Entre a preservação do Fado de Coimbra e a procura constante por novas sonoridades, Diogo Mendes tem construído um percurso singular na guitarra portuguesa. Compositor, intérprete e professor, formou mais de duas centenas de alunos e contribuiu para o aparecimento de novos projetos ligados a uma tradição que se recusa a ficar parada no tempo.
No momento em que apresenta Uma Guitarra entre Cidades, o seu terceiro álbum de originais e aquele que considera ser o trabalho mais pessoal da carreira, o músico fala sobre as influências que o marcaram, a importância de Carlos Paredes e Luiz Goes, o papel do ensino na sua vida e a renovação do Fado de Coimbra. Pelo caminho, reflete também sobre a presença das vozes femininas neste universo e sobre os caminhos que ainda gostaria de explorar com um instrumento que, na sua visão, continua cheio de possibilidades por descobrir.
Uma conversa sobre memória, identidade e futuro, com um músico que acredita que a tradição só permanece viva quando existe espaço para criar.

O que o levou a escolher a guitarra portuguesa como instrumento principal numa fase tão precoce da sua vida?
Na verdade, só descobri a guitarra portuguesa quando vim estudar para Coimbra. Durante a adolescência, tocava sobretudo guitarra elétrica, mas a cidade acabou por mudar o meu percurso. Coimbra tem uma mística muito própria, ligada à vida académica, ao Fado de Coimbra e à guitarra portuguesa, a que é difícil ficar indiferente.
Numa fase inicial, foram sobretudo as composições de Carlos Paredes que me despertaram para o instrumento. Mais tarde, através do contacto com o Fado de Coimbra, essa curiosidade transformou-se numa verdadeira paixão e acabou por definir grande parte do meu percurso artístico.
Quais foram os músicos, discos ou momentos que mais influenciaram a sua formação artística nos primeiros anos?
Nos primeiros anos, a influência mais marcante foi, sem dúvida, Carlos Paredes, especialmente os álbuns Guitarra Portuguesa e Movimento Perpétuo. As suas composições tiveram um grande impacto em mim e mostraram-me o enorme potencial expressivo do instrumento. No universo do Fado de Coimbra, a referência que mais me marcou foi Luiz Goes, graças à sua interpretação e aos seus temas menos convencionais.
Ao olhar para o percurso já realizado, qual considera ter sido o momento mais decisivo da sua carreira até hoje?
É difícil apontar apenas um momento decisivo, porque o meu percurso foi sendo construído por várias etapas importantes. A influência do meu professor e colega Ricardo Silva foi fundamental, porque me ajudou a perceber que era possível construir uma vida ligada à música.
Se tivesse de destacar momentos concretos, escolheria o lançamento do meu primeiro disco, que representou uma afirmação enquanto artista independente, e não apenas como guitarrista acompanhante. Mais recentemente, destacaria o lançamento de Uma Guitarra entre Cidades, por ser o meu primeiro álbum inteiramente dedicado a composições originais, assumindo-me não só como intérprete, mas também como compositor.
Tem desempenhado um papel importante na formação de novos músicos. O que aprendeu como professor que talvez não tivesse aprendido apenas como intérprete?
Ser professor obrigou-me a olhar para a música de uma forma mais analítica. Muitas vezes, enquanto intérpretes, fazemos determinadas coisas de forma intuitiva, sem pensar exatamente em como as fazemos. Quando temos de ensinar alguém, somos obrigados a compreender esses processos e a encontrar formas claras de os explicar.
O ensino ajudou-me a conhecer melhor o meu próprio processo de aprendizagem e a procurar constantemente formas mais eficazes de tocar e de transmitir conhecimento. Além disso, deu-me o privilégio de acompanhar a evolução de muitos alunos e de testemunhar como a música pode transformar pessoas. Ver essa descoberta e crescimento nos outros é uma das experiências mais gratificantes que a música me proporcionou.
“Uma Guitarra entre Cidades” é apresentado como o seu trabalho mais ambicioso. Em que aspetos sente que este álbum representa uma evolução em relação aos anteriores?
A principal evolução deste álbum está no facto de ser composto inteiramente por música original. Nos trabalhos anteriores, estava mais ligado à interpretação e à recriação de repertórios existentes, enquanto aqui assumo plenamente o papel de compositor.
Por opção minha, a estética do disco continua a ser relativamente simples e próxima da tradição, assente essencialmente na guitarra portuguesa e na viola de acompanhamento. A diferença está na sonoridade e na abordagem ao instrumento, que se afastam do tradicional, e na afirmação de uma voz própria através das composições. Nesse sentido, este é o trabalho mais pessoal que realizei até hoje.
O disco procura aproximar tradição e contemporaneidade. Como encontra o equilíbrio entre respeitar a herança da guitarra portuguesa e explorar novos caminhos?
É sempre um equilíbrio difícil. Acho que devemos conhecer e respeitar a tradição, mas evitar ficar presos a ela. A música só continua viva se houver espaço para criar, experimentar e procurar caminhos novos. Não acredito que a guitarra portuguesa ou o Fado devam estar limitados por dogmas ou regras imutáveis.
Ao mesmo tempo, é importante conhecer bem aquilo que nos foi legado e valorizar esse património. No meu caso, procuro que a tradição seja um ponto de partida, e não um ponto de chegada. Faço a música que me faz sentido ouvir e criar, tentando sempre que a guitarra portuguesa mantenha a sua identidade, mesmo quando é colocada em contextos diferentes.
