk-ska europeu, conhecidos pela intensidade quase caótica dos concertos. Fechar a edição com Talco parece uma decisão muito consciente. A Maré de Agosto continua a preferir suor, movimento e barulho humano em vez de finais excessivamente calculados.
Um festival que continua a resistir nos Açores
Existe outro detalhe importante nesta edição. Os festivaleiros de São Miguel e das outras ilhas poderão viajar até Santa Maria (uma velha tradição) por via marítima através de transporte de passageiros. A novidade pode mudar bastante a dinâmica do público e aumentar a circulação entre ilhas durante o festival.
Mas o ponto mais relevante talvez esteja escondido no próprio comunicado da organização. A Associação Cultural Maré de Agosto fala diretamente das dificuldades crescentes no acesso a apoios culturais. E mesmo assim o festival continua vivo ao fim de 42 anos.
Num panorama onde muitos eventos desapareceram ou perderam personalidade, a Maré de Agosto continua a funcionar quase como resistência cultural atlântica. Não depende apenas de nomes grandes. Depende de contexto, comunidade, geografia e daquela sensação rara de que o lugar ainda importa tanto quanto o cartaz.
No fundo, talvez seja isso que mantém Santa Maria diferente quando agosto começa a aproximar-se outra vez.

