Segunda-feira, 21 de Setembro de 2026
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Augusto Fraga: “Quanto mais pessoal é uma história, mais hipóteses tem de se tornar universal”

Por Jorge Silva Medeiros 21 Set 2026

Criar também passa por saber parar, desmontar e começar de novo. É essa ideia que está no centro de “Fail Better with Fraga”, uma residência que reuniu em Ponta Delgada dez criadores com projetos ainda em construção.

Nascido em São Miguel, Fraga regressou aos Açores para trabalhar com uma nova geração de autores e ajudá-los a olhar para as próprias histórias de outra forma. Não para lhes entregar fórmulas, mas para fazer perguntas, encontrar o núcleo emocional de cada projeto e perceber o que pode existir por baixo da primeira ideia.

A experiência de “Rabo de Peixe” atravessa inevitavelmente esta conversa, mas não como uma fórmula a repetir. Fraga fala antes da força de contar histórias profundamente ligadas a um lugar, da distância dos Açores em relação aos centros de produção e da necessidade de criar condições para que os autores açorianos possam desenvolver as suas próprias vozes.

Nesta conversa com o Música Total, fala sobre o erro como parte do processo criativo, sobre o que torna uma história capaz de atravessar fronteiras e sobre uma convicção que resume boa parte do seu pensamento: quanto mais pessoal é uma história, mais hipóteses tem de se tornar universal.

 

“FAIL BETTER WITH FRAGA” parte de uma ideia muito concreta: trabalhar com projetos antes de estes estarem fechados. O que é que procurou encontrar nestes dez criadores quando começou a residência em Ponta Delgada?

Não procuramos dez projetos perfeitos, nem sequer dez pessoas com todas as respostas. Procuramos curiosidade, disponibilidade para pôr o projeto em causa e coragem para o desmontar. Quando uma ideia ainda não está fechada, está viva. Ainda pode surpreender-nos e transformar-se noutra coisa.

Mas, para isso, o criador tem de conseguir afastar-se um pouco dela e perguntar: o que é realmente essencial aqui? Se eu retirar 90% do que escrevi, o que é que fica, que é realmente importante? Foi sobretudo essa disponibilidade que procurei: pessoas capazes de defender a sua ideia, mas também de a abandonar durante alguns dias ou horas para descobrir se existe uma versão mais forte por baixo da ideia original.

O nome “Fail Better”, inspirado em Samuel Beckett, coloca o erro no centro do processo criativo. Na sua experiência, o que é que um criador aprende quando uma ideia não funciona?

O fracasso não é o fim do processo. É o processo. Eu não conheço nenhuma história que tenha nascido pronta. Muitas vezes, aquilo que não funciona está a indicar-nos exatamente onde está o problema: talvez estejamos a contar a história desde o ponto de vista errado, talvez seja uma situação interessante, mas ainda não seja uma história, talvez ainda não exista conflito ou talvez estejamos apaixonados pelo tema e ainda não tenhamos encontrado a história.

Falhar melhor significa que cada tentativa nos aproxima de uma versão mais honesta e mais precisa. O verdadeiro perigo não está em experimentar uma coisa que não funciona. Está em protegermos tanto a primeira ideia que nos esquecemos do que realmente é importante nessa ideia. Se a ideia for boa, vai sobreviver a todas as dúvidas que lhe colocamos.

Cada participante chegou com uma sinopse de um projeto próprio. O que distingue uma boa ideia de uma história que tem realmente potencial para chegar ao ecrã?

A emoção. Uma boa ideia pode ser uma situação, um tema ou uma imagem extraordinária. Mas ainda não é uma história. Para existir uma história, alguém tem de querer alguma coisa, alguma coisa tem de o impedir e essa luta tem de ser transformadora. E isso é sempre emocionante.

Quando trabalha com um argumento ainda numa fase inicial, procura sobretudo corrigir problemas ou encontrar aquilo que torna aquela história diferente das outras?

