Há regressos que funcionam como medição de temperatura cultural. Quando um grupo com trinta anos de percurso lança novo álbum, o que está realmente em causa não é apenas música nova. É a capacidade de continuar a dialogar com o presente sem trair o passado.

“96 ao Infinito” chega hoje às plataformas e marca mais um momento decisivo na história dos Dealema. O coletivo, formado em meados da década de noventa, transforma a própria data de origem em conceito e projeta-a como ideia de continuidade. O concerto de apresentação no Coliseu do Porto encontra-se esgotado, não por efeito de moda, mas porque há uma geração inteira que ainda reconhece ali parte da sua formação cultural.
Trinta anos de construção no rap nacional
Desde 1996, os Dealema ajudaram a estruturar uma linguagem própria dentro do hip hop português. Numa fase em que o género ainda procurava espaço mediático, o grupo consolidou uma estética marcada por densidade lírica, consciência social e identidade muito definida.
Ao longo das décadas, atravessaram mudanças profundas no mercado musical, da economia física ao domínio do streaming. Mantiveram, contudo, uma coerência que raramente cedeu à tendência imediata. Essa consistência explica porque cada novo lançamento é lido como continuidade histórica e não apenas como novidade circunstancial.
“96 ao Infinito” como manifesto de permanência
O título do álbum é uma afirmação simbólica. Parte do ano fundador e expande-o para um horizonte aberto. Não há nostalgia gratuita. Há consciência de percurso e vontade de o atualizar.
Neste novo trabalho, sente-se maturidade nas rimas e uma leitura mais ampla do tempo. As temáticas habituais, identidade, resistência, comunidade, regressam com outra densidade. O grupo não tenta competir com a sonoridade dominante do momento. Prefere reforçar o que sempre foi a sua assinatura.
Coliseu do Porto como palco simbólico
O concerto no Coliseu do Porto ganha peso próprio dentro desta narrativa. Não é apenas uma data de agenda. É uma sala histórica a receber um coletivo que ajudou a desenhar a história do rap nacional.
O Coliseu lotado mostra que a história do rap português também se escreve em permanência. Há continuidade entre os primeiros concertos em circuitos alternativos e esta celebração numa das salas mais emblemáticas do país. O público que esgotou a lotação não está apenas à procura de novidade. Está a revisitar uma parte da sua própria biografia sonora.
Entre memória e futuro
“96 ao Infinito” posiciona os Dealema num ponto delicado. Honrar o passado sem cristalizar a identidade. O disco sugere que o grupo compreende essa tensão e a usa como motor criativo.
Num panorama em que o hip hop português vive uma fase de grande exposição e renovação geracional, o regresso dos Dealema lembra que a consolidação do género foi feita por camadas sucessivas. Há raízes profundas por detrás da visibilidade atual.
Trinta anos depois, o coletivo não aparece como capítulo encerrado. Surge como presença ativa numa história que continua a ser escrita, verso a verso, palco a palco.
