Num momento em que tudo parece acelerar, há artistas que escolhem ir na direção contrária. Este novo trabalho nasce dessa desaceleração consciente, quase como um gesto de resistência

Um disco que não quer impressionar à pressa, mas ficar. Ficar no ouvido, na memória, naquilo que realmente importa.
Lançado neste Dia do Pai, “Oração ao Tempo” surge como um ponto de maturidade numa discografia já longa e consistente. Não é apenas mais um álbum. É uma reflexão contínua que começou na pandemia e que agora ganha forma completa, com uma ideia clara: fazer menos, mas melhor.
Um disco que nasce da pausa
O processo começou com “Pequenos Prazeres”, ainda em contexto de confinamento. A partir daí, o tempo deixou de ser apenas tema e passou a ser método. Este disco foi pensado sem urgência, sem pressão de calendário, com espaço para respirar.
Esse tempo sente-se nas canções. Há uma contenção deliberada, um cuidado no detalhe, uma forma de cantar que não precisa de provar nada. Zambujo soa seguro, mas nunca acomodado.
A produção de André Santos reforça essa ideia. Tudo é limpo, orgânico, próximo. Nada sobra. Nada distrai.
Entre tradição e nova geração
“Oração ao Tempo” cruza diferentes gerações da música portuguesa. De um lado, nomes recorrentes como Maria do Rosário Pedreira, João Monge ou Pedro da Silva Martins. Do outro, vozes mais recentes como Carolina Deslandes, Mimi Froes ou Rita Dias.
Este encontro não soa forçado. Pelo contrário. Funciona como continuidade natural de um percurso que sempre soube absorver influências sem perder identidade.
A presença de Caetano Veloso no tema-título reforça essa ponte lusófona, enquanto referências como Tom Jobim ou Vinicius de Moraes ajudam a situar o disco num território mais amplo, entre a canção portuguesa e a tradição brasileira.
“Regresso à Infância” e a memória como matéria
O segundo single, “Regresso à Infância”, é talvez o momento mais emocional do disco. A canção trabalha aquela fronteira invisível onde a infância começa a desaparecer, onde surge a consciência da perda.
O videoclipe, realizado por Pedro Varela, não tenta contar uma história linear. Propõe antes uma sensação. Um regresso a esse lugar onde tudo parecia intacto, mas já não está.
A letra de Maria do Rosário Pedreira e a música de João Gil encontram aqui um equilíbrio raro entre delicadeza e impacto. Não há dramatização excessiva. Há verdade.
O palco como continuação do disco
A apresentação ao vivo já está marcada e quase esgotada. O Coliseu do Porto Ageas recebe o concerto a 11 de abril. Lisboa segue com duas datas no Coliseu dos Recreios, a 16 e 17 de abril.
Os preços variam entre os 20 e os 65 euros, com abertura de portas às 20h30 e início às 21h30.
Depois, o percurso continua no Brasil durante o mês de maio. Um regresso natural a um território onde Zambujo tem construído uma relação sólida ao longo dos anos.
O disco já está cá fora. Mas a sensação é outra. Como se ainda estivesse a acontecer, devagar, sem pressa, no tempo certo.

