Isto não começou agora. Convém dizer isso logo!
O Grammy aparece, sim. Faz barulho. Mas aparece tarde, como quase sempre acontece com quem anda anos à frente do tempo

O prémio é claro. Melhor Performance Rock
Não é homenagem. Não é carreira. Não é técnica em abstrato
É palco. Execução. Momento!
E isso diz logo muita coisa sobre quem estamos a falar
Porque o papel do Nuno no pop rock nunca foi o do herói óbvio. Foi outro. Mais discreto. E por isso mesmo mais importante
Nos anos 90, quando a guitarra ainda mandava mas já começava a ser um problema, Bettencourt fez uma coisa estranha, tornou-a pop sem a tornar estúpida, técnica sem ser fria e emocional sem virar lamechice.
“More Than Words”. Pronto, toda a gente sabe. Ou pensa que sabe
Mas aquilo não foi só uma balada acústica passada até à exaustão
Foi um murro silencioso no rock macho da época
Uma canção frágil, despida, no topo das tabelas, a guitarra ali não manda. Escuta
E isso mudou muita coisa, mesmo que poucos o admitam
Mas depois há o resto
E o resto é enorme
Os riffs. Os solos que parecem caóticos mas não são
O groove!
A forma como o rock dele sempre teve balanço, corpo, quase funk às vezes
Um pé no metal, outro na pop, outro ainda em sítio nenhum.
E funciona, sempre funcionou.
Ao longo dos anos, Nuno Bettencourt foi-se tornando aquela figura que atravessa tudo, respeitada por todos, difícil de arrumar numa frase.
Os músicos sabem. Os produtores sabem. Os artistas pop sabem
Ele entra num projeto e a música cresce!
Fica mais clara. Mais sólida. Mais música
Sem fogo de artifício.
O Grammy agora vem por uma performance ao vivo
Não é inocente, o palco sempre foi o lugar natural dele
Não o estúdio limpinho ou o palco, com risco, com erro possível.
Diz que a história do pop rock não é feita só de modas
É feita de gente que percebe a linguagem e a empurra um bocadinho mais à frente
Às vezes sem pedir licença
Outras vezes quase em silêncio
Para Portugal, pronto. Também conta
Claro que conta
Um músico dos Açores, a tornar-se referência mundial, sempre com a bandeira dos Açores em haste
E por isso, hoje, os parabéns também são nossos
Parabéns a todos nós, tugas
Da parte da Musica Total
Este prémio não reescreve nada
Só confirma
Nuno Bettencourt já fazia parte da história muito antes disto
A diferença é que agora ficou escrito num papel bonito, com palco e aplauso.
Ele continua a tocar.
E a história continua!


















