De 17 a 20 de setembro, a antiga Escola Industrial Afonso Domingues recebe a décima edição do Iminente. DJ Premier encerra o cartaz musical, num programa com mais de 100 artistas que junta hip hop, música eletrónica, rock, música cabo verdiana, artes visuais, cinema, conversas, skate, gastronomia e criação comunitária.
Dez anos depois da primeira edição, o Festival Iminente regressa a Marvila com uma proposta que vai muito além de um cartaz musical. Entre 17 e 20 de setembro, a antiga Escola Industrial Afonso Domingues transforma-se no centro de uma programação que cruza música, artes visuais, cinema, pensamento e trabalho desenvolvido com comunidades de Lisboa.
A edição de aniversário reúne mais de 100 artistas em cinco palcos e apresenta mais de 60 atuações musicais. A escolha do espaço não é apenas uma questão logística. Salas de aula, corredores e zonas exteriores da antiga escola passam a integrar a programação, fazendo da própria arquitetura e da memória do lugar parte da experiência do festival.
A música continua, naturalmente, no centro. Mas a décima edição procura mostrar aquilo que o Iminente construiu ao longo da última década: um espaço onde diferentes gerações, linguagens e geografias da cultura urbana e contemporânea podem encontrar-se.
DJ Premier fecha um cartaz que atravessa gerações
O momento de maior peso histórico do programa musical acontece no sábado, 19 de setembro, com DJ Premier. Metade dos Gang Starr e um dos produtores mais influentes da história do hip hop, o norte americano construiu uma carreira marcada por uma linguagem de produção reconhecível e por colaborações com alguns dos nomes fundamentais da música urbana das últimas décadas.
A sua atuação encerra o cartaz musical dos dez anos do Iminente e estabelece uma ligação direta entre a história do hip hop e uma programação que continua a apostar em artistas de diferentes gerações.
Entre os regressos está Original Kappa, aka Allen Halloween, que atravessa o festival com diferentes momentos. Em NOITE DA LISA, apresenta o seu percurso acompanhado por DJ Fumaxa, Landim, Miss Bity, Drunk Master, Jay Cap, Kingomas e Kapataz, além de um convidado surpresa. O artista assume também a curadoria de uma noite com Nex Supremo, DJ Firmeza e Party Smith.
Sam The Kid regressa ao festival com Beats Vol.1: Amor com Orquestra, acompanhado pela Orquestra e Orelha Negra. O espetáculo recupera uma obra concebida como banda sonora para uma história de amor dos seus pais, apresentada anteriormente em Lisboa e no Porto.
A edição marca ainda a estreia de Lena d’Água no Iminente e apresenta UN!DD, formação que reúne Acácia Maior, Cachupa Psicadélica, Scúru Fitchádu e Fidju Kitxora num encontro entre tradição, spoken word, eletrónica, funaná, rock e dub.
O programa inclui também Ana Lua Caiano, A Garota Não, Expresso Transatlântico, Ustad Fazel Sapand, Luédji Luna, Conway The Machine, Bahamadia, Black Milk, Dino D’Santiago, Capitão Faísca, Gisela João, AJULLIACOSTA, Xullaji, Syer Sujidade Máxima, La Familia Gitana, Mão Morta, Mind Da Gap e Batida, entre muitos outros.
A diversidade do cartaz não funciona apenas como uma sucessão de nomes. É uma representação da própria identidade do Iminente, que continua a aproximar linguagens musicais que raramente ocupam o mesmo espaço.
Uma escola transformada em espaço de criação
Se a música dá visibilidade ao décimo aniversário, as artes visuais ajudam a definir a relação do festival com o lugar onde acontece.
A antiga Escola Industrial Afonso Domingues é ocupada por trabalhos e intervenções de Tamara Alves, +MAISMENOS+, Wasted Rita, Camila Rosa, AkaCorleone, Pedrita, Oskouei, João Fortuna, PEDRÉZ, Entangled Others, ML7, 3D Crew, OBEY SKTR, ERROR43 + PEDRITA + FURO, PREGOS SP, Halfstudio, RUSSO 1003PV e Ricardo Passaporte.
A memória do edifício surge em várias propostas.
Vhils apresenta um retrato de José Saramago, que estudou entre aquelas paredes. Pedrita recupera o gnomo do jardim apresentado na edição inaugural do Iminente, realizada em Oeiras, acrescentando agora uma nova camada de memória. ERROR43 + PEDRITA + FURO transforma dez anos de festival num arquivo vivo, reunindo palavras e mensagens de artistas que passaram por diferentes edições.
