Sábado, Fevereiro 21, 2026

Decius afirmam-se como super descoberta da eletrónica britânica com “Vol. II (Splendour & Obedience)”

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A eletrónica britânica sempre viveu de ciclos. Explode, reinventa-se, cai na repetição, volta a incendiar a pista.

 

Em 2025, no meio de um cenário saturado de fórmulas fáceis e revivalismos calculados, um coletivo londrino consegue fazer algo raro: transformar a pista de dança num espaço de tensão estética e comentário cultural.

O segundo volume do projeto surge como confirmação de uma identidade própria. Editado a 31 de janeiro de 2025 pela The Leaf Label, este disco não tenta competir por neutralidade algorítmica. Prefere provocar, encenar, exagerar. E é precisamente por isso que começa a ser apontado como uma das grandes descobertas recentes da cena eletrónica britânica.

Um coletivo que nasce do excesso

Decius não surge do vazio. O projeto junta Lias Saoudi, figura central da Fat White Family, Quinn Whalley dos Paranoid London e os irmãos Liam e Luke May ligados à Trashmouth Records. O resultado é uma colisão de experiências que atravessam punk, acid house e cultura club subterrânea.

Desde o primeiro volume, em 2022, o coletivo assumiu uma postura deliberadamente teatral. O segundo capítulo, Decius Vol. II (Splendour & Obedience), aprofunda essa linha. As faixas funcionam como episódios de uma noite longa e algo decadente. A repetição rítmica não é apenas funcional. É hipnótica, quase ritual. Existe uma sensação constante de encenação, como se cada batida fosse parte de um guião invisível.

A pista como palco de poder

O título sugere tensão entre brilho e submissão. Essa dualidade atravessa o disco inteiro. As linhas de baixo são insistentes, desenhadas para sustentar corpos em movimento. A percussão mantém-se seca, direta, sem ornamentação desnecessária.

A voz raramente procura melodia convencional. Surge em declamações, provocações murmuradas, frases que oscilam entre o manifesto e a ironia. Esta escolha estética afasta o coletivo da eletrónica mais funcional e aproxima-o de um território onde performance e música se confundem. Não se trata apenas de fazer dançar. Trata-se de criar ambiente, atmosfera, fricção.

A aclamação crítica e o estatuto de descoberta

A receção internacional tem sido consistente. No agregador Metacritic, o álbum mantém média de 81 pontos, indicador de aclamação sólida. Mas mais relevante do que o número é o tipo de discurso crítico que o envolve.

The Quietus sublinhou a capacidade do coletivo em captar a euforia e o delírio da madrugada, descrevendo o disco como uma experiência quase litúrgica. musicOMH destacou a energia orgânica e o erotismo assumido, apontando-o como um dos lançamentos de club mais expressivos do ano. The Skinny valorizou a eficácia direta na recriação do espírito rave, enquanto Mojo e Uncut enfatizaram a herança Detroit e acid filtrada por um humor britânico corrosivo.

Também DJ Mag chamou atenção para a teatralidade conceptual do projeto, e publicações como Still Listening Magazine e Indie-Is-Not-A-Genre destacaram a dimensão imersiva e a ousadia vocal. O consenso não gira em torno de acessibilidade. Gira em torno de personalidade.

A estética como manifesto

A capa do álbum reforça essa leitura. A gravura clássica, com figura masculina robusta ao lado de um porco, evoca alegoria, sátira, excesso. O contraste com a tipografia em magenta cria choque imediato entre tradição visual e provocação contemporânea.

Nada parece acidental. A imagem ecoa a música. Existe sempre um jogo entre grandiosidade e grotesco, entre esplendor e decadência. Esse equilíbrio instável torna o projeto mais do que um simples exercício de nostalgia rave. Torna-o comentário sobre poder, prazer e cultura noturna.

Num panorama em que muitos projetos procuram suavizar arestas para alcançar públicos mais amplos, este coletivo faz o oposto. Amplifica o desconforto, exagera o gesto, insiste na identidade. É essa recusa em diluir-se que sustenta a ideia de super descoberta. Não porque reinventem a house ou o techno, mas porque devolvem risco e teatralidade a um território cada vez mais previsível.

A sensação que fica é a de que este segundo volume não fecha um ciclo. Abre um espaço. Um espaço onde a eletrónica volta a ser suja, física, carregada de intenção. E onde a pista de dança recupera algo que parecia adormecido.

Talvez o verdadeiro impacto ainda esteja a formar-se, lentamente, no escuro das madrugadas.

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