Sábado, 10 de Outubro de 2026
Editorial

Antes que tudo caia

Por Jorge Silva Medeiros 10 Out 2026

Caem as folhas, caem os frutos, caem as pessoas, caem as bombas. E o mal continua de pé.

Muda o tempo, mudam os governos, mudam as armas, mudam os nomes daqueles que decidem o destino dos outros. Mas existe qualquer coisa que permanece. O medo, a vontade de dominar, a indiferença perante o sofrimento alheio. Parece que a humanidade aprende a fazer quase tudo, menos a deixar de destruir aquilo que constrói.

Olho para o que se passa à nossa volta e não consigo evitar uma pergunta: como chegámos aqui?

Temos conhecimento, tecnologia, máquinas cada vez mais capazes, inteligência artificial que aprende a escrever, a criar imagens, a compor música e a responder a perguntas que, há poucos anos, pareciam impossíveis. Conseguimos chegar cada vez mais longe, mas continuamos a tropeçar nos mesmos erros. Ainda morrem pessoas por decisões de quem nunca estará no lugar delas. Ainda se destroem cidades, famílias e vidas em nome de fronteiras, interesses e poder.

E depois chamamos a isso progresso.

Talvez o problema não seja aquilo que ainda não conseguimos inventar. Talvez seja aquilo que, apesar de tudo o que já inventámos, continuamos sem aprender.

Às vezes, dou por mim a pensar na inteligência artificial. Nós criámo-la, alimentámo-la com conhecimento e pedimos-lhe que encontre respostas. E agora começamos a discutir o que ela poderá fazer, o que poderá mudar, o que poderá correr mal. Há qualquer coisa de inquietante nesta relação. Construímos máquinas capazes de imitar tantas das nossas capacidades, enquanto nós próprios parecemos cada vez menos capazes de controlar o rumo das coisas.

Não é a máquina que me preocupa mais. Somos nós.

O que faremos com tudo aquilo que estamos a criar? Que humanidade estamos a deixar para trás enquanto corremos para o futuro? E de que nos serve tanta inteligência se não conseguimos impedir que o sofrimento dos outros se transforme numa imagem que passa no ecrã, entre duas notícias, antes de voltarmos à nossa vida?

Talvez já nos tenhamos habituado demasiado à queda.

Caem as árvores, arrancadas pelo vento. Caem as casas, destruídas pelas tempestades. Caem as pessoas, vítimas de guerras que não escolheram. E nós assistimos, muitas vezes sem saber o que fazer, outras vezes convencidos de que nada podemos fazer.

O ano de 2027 aproxima-se e não sei o que nos espera. Receio que algumas coisas piorem antes de melhorarem. O clima continuará a colocar-nos perante fenómenos extremos, e as guerras não desaparecem só porque estamos cansados de as ver. Mas não quero transformar o medo numa previsão, nem aceitar que o futuro já esteja escrito.

É precisamente isso que me inquieta: a facilidade com que começamos a aceitar o pior como se fosse inevitável.

Não é.

Podemos não conseguir travar uma tempestade. Não podemos impedir que as folhas caiam no outono, nem exigir à natureza que siga os nossos desejos. Mas as guerras são decisões humanas. O ódio alimenta-se de escolhas. A indiferença também. E aquilo que os seres humanos fazem não tem de permanecer para sempre como está.

Talvez seja preciso parar um pouco. Não para fugir do mundo, mas para olhar para ele sem a pressa de encontrar uma resposta imediata. Pensar no que estamos a fazer, no que estamos a permitir e naquilo que, mesmo parecendo pequeno, ainda depende de nós.

Não tenho uma solução para apresentar. Desconfio de quem promete resolver os problemas do mundo com meia dúzia de frases. Sei apenas que não podemos entregar todas as decisões aos poderosos, todas as respostas às máquinas e toda a responsabilidade ao futuro.

O futuro não é uma pessoa que virá resolver os nossos erros. Somos nós que o estamos a construir, mesmo quando fingimos não ter nada a ver com isso.

E talvez seja essa a parte mais difícil de aceitar.

As folhas vão continuar a cair. Os frutos também. A natureza encontrará os seus caminhos, como sempre encontrou. Mas não devíamos aceitar que a morte, a guerra e o medo se tornassem estações permanentes da vida humana.

Porque, se continuarmos a assistir a tudo isto como quem vê a chuva cair do outro lado da janela, um dia talvez já não reste ninguém a perguntar por que razão o mundo ficou assim.

E quando esse dia chegar, de pouco nos servirá toda a inteligência que fomos capazes de criar.

O que me pergunto, antes de mais uma folha cair, é se ainda vamos a tempo de aprender a cuidar daquilo que não queremos perder.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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