Barbara Hendricks regressa a Portugal para concerto especial no CCB em Lisboa

Share

Atravessar mais de cinco décadas de carreira sem perder peso emocional em palco não acontece muitas vezes. A 25 de novembro, Lisboa recebe uma dessas raridades quando Barbara Hendricks regressar ao Centro Cultural de Belém para apresentar Still On the Road to Freedom, um espetáculo onde jazz, blues e memória pessoal se cruzam longe da lógica tradicional de recital clássico.

 

O concerto marca também um reencontro com o público português numa fase particularmente livre do percurso artístico de Hendricks. A cantora continua ligada ao universo lírico que a tornou uma referência internacional, mas o foco atual parece cada vez mais centrado na emoção crua, no peso das canções e na ligação humana construída em palco.

Uma carreira construída entre a ópera e a liberdade artística

A estreia de Barbara Hendricks na San Francisco Opera e no Glyndebourne Festival, em 1974, abriu caminho para uma carreira singular dentro da música clássica internacional. Ao longo dos anos, a soprano norte-americana consolidou um repertório vastíssimo, reconhecido pela precisão técnica e pela delicadeza interpretativa.

Mas reduzir Hendricks ao universo da ópera seria ignorar uma parte essencial da sua identidade artística. Existe sempre uma procura de humanidade nas escolhas que faz. Talvez por isso o salto para o jazz nunca tenha parecido um desvio artificial.

Esse novo capítulo ganhou força em 1994, quando Claude Nobs a convidou para atuar no Montreux Jazz Festival. A partir daí, Barbara Hendricks aproximou-se das raízes do blues e do jazz com naturalidade, explorando repertórios ligados a nomes como Duke Ellington e Billie Holiday.

Still On the Road to Freedom nasce da memória e da resistência

O espetáculo que chega agora ao CCB não funciona apenas como concerto. Existe uma componente narrativa muito forte em Still On the Road to Freedom. A música surge ligada a temas de liberdade, identidade, resistência e memória coletiva.

O blues assume aqui um papel central. Não como exercício estético, mas como linguagem emocional. A voz de Barbara Hendricks aparece menos preocupada em impressionar tecnicamente e mais interessada em transmitir fragilidade, tensão e experiência vivida.

Em palco, a artista será acompanhada por Mathias Algotsson no piano e órgão Hammond, além dos guitarristas Björn Wahlberg e Ulf Englund. O formato instrumental aproxima o espetáculo de uma atmosfera mais quente e intimista, quase de clube, apesar da dimensão simbólica da sala lisboeta.

Direitos humanos continuam no centro do percurso de Hendricks

Ao longo das últimas décadas, Barbara Hendricks tornou-se também uma figura reconhecida pelo trabalho ligado aos direitos humanos e às causas humanitárias. Essa dimensão nunca esteve separada da música. Pelo contrário. Acabou por influenciar profundamente a forma como interpreta repertórios ligados à liberdade e à luta social.

Em Still On the Road to Freedom, surgem ecos do pensamento de Martin Luther King Jr., não como discurso político direto, mas como presença emocional que atravessa o alinhamento do espetáculo.

Essa ligação entre arte e consciência social acaba por dar outra densidade ao concerto. O público não encontra apenas uma cantora histórica. Encontra alguém que continua a usar a música como ferramenta de memória e reflexão num tempo particularmente saturado de ruído e velocidade.

Lisboa recebe uma artista que atravessa géneros sem perder identidade

Poucos nomes conseguem circular entre ópera, jazz e blues sem perder coerência artística. Barbara Hendricks é um desses casos raros. Existe uma calma muito própria na forma como ocupa o palco, quase sem necessidade de excessos cénicos.

O concerto no CCB promete precisamente esse tipo de intensidade discreta. Um espetáculo provavelmente mais próximo da escuta emocional do que do virtuosismo exibicionista. E talvez seja isso que torna esta passagem por Lisboa especialmente relevante.

Numa altura em que tantos concertos vivem da urgência e do impacto imediato, Still On the Road to Freedom parece apontar noutra direção. Mais silêncio. Mais peso nas palavras. Mais espaço para sentir aquilo que fica suspenso entre as canções.

LER MAIS

Notícias Locais