Quinta-feira, 17 de Setembro de 2026
Radar Nacional

Pedro Abreu estreia-se a solo com “O Outro Lado”, um disco para questionar o presente

Por Mafalda Matos 17 Set 2026

A estreia a solo de Pedro Abreu não parece nascer da vontade de repetir fórmulas. Em “O Outro Lado”, o músico natural de Castro Verde abre um novo capítulo depois de um percurso ligado ao rock nacional e apresenta 11 canções originais, todas cantadas em português, onde a força das guitarras convive com outras linguagens menos previsíveis.

O resultado é um álbum que se move entre o punk rock americano, o stoner e o rock progressivo, mas que também deixa espaço para melodias, saxofones, teclados e sintetizadores. Mais do que escolher uma etiqueta, Pedro Abreu parece interessado em perceber até onde pode levar uma canção de rock quando não aceita ficar presa a uma única direção.

Um outro lado do rock

“O Outro Lado” parte de uma base claramente rock, mas não se limita ao peso das guitarras e da bateria. A presença dos saxofones introduz outra dimensão melódica, enquanto os teclados e sintetizadores acrescentam texturas que aproximam algumas passagens do pop e da disco.

Essa combinação dá ao álbum uma identidade própria. Existe energia, existe peso, mas também existe espaço para contraste. Pedro Abreu constrói as canções a partir de diferentes referências, permitindo que o lado mais agressivo do rock encontre momentos de maior abertura melódica.

A opção por cantar integralmente em português é igualmente importante. Não funciona apenas como uma escolha linguística, mas como uma forma de aproximar a escrita do território pessoal e social que o álbum pretende explorar.

É nesse cruzamento que “O Outro Lado” encontra o seu lugar. Não procura necessariamente responder à pergunta sobre que género representa Pedro Abreu. Procura, antes, perceber quantas possibilidades podem caber dentro do seu próprio universo musical.

Quando a música começa a fazer perguntas

Por baixo da energia instrumental existe uma preocupação que atravessa o disco: a identidade individual perante uma sociedade que tende para a uniformização.

Pedro Abreu aborda através de letras abstratas e reflexivas temas como a liberdade de pensamento, o direito à diferença, a procura da identidade e o inconformismo. São questões que dão ao álbum uma dimensão conceptual e social, afastando-o da ideia de uma simples estreia construída à volta da experiência de palco.

O título “O Outro Lado” acaba por ganhar, nesse contexto, uma dimensão particularmente interessante. Existe a ideia de olhar para aquilo que normalmente fica fora do enquadramento, para a diferença, para a dúvida e para a necessidade de procurar uma posição própria.

O disco não apresenta respostas fechadas. Trabalha antes a inquietação. E talvez seja precisamente aí que a sua componente conceptual ganha força: nas perguntas que deixa abertas e na tensão entre indivíduo e sociedade.

“Mundo Fantástico” e “Não Sabes O Que És” abriram o caminho

Antes da chegada do álbum, Pedro Abreu apresentou “Mundo Fantástico” e “Não Sabes O Que És”, dois singles que funcionaram como antecipação do universo sonoro de “O Outro Lado”. Os temas estabeleceram a energia e a estética que depois atravessam o conjunto das 11 faixas.

A importância destes primeiros temas está também na forma como ajudam a perceber a direção escolhida pelo músico. Em vez de uma mudança radical relativamente ao seu percurso, a estreia a solo surge como uma ampliação do território que já conhece.

Pedro Abreu assume várias funções no projeto. É vocalista, guitarrista, compositor e produtor musical, levando para este trabalho a experiência acumulada em diferentes formações e projetos de música ao vivo.

Natural de Castro Verde, construiu parte do seu percurso através de projetos ligados ao rock das décadas de 60, 70 e 80, apresentando-se em diferentes palcos nacionais. Agora, essa experiência encontra uma obra que lhe pertence por inteiro.

A passagem para um álbum de originais cantado em português representa, por isso, mais do que uma estreia discográfica. É uma afirmação de autoria.

Do álbum para o palco

“O Outro Lado” foi pensado também para existir em palco. O espetáculo tem uma duração aproximada de uma hora e quinze minutos e apresenta um alinhamento de 13 músicas, incluindo as 11 faixas do álbum. A formação é composta por seis elementos.

A dimensão ao vivo permite transportar para outro espaço aquilo que o disco constrói em estúdio: peso, contraste, energia e uma componente conceptual que não fica limitada às gravações.

É também uma consequência natural do percurso de Pedro Abreu. Antes de se apresentar com material próprio, o músico passou anos ligado ao palco e à interpretação de repertórios de diferentes épocas do rock. Agora, essa experiência encontra uma obra que lhe pertence por inteiro.

“O Outro Lado” está disponível nas plataformas de streaming digital e representa o primeiro grande território de Pedro Abreu enquanto artista a solo. Um território onde o rock não aparece como uma fronteira, mas como ponto de partida para falar de identidade, diferença e inconformismo.

Talvez o verdadeiro “outro lado” esteja precisamente aí: na possibilidade de continuar a tocar rock sem deixar que o rock determine tudo aquilo que uma canção pode ser.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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