Há vozes que não se aprendem. Crescem devagar, como musgo em pedra antiga. A de Aníbal vem daí. Do vento da Relva, do cheiro a mar cedo demais, das palavras que ficam a meio porque o horizonte distrai.

Raízes que não se apagam
Nasceu a 5 de dezembro de 1954, em São Miguel. E isso não é detalhe biográfico, é matéria-prima. Há artistas que tentam fugir da origem. Ele ficou. Ou melhor, levou a ilha consigo, para todo o lado.
A música que escreve não pede licença à tradição, conversa com ela. Cancioneiro açoriano, canção portuguesa, ecos do Brasil, alguma disciplina clássica ali no fundo. Nada exibido. Está lá. Sente-se mais do que se explica.
Uma carreira feita de palco
Tocou nas ilhas todas. Madeira também. Continente. França. Canárias. Cabo Verde. Sempre com essa ideia de que a canção pode atravessar mar sem perder sotaque.
Gravou para a RTP Açores. Subiu a palcos grandes, salas cheias, teatros onde a respiração do público quase pesa. Mas não há espetáculo sem intimidade. Mesmo num auditório inteiro, a sensação é de sala pequena. É estranho. Funciona.
Discos que são território
Maré Cheia apareceu em 1999. Depois A Palavra e o Canto. Rocha da Relva. Mar de Capelo. Falas & Afetos. Luz do Tempo. Os títulos dizem muito antes de se ouvir uma nota.
Não há pressa nos discos. Há permanência. São trabalhos que parecem feitos para durar mais do que a temporada cultural do costume. Em 2017 recebeu a Insígnia Autonómica de Reconhecimento. Cerimónia oficial, Presidente da República presente. Reconhecimento formal de algo que já estava no ar há muito.
O que vem aí
Para 2026 fala-se num songbook. Cento e cinquenta músicas reunidas. Letras, melodias, cifras. Papel que guarda o que antes era só voz e memória.
Há concertos marcados. Falas & Afetos volta a palco, agora a celebrar a língua portuguesa em várias geografias. E um novo disco em construção. Elogio da Vida. Título grande. Talvez simples. Talvez necessário.
No fundo, continua a mesma coisa. Um homem, uma ilha, uma canção que insiste em ficar. Mesmo quando tudo muda. Mesmo quando ninguém está a olhar. E depois silêncio. Ou quase.



















