Nem sempre a pop portuguesa arrisca sair do seu próprio conforto. Quando isso acontece, percebe-se logo. A digressão LIVRE x BRUTA nasce desse impulso raro de cruzar caminhos sem diluir identidades, juntando Alex D’Alva e Rita Onofre num mesmo palco para testar até onde a música independente consegue ir quando se abre ao outro.

O ponto de partida são dois discos recentes. Dois gestos distintos que agora se encontram numa mesma narrativa ao vivo.
Dois discos, duas formas de sentir
LIVRE, EP editado por Alex D’Alva a 4 de fevereiro em edição de autor, constrói-se como espaço de descoberta. A eletrónica surge como ferramenta de liberdade, onde o corpo e a pista convivem com uma ideia mais íntima de criação.
BRUTA, álbum de Rita Onofre lançado a 18 de março, segue noutra direção emocional. Aqui, a intensidade domina. As canções movem-se entre fragilidade e força, com uma abordagem que cruza o físico e o espiritual sem pedir licença.
Um encontro que não anula diferenças
A força desta tour está precisamente no contraste. LIVRE e BRUTA não procuram um meio-termo fácil. Preferem o confronto produtivo entre o leve e o denso, entre o impulso coletivo e a introspeção.
Essa tensão cria espaço para algo mais interessante. Um diálogo real. Um tipo de espetáculo onde cada universo mantém a sua linguagem, mas ganha outra dimensão quando colocado lado a lado.
Criar comunidade num circuito fragmentado
Num contexto onde a música independente muitas vezes se dispersa em nichos, esta digressão funciona como gesto de aproximação. Não apenas entre artistas, mas também com o público.
Existe aqui uma intenção clara de comunidade. Não como conceito abstrato, mas como prática. Estar no mesmo espaço, partilhar o risco, testar novas formas de ligação.
Datas e cidades onde tudo acontece
A tour LIVRE x BRUTA percorre várias cidades nas próximas semanas, mantendo uma lógica próxima e direta com o circuito de salas independentes:
26 de março no Lux Frágil em Lisboa
27 de março no Salão Brazil em Coimbra
3 de abril no Maus Hábitos no Porto
9 de abril no INDIEROR em Chaves
10 de abril no Texas Club em Leiria
11 de abril na Sociedade Harmonia Eborense em Évora
Percursos que chegam a este momento
Alex D’Alva construiu um trajeto multifacetado entre música, DJing e criação interdisciplinar, com momentos marcantes desde os D’ALVA até colaborações com nomes centrais da cultura portuguesa. O seu percurso revela uma constante vontade de experimentar formatos e contextos.
Rita Onofre chega a este novo capítulo depois de um crescimento sustentado, desde os primeiros passos no circuito independente até ao reconhecimento com “hipersensível” e à passagem pelo Festival da Canção. O novo álbum BRUTA surge como afirmação clara de identidade.
Um palco partilhado que abre mais do que fecha
LIVRE x BRUTA não se apresenta como síntese. Não tenta resolver diferenças nem simplificar caminhos. Funciona antes como espaço de fricção criativa, onde duas visões coexistem sem se anularem.
E talvez seja aí que a coisa ganha força. No momento em que a pop deixa de procurar consenso e passa a aceitar o risco como motor, mesmo que isso signifique não saber exatamente o que vem a seguir.

