Entre Lisboa, Coimbra e pequenas viagens até Cadima, nasceu um disco que parece funcionar mais como ponto de encontro do que como simples compilação. “Tainada”, o novo lançamento conjunto da CIGA239 e do Coletivo Lenha, chega a 9 de maio em formato digital e CD, reunindo produtores e artistas das duas estruturas num projeto colaborativo que reforça uma ideia cada vez mais visível na música eletrónica portuguesa: a criação coletiva voltou a ganhar espaço.

O disco junta sete temas construídos a partir de sessões partilhadas, trocas de ficheiros, encontros presenciais e uma lógica quase comunitária de produção. A eletrónica aqui não aparece fechada num único género. Pelo contrário. Há breaks, footwork, dubstep e várias derivações híbridas a cruzarem-se sem grande preocupação em seguir linhas rígidas. O resultado soa mais livre do que formatado.
Um encontro entre editoras que já andavam próximas na linguagem
O Coletivo Lenha nasceu em Lisboa em 2018 e rapidamente começou a criar uma identidade ligada à música eletrónica experimental e colaborativa. Já a CIGA239 apareceu em Coimbra em 2020, também com foco em novas linguagens eletrónicas e na construção de uma comunidade artística própria.
As duas estruturas partilhavam interesses semelhantes há bastante tempo. Faltava apenas transformar essa aproximação num objeto concreto. Foi isso que aconteceu em 2025, quando vários membros se encontraram na Associação Cultural Lúcia Lima, em Cadima, para iniciar sessões de produção que acabariam por dar origem a “Tainada”.
Existe qualquer coisa de particularmente interessante neste processo porque o disco não tenta esconder o lado artesanal da criação. Pelo contrário. Sente-se a circulação de ideias, o choque entre referências e até pequenas imperfeições que acabam por dar personalidade ao conjunto.
“ABUSO” já mostra o lado mais físico do projeto
O primeiro avanço do disco chama-se “ABUSO”, assinado por Caucenus e Dj 420@ôa. O tema funciona quase como porta de entrada para o universo do álbum: ritmos quebrados, tensão clubbing e uma produção que evita cair na previsibilidade mais limpa da eletrónica contemporânea.
Há energia de pista, claro, mas também uma sensação de laboratório sonoro constante. Nem tudo procura impacto imediato. Algumas ideias parecem existir precisamente para criar estranheza e movimento interno dentro das faixas.
Isso acaba por aproximar “Tainada” de uma tradição mais underground da eletrónica portuguesa, onde o importante raramente foi apenas fazer música funcional para clubes. Existe sempre uma tentativa de experimentar qualquer coisa nova, mesmo quando o resultado fica desconfortável.
Coimbra recebe a apresentação do disco
Para assinalar a edição do álbum, a CIGA239 e o Coletivo Lenha organizam a festa “CIGA LENHA” no dia 9 de maio, na Casa das Artes Bissaya Barreto, em Coimbra. O evento decorre entre as 16h e as 20h e deverá reunir vários nomes envolvidos no projeto.
A escolha de Coimbra também faz sentido dentro da história do disco. Nos últimos anos, a cidade tem vindo a consolidar pequenos núcleos ligados à eletrónica alternativa e à cultura DIY, muitas vezes fora do radar mediático mais evidente.
Este tipo de iniciativas acaba por mostrar uma realidade que continua a crescer longe dos grandes festivais e das playlists mais óbvias. Pequenas editoras, espaços independentes e coletivos locais continuam a alimentar uma parte importante da música portuguesa atual.
“Tainada” chega num momento em que a eletrónica portuguesa procura novas ligações
Durante muito tempo, muitos projetos eletrónicos nacionais funcionaram quase isolados, presos às suas cidades, circuitos e micro cenas. “Tainada” parece contrariar isso. O disco nasce precisamente da colaboração entre contextos diferentes e de uma vontade clara de criar pontes.
Também existe aqui um lado geracional interessante. Nenhuma das duas editoras parece preocupada em seguir tendências internacionais de forma direta. As referências estão lá, mas passam por uma filtragem muito própria, mais ligada à convivência entre pessoas do que a estratégias de mercado.
Talvez seja isso que torna este lançamento particularmente relevante neste momento. Não apenas pelas músicas, mas pela forma como o disco documenta uma comunidade em movimento. Uma comunidade pequena, dispersa, às vezes invisível. Mas claramente viva.

