A palavra-chave é BLOQO, mas o que se sente aqui é um regresso à pista sem filtros. O novo projeto junta Branko e Pedro da Linha num formato direto, físico, pensado para o impacto imediato. Nada de conceitos excessivos. Aqui, a ideia é simples e eficaz: fazer música para ser vivida no corpo.

Não é um encontro inesperado. Ambos já partilham um percurso sólido dentro da eletrónica portuguesa, com cruzamentos ocasionais ao longo dos anos. Mas agora há um foco diferente. Uma identidade comum que se constrói desde a base.
Um projeto que nasce da noite
BLOQO surge de sessões de estúdio prolongadas, muitas vezes durante a madrugada, onde a experimentação acontece sem pressão externa. Esse contexto é importante. Explica a natureza instintiva do som.
Há uma sensação de liberdade criativa que atravessa todo o projeto. Menos cálculo, mais reação. Menos estrutura rígida, mais fluxo. É quase um retorno à essência do clubbing, onde a música não precisa de justificar-se fora da pista.
Essa abordagem afasta o projeto de uma lógica demasiado conceptual. Em vez disso, aproxima-o da experiência direta, da energia crua que define um bom DJ set.
Influências que se transformam
As referências existem, mas não são tratadas como nostalgia. Um exemplo claro é o impacto do remix de “Angola”, de Cesária Évora por Carl Craig.
Esse tipo de herança sonora aparece diluído, reinterpretado. Não como citação óbvia, mas como ponto de partida. O resultado é uma fusão entre house, techno e ritmos mais abertos, com uma forte componente rítmica e textural.
É aqui que BLOQO ganha identidade. Na forma como absorve influências e as transforma em algo funcional para o presente.
Uma estreia com dois tempos
O primeiro registo chega a 17 de outubro, num formato 12”, com dois temas: “Bloqo (Dan Dan)” e “Fever”, editados pela Enchufada. Uma escolha que reforça a ligação ao universo clubbing clássico.
Mas o plano não fica por aqui. Em novembro, o projeto avança para um EP pela Aus Music, expandindo o alcance internacional da dupla.
Esta estratégia em dois tempos permite apresentar o projeto de forma progressiva. Primeiro, a afirmação na pista. Depois, a consolidação enquanto proposta artística mais ampla.
Duas datas para sentir ao vivo
O arranque oficial de BLOQO faz-se também fora do estúdio, com duas atuações que funcionam como extensão natural do projeto.
A 17 de maio, no Lux Frágil, num horário pouco habitual que começa ao final da tarde e se prolonga até à meia-noite. Um formato que sugere uma experiência diferente, talvez mais aberta, mais transversal.
Dias depois, a 22 de maio, o foco muda para o norte, com uma atuação no Pérola Negra, já em contexto noturno clássico, das zero às seis da manhã.
Dois espaços, duas atmosferas, a mesma intenção. Testar o projeto em tempo real, frente a públicos distintos.
Fica a sensação de que BLOQO ainda está a revelar-se. E talvez seja exatamente isso que o torna interessante neste momento. Não há tudo definido. Há movimento. E na pista, isso costuma ser meio caminho andado para algo acontecer.

