Há uma ideia cómoda que insiste em voltar. Volta sempre.
A de que a música nacional é património.

Coisa para respeitar à distância. Tipo museu ao domingo. Entra-se, olha-se, sai-se. Tá feito.
Mas não é bem assim. Nunca foi.
Em 2026, a música feita em Portugal não vive do passado. Vive do atrito com o presente. Vive do choque. Identidade contra velocidade. Gente contra algoritmo. E vive cansada. Cansada mas acordada. Ainda curiosa. Ainda a tentar dizer qualquer coisa antes que a próxima coisa comece. E começa sempre.
Um país pequeno, outra vez a tentar explicar-se
Portugal é pequeno. Sempre foi.
E a música sempre serviu para explicar isso. Ou tentar.
Durante anos foi refúgio, comentário, resistência. Agora o inimigo é outro. Já não é a censura directa, nem o isolamento. É pior. É a indiferença. A lógica do consumo rápido. A playlist infinita onde tudo cabe e nada fica.
Engole-se tudo. Contextos, histórias, caras. Uma faixa atrás da outra. E pronto.
Mesmo assim, a música portuguesa continua. Não por estratégia. Não por plano. Continua porque sim. Porque alguém tem de escrever aquela canção. Mesmo sabendo que talvez ninguém vá ouvir. Ou vá ouvir de raspão. Há qualquer coisa de teimoso nisso. Humano. E cansado. No bom sentido.
As bandas que abriram a porta sem pedir licença
No rock e na pop alternativa, fala-se sempre dos Ornatos Violeta.
E com razão.
Não só pelo que fizeram, mas pelo que abriram. Aquela ideia simples, mas na altura não era nada simples. Escrever em português. Sem pedir licença. Sem suavizar. Sem medo de soar estranho. Foi ali. Foi mesmo ali.
Esse gesto ainda anda por aí. Passou pelos Pluto. Chegou aos Capitão Fausto, que herdaram essa urgência emocional, essa vontade de falar do agora sem cinismo.
E depois há os Mão Morta. Sempre os Mão Morta. Desconfortáveis. Políticos. Necessários. Num país que foge do confronto como quem foge da chuva, eles continuam a apontar o dedo. Não é simpático. Não é fácil. Mas alguém tem de o fazer.
Dançar também é dizer qualquer coisa
Entretanto, a eletrónica portuguesa foi crescendo sem pedir autorização.
Branko levou a sonoridade lusófona para fora, para pistas e palcos onde antes não entrava. Os Buraka Som Sistema abriram portas. À bruta, se calhar. Mas abriram. E isso ficou.
Hoje há Moullinex, Xinobi, Holly. Gente que mistura pista, pop, identidade sem fazer disso manifesto. Não explicam muito. Não precisam.
Não imitam. Conversam. A partir daqui.
E isso nota-se. Dançar também é linguagem. Mesmo quando não parece. Mesmo quando ninguém está a pensar nisso.
A palavra, o fado e outras coisas que não ficaram quietas
Na canção, a palavra voltou a pesar. Ou nunca deixou.
Samuel Úria escreve como quem pensa demais. Ironia, fé, dúvida, tudo misturado. Surma arrisca. Às vezes cai. Outras acerta. Joana Espadinha e Benjamim falam do dia-a-dia, assim mesmo. Do que acontece entre o café e o metro.
Canções que não pedem pressa. Pedem tempo.
E tempo anda curto.
O fado também não ficou parado, apesar de parecer. Ana Moura, Camané, Carminho mexeram-lhe sem o partir. Maro e Lina levaram-no para outros sítios. Jazz, pop, eletrónica. Sem pedir desculpa. Cultura viva não fica quieta. Não dá.
Mesmo nos extremos, há espaço. Moonspell continuam a levar Portugal para palcos improváveis. Bizarra Locomotiva, Gaerea. Tudo fora do centro. Mas a existir. A sério.
Na música urbana, Dillaz, Bispo, Piruka, Nenny falam de um país que raramente entra nos discursos bonitos. Linguagem crua. Rua. Redes. Pressão. Não são só números. São retratos.
Falar de música nacional hoje é falar de pluralidade. De estilos que não se anulam. De gente a criar apesar da falta de espaço, apesar da instabilidade, apesar da pressa constante. Num país pequeno, isto não é detalhe.
Talvez a música portuguesa nunca tenha pedido consenso.
Pede espaço. Tempo. Escuta.
E enquanto houver alguém a cantar cá, sobre cá, pra cá e pra fora também, há qualquer coisa em aberto. Uma conversa que não acabou. Um som que continua ali. Mesmo baixo. Mesmo cansado.


















