Terça-feira, 28 de Julho de 2026
Lado B da Música

O silêncio antes do aplauso

Por Beatriz Ambrósio 24 Mar 2026

Nem todos os momentos marcantes da música fazem barulho. Alguns acontecem no instante em que tudo pára. No segundo em que o palco fica suspenso, o público percebe que algo não está a correr como devia, e ninguém sabe bem o que fazer com isso.

Em 1991, Axl Rose interrompeu um concerto em St. Louis depois de ver um fã com uma câmara. Saltou para o público, confrontou-o, voltou ao palco e abandonou o espetáculo. O resto foi caos. Equipamento destruído, motim, dezenas de feridos. Mas o mais estranho não foi a violência. Foi aquele momento antes, quando tudo ainda podia não ter acontecido.

Há uma tensão específica nesses segundos. Um silêncio que não é ausência de som, mas excesso de expectativa. O público sente. Os músicos sentem. E, às vezes, basta um gesto errado para partir tudo.

Também aconteceu com Nirvana em vários concertos no início dos anos 90. Kurt Cobain tinha o hábito de quebrar guitarras, amplificadores, o próprio formato da atuação. Mas antes da destruição havia sempre um segundo estranho. Um olhar vazio, uma pausa fora de tempo. Como se o concerto já tivesse acabado para ele, mesmo que ninguém ainda tivesse percebido.

Esses momentos não ficam registados em discos. Não aparecem em playlists. Mas moldam a forma como lembramos um artista. Às vezes, o que fica não é a música. É o instante em que ela falhou.

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Beatriz Ambrósio

Beatriz Ambrósio é jornalista e colaboradora do Música Total, dedicada à cobertura da atualidade musical nacional e internacional. Privilegia uma escrita clara, objetiva e rigorosa, acompanhando lançamentos, concertos, festivais e os principais acontecimentos da indústria da música. O seu trabalho procura informar os leitores de forma rápida e contextualizada, mantendo sempre o foco na relevância das notícias e na proximidade com quem vive a música todos os dias.