No início de um novo ciclo criativo, Teresa Castro transforma anos de composição dispersa num objeto coeso e profundamente pessoal.

O primeiro longa duração de Calcutá chegou a 23 de janeiro, com selo da editora portuense Ovo Estrelado, e posiciona-se como um dos registos mais delicados e consistentes da atual cena independente nacional.
Gravado ao longo de vários anos, o álbum reflete um período de mudanças estruturais na vida da autora, incluindo a relação com a cidade do Porto, que se tornou cenário e matéria emocional para muitas das canções. O disco não surge como estreia impulsiva, mas como consequência natural de um percurso paciente.
Uma folk em expansão, entre o íntimo e o hipnótico
Em Soon After Dawn, a matriz folk é evidente, mas nunca previsível. As composições partem da canção tradicional e avançam para territórios onde o ritmo se torna circular e quase meditativo. Drones prolongados e repetições subtis criam uma sensação de suspensão que envolve o ouvinte sem pressa.
Essa dimensão psicadélica não é decorativa. Surge integrada na estrutura das músicas, como extensão orgânica da escrita. As vozes sobrepostas e as texturas atmosféricas constroem um ambiente denso, mas respirável, onde cada elemento encontra espaço para se afirmar.
O Porto como geografia emocional
A cidade do Porto não aparece como referência literal, mas como influência sensível. O ambiente urbano, as mudanças pessoais e o tempo de adaptação moldaram o processo criativo. Essa vivência traduz-se numa música que oscila entre recolhimento e abertura, entre introspeção e expansão.
O álbum carrega essa tensão subtil. Existe uma serenidade aparente nas melodias, mas também uma inquietação silenciosa que atravessa os arranjos. A sensação é a de alguém que observa, absorve e depois devolve em forma de canção.
Instrumentação detalhada e colaborações precisas
Teresa Castro assume o centro do projeto, compondo e interpretando guitarra, harmónio, sintetizadores e piano. Essa multiplicidade instrumental reforça a coesão do disco, já que a visão artística permanece concentrada numa única sensibilidade.
O contributo de Luís Barros na bateria acrescenta pulsação orgânica aos temas, enquanto Catarina Marques introduz a Campanula, instrumento de timbre próximo do violoncelo, enriquecido por cordas simpatéticas que ampliam a ressonância. Rodrigo Vaiapraia surge nas vozes, acrescentando contraste e profundidade a determinadas passagens.
Uma estreia que consolida identidade
Mais do que apresentar novas canções, Soon After Dawn funciona como declaração estética. A escrita de Calcutá revela maturidade e um sentido claro de direção, evitando excessos e optando por uma construção paciente das atmosferas.
No contexto da edição nacional, este trabalho confirma a importância da Ovo Estrelado enquanto plataforma para projetos autorais de forte identidade. O disco afirma-se como um registo de rara beleza e subtileza, capaz de permanecer depois da última nota.
Algo começa ao amanhecer, mas não termina aí. Fica a sensação de que este é apenas o primeiro capítulo de um percurso que ainda está a ganhar forma.

