O duo canadiano Bibi Club volta a afirmar-se como um dos projetos mais sensíveis e interessantes do indie contemporâneo com o lançamento de Amaro. O disco surge destacado na rubrica Essential Releases do Bandcamp Daily, sinal claro de que não estamos perante apenas mais um lançamento discreto da cena alternativa.
Há qualquer coisa de profundamente humano neste trabalho. Não é apenas a suavidade das melodias ou a forma como as vozes se entrelaçam com naturalidade quase caseira. É a sensação de proximidade. Como se cada faixa tivesse sido gravada com a janela aberta, deixando entrar o ar frio de Montreal e o som distante da cidade.
Um som que respira
Em Amaro, o duo refina aquilo que já vinha a construir. Camadas de guitarras etéreas, texturas lo-fi, batidas contidas e um uso muito intuitivo do espaço sonoro. Nada soa excessivo. Nada está ali para impressionar à força.
O que impressiona é precisamente o contrário. A contenção. A forma como conseguem criar tensão emocional sem recorrer a explosões óbvias. As músicas crescem devagar, quase tímidas, até se instalarem na memória.
Para quem trabalha com som, é impossível não reparar na produção. Existe um cuidado evidente na dinâmica. Os silêncios são tão importantes quanto os acordes. A reverberação não é decorativa, é estrutural. Cada detalhe parece pensado para manter a intimidade intacta.
Letras que tocam sem dramatizar
A escrita de Amaro evita dramatizações fáceis. Fala de vulnerabilidade, de relações frágeis, de dúvidas que se acumulam. Mas faz isso com subtileza. Em vez de grandes declarações, opta por imagens simples e frases diretas.
Essa abordagem torna o disco mais honesto. Não há excesso de metáforas densas nem tentativas de soar grandioso. O impacto vem da identificação. Quem ouve reconhece ali pequenas fissuras do quotidiano.
A interpretação vocal reforça essa sensação. As vozes não procuram virtuosismo. Procuram verdade. E encontram-na.
Entre o indie pop e o experimental suave
Embora se mova dentro do universo indie pop, Amaro não é previsível. Existem momentos em que as estruturas se desdobram, onde as texturas se tornam mais abstratas, quase experimentais.
Mesmo assim, o disco mantém coesão. A identidade sonora é clara do início ao fim. Existe uma linha invisível que une todas as faixas, como se fossem capítulos de uma mesma narrativa emocional.
Essa consistência ajuda o álbum a funcionar como experiência completa, não apenas como coleção de singles potenciais. É um disco para ouvir de ponta a ponta, com tempo e atenção.
Um dos lançamentos essenciais do momento
O destaque no Essential Releases não surge por acaso. Amaro encaixa perfeitamente no espírito curatorial da plataforma: obras autorais, cuidadas e com personalidade forte.
Num panorama saturado de lançamentos semanais, este é um daqueles discos que pede escuta atenta. Não grita para chamar atenção. Convida.
E talvez seja isso que o torna especial. Num mundo acelerado, Bibi Club escolhe a delicadeza como força principal. E quando a delicadeza é bem construída, torna-se poderosa.