Encontrar aquilo que torna a história diferente. A correção vem depois. Numa fase inicial, não me interessa muito saber se a estrutura está perfeitamente organizada. Interessa-me perceber onde está o centro emocional do projeto.

Há normalmente qualquer coisa, uma personagem, uma imagem, uma contradição, um ambiente, que fez aquela pessoa começar a escrever. Tento encontrar esse núcleo e protegê-lo. Porque podemos corrigir todos os problemas de uma história e acabar com uma coisa tecnicamente muito competente, mas sem vida.

Aqui, o propósito é ajudar cada criador a perceber o que existe de particular no seu projeto e levá-lo mais longe. Primeiro encontramos o coração. Depois construímos a estrutura capaz de o fazer bater.

Existe uma tentação, quando se trabalha com jovens criadores, de transmitir fórmulas baseadas na própria experiência. Como evita que a sua experiência se transforme numa receita que limite a voz de quem está a começar?

Tento fazer perguntas em vez de dar respostas. Eu posso partilhar aquilo que aprendi, os erros que cometi e as ferramentas que utilizo, mas não posso dizer a outra pessoa qual é a história que ela deve contar.

As fórmulas podem ser úteis para analisar uma história, mas tornam-se perigosas quando começam a substituir a intuição. Não acredito que todas as histórias tenham de obedecer à mesma estrutura, nem que exista uma forma certa de escrever um filme ou uma série. Existem princípios básicos, o conflito, o ponto de vista, etc., mas a forma como cada projeto os utiliza pode ser completamente diferente.

É natural que muitos criadores açorianos sintam que estão geograficamente afastados dos grandes centros de produção. Essa distância continua a ser um obstáculo ou a forma de criar a partir dos Açores está a mudar?

A distância continua a criar dificuldades concretas. Grande parte da indústria, das decisões, do financiamento e das relações profissionais está concentrada fora dos Açores. Não vale a pena fingir que não é assim.

Mas há uma mudança importante: hoje já não é preciso viver num grande centro para começar a criar, desenvolver um projeto ou construir relações profissionais. E aquilo que, durante muito tempo, foi visto apenas como uma desvantagem pode também transformar-se numa força. Os Açores têm histórias, personagens, ambientes e contradições que permanecem por explorar.

Parece-me essencial trabalharmos a confiança açoriana: a convicção de que, mesmo longe de Lisboa, podemos afirmar-nos na criação audiovisual, tanto a nível nacional como internacional. Temos grandes exemplos no nosso passado.

Tal como fomos capazes de inovar noutras áreas da cultura e de nos tornarmos uma referência na literatura, na poesia e na música, acredito que também temos capacidade para o fazer no cinema e na televisão.

Mas, para isso, é preciso criar condições para que as pessoas daqui possam desenvolver as suas próprias histórias e integrar uma rede profissional que não desapareça quando termina uma residência. É precisamente por isso que estamos todos a trabalhar em conjunto.

Nasceu em São Miguel e hoje trabalha num contexto muito mais amplo. O que significa para si regressar aos Açores não apenas como realizador, mas como alguém que vem trabalhar diretamente com outros criadores açorianos?

Regressar agora e encontrar pessoas que querem criar a partir daqui faz-me sentir que existe uma espécie de círculo que se fecha… ou que se volta a abrir. Venho partilhar ferramentas, experiências e erros com pessoas que conhecem este território cultural tão bem ou melhor do que eu. Há qualquer coisa de muito emocionante em poder encurtar um pouco a distância que eu próprio senti quando comecei.

E também existe uma dimensão pessoal. Voltar aos Açores obriga-me sempre a reencontrar a razão pela qual comecei a contar histórias: esta sensação de estarmos simultaneamente isolados e ligados ao mundo inteiro.

“Rabo de Peixe” mostrou que uma história profundamente ligada aos Açores pode alcançar uma audiência internacional. Essa experiência alterou a forma como olha para histórias que nascem de um território específico?

