Nunca foi tão fácil ouvir música nova.
E nunca foi tão estranho descobri-la.

 

Dizem-nos isso. As plataformas. Que a descoberta está ali, pronta, organizada, à espera de um clique. Playlists com nomes simpáticos. Sugestões feitas “mesmo pra ti”. Funciona. Claro que funciona. Tá feito pra isso.

Mas encontrar não é descobrir.
Nunca foi.

Encontrar é automático. Descobrir dá trabalho. Dá tempo. Dá erro. Dá aquela sensação de “isto não é pra mim” antes de, se calhar, ser.

O algoritmo sabe muita coisa. Sabe quando saltamos faixas. Sabe o que repetimos. Aprende rápido. Rápido demais. E devolve-nos versões do que já gostamos. Um bocadinho ao lado. Mas não muito. Não convém.

Porque o objectivo não é deslocar. É manter.
Manter a ouvir. Manter ali.

E a música vira fluxo. Um som atrás do outro. Sem fricção. Sem silêncio. Sem história. Não há pausa. Não há aquele momento em que se pensa “espera lá”. Só passa. Passa tudo.

O problema não é a tecnologia.
Nunca foi só isso.

É a ideia de que a descoberta pode ser automatizada. Que alguém, ou alguma coisa, pode decidir por nós o que ainda não sabemos que precisamos ouvir. Hum… não sei.

Descobrir música sempre foi meio torto. Lojas, rádios, amigos que insistiam demasiado. Concertos pequenos. Textos lidos tarde. Coisas que falhavam. Muitas vezes falhavam. E pronto. Era assim.

Agora chega tudo limpo. Arrumado. Encaixado num perfil. Falta-lhe atrito. Falta-lhe contexto. Falta-lhe alguém a dizer porque é que isto existe, porque é que soa assim, porque é que apareceu agora e não há dez anos.

As plataformas mostram muito. Mostram tudo, até.
Mas não explicam nada.

Não constroem memória. Não ligam pontos. Não assumem posição. Não dizem “olha para isto”. Só dizem “segue”.

Quando tudo é descobrível, nada é escolhido a sério.

Por isso falar de descoberta hoje é outra coisa. É quase ir contra a corrente. Meter palavras onde só havia som. Abrir espaço onde só havia sequência. Parar. Um bocado só.

A música continua a precisar disso. Espaço. Tempo. Alguém cansado o suficiente pra pensar nela sem pressa.

Descobrir não é consumir novidades.
É aprender a escutar outra vez.

Ou tentar.
Se calhar.