Há encontros musicais que parecem improváveis no papel, mas inevitáveis quando chegam aos ouvidos. É exatamente nesse espaço que vivem os Bossarenova Trio, projeto que junta a voz brasileira de Paula Morelenbaum à criatividade dos músicos alemães Joo Kraus e Ralf Schmid. Ao longo de mais de uma década, o grupo construiu uma identidade própria, onde a tradição da bossa nova encontra o jazz contemporâneo, a eletrónica e uma vontade permanente de experimentar.
Agora, o trio apresenta “LEVITAR”, um novo álbum de originais que reforça essa procura constante por novos caminhos. Inspirado pela ideia de flutuar entre memórias, emoções e geografias, o disco marca uma nova etapa na história da banda, sem perder a ligação às raízes da música brasileira que estiveram na origem do projeto.
Numa conversa com o Musicatotal, Paula Morelenbaum recorda os primeiros passos dos Bossarenova Trio, fala do processo criativo por detrás de “LEVITAR” e deixa pistas sobre o futuro de uma formação que continua a desafiar fronteiras musicais.

Photo Bossarenova T. by Rob Stirner
Como nasceu a ideia de criar os Bossarenova Trio e que pontos em comum encontraram entre as vossas diferentes origens musicais?
O Bossarenova Trio surgiu de um encontro entre Ralf Schmid, Joo Kraus e eu num projeto da SWR Big Band de Stuttgart, onde fui convidada para ser a cantora de um álbum dessa Big Band dedicado à música brasileira, com um repertório focado na bossa nova, seguido de uma digressão. No final dessa tournée, já estávamos com a ideia de criar a menor Big Band do mundo (risos) e começámos a apresentar-nos como Bossarenova Trio.
Tanto o Ralf como o Joo têm uma grande cultura da música brasileira, o que me surpreendeu no melhor dos sentidos e foi certamente o nosso ponto de união. Eu, por outro lado, tenho muito mais conhecimento da música clássica alemã do que da música pop.
Ao longo de mais de uma década de percurso, quais foram os momentos mais marcantes na evolução do projeto?
Durante esse tempo, além de muitas digressões pela Europa, incluindo também concertos nos Estados Unidos e na Ásia, gravámos dois álbuns e agora estamos a lançar o terceiro, “Levitar”.
O nosso repertório é extenso. Já passámos pela música clássica de Villa-Lobos, Schumann e Schubert, por clássicos brasileiros modernos de Jobim e Pixinguinha, sempre com um olhar contemporâneo. Agora escolhemos um novo caminho, centrado em músicas da nossa própria autoria. Penso que todos esses momentos foram marcantes e determinantes para a nossa evolução.
A bossa nova é uma linguagem musical profundamente ligada à tradição brasileira. Como foi o processo de a cruzar com elementos de jazz contemporâneo e eletrónica?
Eu sempre flertei com essa mistura de bossa nova com um toque eletrónico. Faço isso desde o meu álbum “Berimbaum”, de 2004. Para mim, é algo natural, não é novidade. Faz parte da minha geração.
Que artistas ou discos tiveram maior influência na construção da identidade sonora dos Bossarenova Trio?
Toda a obra de Jobim, Baden Powell, a música clássica em geral e a música pop da Alemanha e do resto do mundo. Gostamos de tudo isso.
O novo álbum “LEVITAR” apresenta uma sonoridade muito particular. O que distingue este trabalho dos lançamentos anteriores?
Neste álbum, o nosso foco esteve nas músicas autorais e inéditas, nas parcerias que construímos, eu com o Ralf e eu com o Joo. Isso amplia e solidifica o nosso caminho como trio.
Mas não deixámos de gravar dois clássicos: um de Jobim e outro de Baden Powell.
Como surgiu a composição de “Levitar” e de que forma a ideia de observar a Terra a partir do espaço acabou por influenciar a canção?
Assim que o Ralf me mostrou a música, senti que ela flutuava. A inspiração para a letra surgiu imediatamente. Percebi que o tema seria a ausência de gravidade e imaginei que quem contava a história da canção seria alguém dentro de uma nave espacial, observando a Terra.
A letra fala de leveza, pensamentos, estrelas, saudades e de como o amor nos faz levitar.
A colaboração entre Paula Morelenbaum, Joo Kraus e Ralf Schmid acontece entre diferentes países e culturas. Como funciona atualmente o vosso processo criativo?
Sempre que nos encontramos para digressões, conversamos sobre os projetos atuais e futuros e combinamos momentos para criar juntos.
Além disso, já há bastante tempo que é possível gravar à distância, e este novo álbum foi muito construído dessa forma. Gravámos juntos uma espécie de embrião das músicas e, depois, cada um de nós foi desenvolvendo as gravações individualmente. Eu no Brasil e eles na Alemanha.
Contámos ainda com a colaboração de Lucas Nunes na produção de duas faixas, “Levitar” e “Será”. Além de tocar guitarra, trouxe também a participação de músicos brasileiros maravilhosos como Alberto Continentino, Thomas Harres e Pacato.
O álbum inclui temas originais e uma homenagem a Vinicius de Moraes e Baden Powell. Qual a importância de manter essa ligação às raízes da música brasileira?
E também uma canção de Jobim.
A raiz do nosso encontro musical é a música brasileira e, talvez por isso, apesar de termos decidido gravar um álbum de inéditos, incluímos essas duas canções. Uma delas nunca tínhamos tocado juntos e a outra já faz parte dos nossos concertos, é muito querida pelo público e nunca a tínhamos gravado.
O vídeo de “Levitar” acaba de ser lançado. Que papel desempenha a componente visual na forma como apresentam a vossa música ao público?
Hoje existe uma relação muito forte entre música e imagem. O videoclipe de “Levitar” utiliza câmaras Super 8, onde aparecemos em imagens pouco focadas, propositadamente.
Sentem que existe hoje uma maior abertura do público para projetos que cruzam géneros e desafiam fronteiras musicais?
Certamente. Tanto por parte do público como dos críticos, que até há pouco tempo precisavam de catalogar os géneros das músicas e, quando não conseguiam fazê-lo, ficavam furiosos (risos).
Depois do lançamento de “LEVITAR”, quais são os principais objetivos dos Bossarenova Trio para os próximos meses?
Estamos a iniciar esta nova fase. Os concertos de lançamento do álbum começam em outubro deste ano. Faremos três concertos em Portugal e depois seguiremos para várias cidades da Alemanha, além de Londres, Bucareste e Genebra.
Já temos períodos reservados para concertos no próximo ano. O nosso objetivo agora é divulgar amplamente este novo álbum.
Olhando para o futuro, que territórios musicais ainda gostariam de explorar e onde imaginam os Bossarenova Trio daqui a cinco ou dez anos?
Ainda é muito cedo para pensarmos no que faremos depois deste período de lançamento do novo álbum. Mas gostamos muito das parcerias com Big Bands e orquestras, com quem já tivemos experiências muito bonitas e gratificantes.
Não me surpreenderia se um futuro projeto do trio passasse novamente por uma dessas colaborações.
Quanto ao futuro daqui a cinco ou dez anos, parece-me uma distância muito grande para imaginar. Não faço ideia. Mas gostaria de continuar a cantar com o Joo e o Ralf durante muito tempo.