Mais do que alterar, confirmou uma convicção que eu já tinha: quanto mais pessoal é uma história, mais hipóteses tem de se tornar universal. Não tentámos tornar “Rabo de Peixe” menos açoriana para que fosse compreendida noutros países. Fizemos precisamente o contrário. Assumimos o lugar, as personagens e as contradições daquele mundo.

Uma audiência internacional não precisa de reconhecer o lugar. Precisa de reconhecer as emoções: a ambição, a amizade, a lealdade, a família, a sensação de não ter oportunidades. Isso é universal.

Acho que “Rabo de Peixe” chegou ao top mundial da Netflix porque pertencia a um lugar muito concreto, não apesar disso.

Depois do impacto de “Rabo de Peixe”, sente uma responsabilidade diferente quando trabalha com histórias ou personagens ligadas à realidade açoriana?

Não sei se sinto uma responsabilidade diferente. O impacto de “Rabo de Peixe” não me fez sentir que tenho de representar os Açores de uma determinada maneira ou corresponder a uma expectativa exterior. Fez-me, isso sim, querer continuar a olhar para esta terra e para as suas pessoas com verdade, complexidade e respeito, sem as idealizar, mas também sem as reduzir a estereótipos. Para mim, essa é a melhor forma de honrar os Açores.

O cinema e as séries portuguesas vivem atualmente uma maior circulação internacional. O que ainda falta criar em Portugal para que mais autores e projetos consigam fazer esse percurso sem perder a sua identidade?

Falta investir mais no desenvolvimento. Em Portugal, muitas vezes queremos passar demasiado depressa da ideia para a produção, sem dar aos projetos tempo para falhar, serem reescritos e encontrarem a sua verdadeira forma.

Precisamos de mais espaços de desenvolvimento, mais residências, mais laboratórios, mais salas de escrita e, sobretudo, maior continuidade entre a formação e a indústria. Um autor não precisa apenas de aprender a escrever. Precisa de saber como chegar aos produtores, como apresentar as suas ideias, como chegar ao mercado real.

Também precisamos de perder algum medo da especificidade. Para circular internacionalmente, não temos de imitar aquilo que já é feito lá fora. Temos de contar histórias portuguesas com ambição narrativa, muita exigência técnica e personagens capazes de atravessar fronteiras. A identidade não é um obstáculo à internacionalização. É provavelmente o nosso maior argumento.

No final destes cinco dias, o que gostaria que os dez participantes levassem consigo: um projeto mais desenvolvido, novas ferramentas de trabalho ou sobretudo novas perguntas?

O objetivo é que todos os projetos saiam daqui mais sólidos, mais preparados para enfrentar o mundo.

Quem é realmente o protagonista? O que quer? O que acontece se não conseguir? Porque é que esta história tem de ser contada agora? O que existe nela que não pode ser encontrado noutra história qualquer? E qual é a versão mais interessante desta ideia?

Gostaria que saíssem com vontade de continuar e com menos medo de desmontar o próprio trabalho. Não queria entregar-lhes uma resposta definitiva. Queria que cada um encontrasse uma maneira mais exigente e mais livre de interrogar o seu projeto.

Depois de acompanhar estes projetos de perto, ficou com vontade de continuar ligado à criação audiovisual que está a nascer nos Açores?

Vou continuar a acompanhar alguns destes projetos e, sobretudo, vou tentar ajudar a criar pontes entre os autores açorianos e estruturas de desenvolvimento, produção e financiamento. Nem todos os projetos vão chegar ao ecrã, naturalmente, mas todos merecem a oportunidade de serem desenvolvidos com seriedade.

A minha ligação aos Açores é completa e vai desaparecer. Temos vários projetos em curso que envolvem não só os Açores, mas várias ilhas Atlânticas.

Há muitas histórias a nascer nos Açores e muitas pessoas que ainda não encontraram o espaço, o tempo ou a confiança para as contar. Se conseguirmos criar continuidade, esta residência pode ser menos um acontecimento isolado e mais o princípio de uma verdadeira comunidade criativa.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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