A ideia de resistência nunca soou tão concreta em Cem Soldos. Não como palavra abstrata, mas como prática contínua de comunidade, encontro e criação coletiva.

 

Em 2026, o BONS SONS chega aos 20 anos com esse peso simbólico bem presente, e os primeiros nomes agora anunciados mostram exatamente isso: uma programação que cruza passado, presente e novas direções da música portuguesa.

Entre 6 e 9 de agosto, a aldeia volta a transformar-se num território vivo onde gerações se encontram, linguagens se misturam e a tradição deixa de ser arquivo para passar a ser matéria ativa. Os dez primeiros nomes revelados funcionam como um mapa inicial dessa intenção.

Um cartaz que cruza gerações e linguagens

A Sul, Cacique’97, Crua, Lavoisier com o Coro Polifónico da Pedreira, Líquen, Mães Solteiras, Miss Universo, MXGPU, Romeu Bairos e Seara são os primeiros artistas confirmados. Um conjunto que não se limita a nomes isolados, mas que revela uma lógica clara de curadoria: coletivos, colaborações e projetos que trabalham identidade, território e transformação.

Sente-se uma tensão interessante entre raiz e experimentação. Há projetos que partem diretamente da tradição oral e outros que se aproximam da eletrónica ou da canção contemporânea, mas todos parecem partilhar uma preocupação comum: repensar o que significa fazer música portuguesa hoje.

Coletivos e encontros como força central

A presença de coletivos é um dos eixos mais evidentes desta primeira vaga. Crua, por exemplo, constrói uma abordagem centrada na voz feminina e na tradição do adufe, criando um espaço onde memória e criação convivem sem hierarquia.

Já Cacique’97 assume o afrobeat como ferramenta de intervenção, refletindo sobre identidade e pertença num contexto global. E o projeto Mães Solteiras junta nomes bem conhecidos da música portuguesa num formato de supergrupo, com um discurso mais direto, quase urgente, próximo do punk hardcore.

Também o encontro entre Lavoisier e o Coro Polifónico da Pedreira reforça essa ideia de comunidade em palco. Não se trata apenas de colaboração artística, mas de um gesto que liga território, história local e criação contemporânea.

Novas formações e regressos com outro corpo

Alguns dos projetos apresentados partem de trajetórias já consolidadas, mas surgem aqui com novas formas. É o caso de Seara, que reúne Amélia Muge, Daniel Pereira Cristo, Júlio Pereira, Manuel de Oliveira e Rão Kyao. Um projeto que nasce de uma encomenda cultural e que olha para a tradição como algo em movimento, não como objeto fixo.

Também MXGPU marca um novo capítulo para Moullinex, agora ao lado de GPU Panic, num formato híbrido entre live act e DJ set. Uma abordagem que aproxima a pista de dança do contexto do festival, sem perder o caráter experimental.

Miss Universo, por sua vez, propõe uma fusão entre tradição e vanguarda com um discurso assumidamente contemporâneo, quase manifesto, enquanto questiona o lugar da canção nos dias de hoje.

Estreias que apontam ao futuro

Há também espaço para novas presenças que chegam pela primeira vez ao festival. Romeu Bairos traz consigo uma ligação profunda aos Açores, com uma escrita que cruza identidade insular e linguagem universal.

A Sul trabalha a memória como matéria sonora, explorando ambientes e sensações que partem do quotidiano para criar algo mais imersivo. Já Líquen, vencedora do Termómetro 2025, representa uma nova geração que não reconhece fronteiras rígidas entre géneros, misturando pop, eletrónica e jazz com naturalidade.

Estas estreias não aparecem como simples apostas, mas como sinais claros de continuidade. O festival não olha apenas para trás, constrói também aquilo que pode vir a ser o futuro da música portuguesa.

Um festival que continua a ser comunidade

Para além do cartaz, mantêm-se abertas as inscrições para voluntariado, restauração e feira, reforçando a dimensão participativa que sempre definiu o BONS SONS. Mais do que um evento, continua a ser um projeto coletivo que envolve diretamente quem o vive.

Os bilhetes já estão disponíveis, com o passe geral de quatro dias na terceira fase de venda a 60 euros, incluindo campismo. Os bilhetes diários serão anunciados mais tarde, quando o cartaz estiver completo.

E no meio de tudo isto fica uma sensação curiosa. Ainda faltam muitos nomes, muitas ruas para percorrer, muitos concertos por descobrir. Mas há algo que já está claro: a aldeia vai voltar a respirar música, e essa respiração não parece querer abrandar