Antiga Roll e Dpeids lançam split “Enquanto o Mundo Apodrece” e reforçam laços da cena de Manaus

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Num momento em que a música independente brasileira volta a afirmar o seu papel como espaço de confronto e catarse, duas bandas de Manaus transformam uma amizade de 15 anos num manifesto partilhado.

 

 

“Enquanto o Mundo Apodrece” chega às plataformas digitais com 13 faixas e a promessa de edição em vinil, reunindo dois EPs que nasceram separados mas cresceram lado a lado.

O projeto junta “Enquanto o Mundo Envelhece”, da Antiga Roll, e “Todo Mundo É Santo no Domingo”, da Dpeids, num retrato direto das tensões sociais e afetivas do presente. Mais do que uma divisão formal de repertório, o split funciona como fotografia de uma cena que se constrói em rede, com cumplicidade e persistência.

Amizade, palco e resistência no Norte

A ligação entre Antiga Roll e Dpeids começou há cerca de década e meia, quando passaram a dividir palcos em Manaus. Desde então, a parceria ultrapassou os concertos e ganhou contornos estruturais na organização de eventos e na consolidação de espaços para a música autoral na região.

Ambas participam na construção do festival Mama Rock, realizado desde 2013 em diferentes cidades do Norte, e na gestão da Mama Records, selo e produtora que tem impulsionado lançamentos locais. O split surge também como extensão natural desse trabalho coletivo, reforçando a ideia de que a cena se sustenta quando há cooperação real.

Dois EPs, um mesmo clima de inquietação

Segundo Carlos Castilho, vocalista da Dpeids, o título “Enquanto o Mundo Apodrece” traduz a sensação de viver num país atravessado por contradições, ironia e tensão política. As letras apontam para o conservadorismo hipócrita e para figuras reacionárias, mas não se limitam ao comentário social. Há espaço para paixões, cachaça, skate e episódios do quotidiano.

Nick Yamane, vocalista da Antiga Roll, destaca outra dimensão do disco. Algumas canções assumem um tom nostálgico, outras funcionam como exercício de liberdade ou descarga do stress diário. A intenção não passa por sustentar um discurso pesado do início ao fim, mas por equilibrar crítica e leveza, sarcasmo e descompressão.

Canções que atravessam ausência e hipocrisia

Entre as faixas da Antiga Roll, “Agora” conta com a participação de Gabriel Brasil, baixista da banda Morgados. A canção mergulha nos encontros e desencontros da vida adulta, confrontando a passagem do tempo e o vazio deixado por quem já não está presente. O guitarrista Tharciso Yamane sublinha essa dimensão emocional, centrada na aprendizagem da ausência.

Já a Dpeids evidencia “Todo Mundo É Santo no Domingo” como uma das peças centrais do seu EP. A música questiona a moral seletiva de quem se apresenta como exemplo religioso enquanto age de forma oposta no quotidiano. Castilho assume que a banda não compõe para parecer certa. Compõe para provocar, para rir do absurdo e para cutucar o que considera errado.

Do digital ao vinil e à estrada

Além do lançamento nas plataformas digitais, “Enquanto o Mundo Apodrece” terá edição em vinil LP 12” prevista para junho, em parceria com o selo paulista Neves Records. A escolha do formato físico reafirma a importância do objeto num circuito que valoriza a experiência e o colecionismo.

No segundo semestre, as duas bandas pretendem levar o repertório para outras regiões do país, ampliando o alcance de uma produção que nasce no Norte mas dialoga com inquietações nacionais. Entre ironia, memória e confronto, o split marca mais um capítulo de uma história construída em conjunto, com os pés firmes na cena local e os olhos atentos ao que se move lá fora.

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