Ao longo do álbum surgem ambientes mais cinematográficos e contemplativos. Que influências estiveram presentes durante o processo de composição?
Uma das principais influências neste álbum foi o minimalismo, uma linguagem que procurei trazer para a guitarra portuguesa e que, na minha perspetiva, ainda tem muito espaço por explorar no instrumento. Compositores como Erik Satie ou Philip Glass marcaram-me bastante pela capacidade de criar ambientes profundos e contemplativos a partir de elementos muito simples.
Essa influência está presente em vários momentos do disco, tanto na construção das melodias como na repetição de determinados padrões e na criação de atmosferas mais intimistas. Interessava-me explorar esse lado mais contemplativo da guitarra portuguesa e perceber como estas linguagens poderiam dialogar com a tradição do instrumento.
A renovação do Fado de Coimbra tem sido uma constante no seu percurso. Como vê atualmente o estado de saúde desta tradição junto das novas gerações?
Creio que o Fado de Coimbra está de boa saúde. Durante algum tempo, foi uma estética musical menos valorizada e menos presente do que já tinha sido noutras épocas. Basta lembrar a projeção que teve nos anos 60, com figuras como José Afonso. No entanto, sinto que a minha geração tem feito um trabalho importante de revitalização e divulgação desta tradição.
O que mais me entusiasma é ver as gerações mais novas a dar continuidade a esse trabalho. Muitos antigos alunos meus estão hoje a compor temas originais, a gravar discos, a apresentar concertos em nome próprio e a chegar a públicos cada vez mais amplos. Há vinte anos, este cenário seria muito menos comum. Hoje existe uma nova geração muito ativa e criativa, o que me leva a acreditar que o futuro do Fado de Coimbra é bastante promissor.
Tem sido também um dos nomes associados à abertura do Fado de Coimbra a novas abordagens e novos protagonistas. O que ainda falta fazer nesse caminho?
Um dos passos mais importantes tem sido a abertura do Fado de Coimbra às vozes femininas. Felizmente, hoje existe uma mentalidade muito diferente da que existia há alguns anos e sinto que a maioria das pessoas já encara essa evolução com naturalidade. Ainda assim, é importante que cada vez mais mulheres sintam que este espaço também lhes pertence e que podem contribuir para a sua renovação.
Naturalmente, existem desafios associados a um repertório que foi historicamente pensado e interpretado por homens, mas isso faz parte de um processo de adaptação que já está em curso. Um sinal muito positivo foi termos tido, este ano, pela primeira vez, duas vozes femininas na Serenata Monumental da Queima das Fitas de Coimbra.
Creio que, dentro de alguns anos, esta deixará de ser uma questão e será perfeitamente normal vermos mulheres a cantar Fado de Coimbra. O que falta agora é que apareçam cada vez mais intérpretes, compositoras, guitarristas e projetos que contribuam para essa diversidade.
Depois de formar mais de duas centenas de alunos, sente que existe hoje uma nova geração de guitarristas preparada para levar o instrumento mais longe?
Sim, claramente. Felizmente, existe hoje uma nova geração muito talentosa e criativa a trabalhar com a guitarra portuguesa e com o Fado de Coimbra. Durante muitos anos, a guitarra de Lisboa teve uma presença mais forte, enquanto a guitarra de Coimbra atravessou períodos mais difíceis. Hoje, o cenário é bastante diferente e muito mais animador.
Vemos jovens músicos a gravar discos, a criar repertório original e a desenvolver projetos próprios. Há guitarristas a lançarem trabalhos instrumentais, grupos e fadistas a apresentarem música nova e a renovarem o repertório. Ver esta geração a criar e a afirmar-se artisticamente dá-me muita confiança no futuro. Creio que estamos num caminho auspicioso.
Há sonoridades, colaborações ou desafios artísticos que ainda gostaria de explorar e que o público talvez não espere de si?
Sim, há ainda muitos caminhos que gostaria de explorar. O rock e a música eletrónica são duas áreas que me despertam bastante curiosidade e onde acredito que a guitarra portuguesa pode ter algo interessante a dizer.
Existem muitas possibilidades que ainda não experimentei e que poderão surgir no futuro. Mas tudo tem o seu tempo. Neste momento, o foco está nas músicas que compõem este disco. Quanto ao futuro, veremos o que ele nos reserva.
Quando imagina a guitarra portuguesa daqui a dez ou vinte anos, que papel gostaria que ela tivesse na música portuguesa e internacional?
Creio que a guitarra portuguesa está a conquistar um espaço cada vez maior na música portuguesa. Hoje vemos o instrumento a afirmar-se não apenas no contexto do fado, mas também como instrumento solista e em projetos muito diferentes entre si. Há músicos e grupos a explorar novas linguagens e a demonstrar que a guitarra portuguesa tem um potencial muito para além dos contextos onde tradicionalmente a encontramos.
O meu desejo é que esse caminho continue: que a guitarra portuguesa possa navegar por novos mares, encontrar novas sonoridades e chegar a novos públicos, em Portugal e no estrangeiro. Ao mesmo tempo, acredito que continuará a desempenhar o papel fundamental que sempre teve no Fado. O desafio não é substituir uma identidade pela outra, mas acrescentar novas possibilidades a este instrumento extraordinário.