O programa inclui ainda duas exposições. Kriminals, de Original Kappa, apresenta pela primeira vez ao público uma seleção de retratos do conjunto de desenhos de Allen Sanhá. Já The Jaunt by Underdogs, de Cody Hudson, Cleon Peterson e Abel Macias, parte de viagens para lugares desconhecidos para explorar processos de descoberta e criação.
Entre as restantes intervenções encontram-se propostas de +MAISMENOS+, Wasted Rita, PEDRÉZ, Tamara Alves e Ricardo Passaporte, incluindo trabalhos relacionados com guerra, autoritarismo, consciência, pertença, memória e participação.
O cinema entra pela primeira vez no Iminente
A décima edição introduz uma novidade significativa: pela primeira vez, o cinema integra oficialmente a programação do festival.
São quatro filmes relacionados com pessoas, lugares e movimentos que também fazem parte da história ou do programa desta edição.
Em estreia nacional surge Implantação da República #4, Rimar o Hip Hop, de Bruno Martins, com realização de Catarina Peixoto. O filme encerra uma série iniciada em 2019 e acompanha a chegada do hip hop português ao disco, reunindo nomes ligados à história desta cultura em Portugal.
- MANGA D’TERRA*, de Basil da Cunha, apresenta Eliana Rosa como protagonista e acompanha uma reboleira filmada com quem a vive e com quem dela saiu, tendo também uma ligação direta à presença de Acácia Maior no festival.
Em Complô, de João Miller Guerra, a câmara acompanha Ghoya, interpretado por Bruno Furtado, no estúdio e no próprio Iminente, numa ligação entre a experiência de 2021 e o regresso do artista ao festival.
A programação cinematográfica completa-se com Dead City Punx, produzido por Zack de la Rocha, dos Rage Against the Machine. O filme acompanha os Dead City e a cena punk DIY de Los Angeles e terá estreia europeia no Iminente.
As sessões acontecem entre 17 e 20 de setembro, com cada filme relacionado diretamente com a programação e com os territórios humanos e artísticos que o festival pretende colocar em diálogo.
O festival começa antes dos quatro dias
A dimensão comunitária é outra das linhas fundamentais desta edição.
Através do programa BAIRROS, o Iminente desenvolve desde 2020 workshops artísticos em territórios de habitação social de Lisboa. O trabalho pretende criar relações continuadas entre artistas, associações e comunidades, procurando também reduzir barreiras no acesso às artes.
Este ano, os processos desenvolvidos incluem serigrafia, cerâmica experimental, construção de instrumentos musicais, muralismo, dança, retrato e criação intergeracional.
Mais do que apresentar resultados pontuais, o programa procura deixar conhecimento e ferramentas que possam continuar a ser utilizados pelas associações depois do festival. É uma diferença importante na relação entre o Iminente e os territórios onde trabalha.
Parte desse percurso chega agora ao recinto através das oficinas realizadas durante o verão em associações dos bairros municipais de Lisboa.
O programa UNFOLD acrescenta uma dimensão internacional, juntando artistas de Portugal, Sérvia e Grécia para trabalhar questões relacionadas com o espaço público. O resultado inclui duas performances e instalações desenvolvidas por Chloe Aligiani, Nemanja Bošković, Miljena Vučković e Athanasios Kanakis.
A pergunta que atravessa os dez anos
A décima edição encontra a sua pergunta central nas quatro conversas intituladas “O que pode um festival?”
Depois de dez anos, seis cidades e mais de 600 artistas, o Iminente propõe discutir aquilo que um festival pode fazer para lá da apresentação de espetáculos.
A primeira conversa, Onde acaba a noite?, aborda o desaparecimento de clubes, associações e outros espaços de encontro e criação.
Devoluto pode ser devolução? discute edifícios devolutos, gentrificação e a relação entre espaços, comunidades e cidade.
Quem tem autoridade sobre a língua? cruza crioulo, português de Lisboa, português do Brasil, sotaques e funaná para discutir a língua enquanto território.
A última conversa, De onde vem esta música?, parte da história de grupos de rap e projetos independentes que nasceram em caves, associações, bairros e estúdios construídos com poucos recursos. A discussão centra-se na forma como esses espaços podem ser preservados e como podem abrir caminho para novas gerações.
É neste ponto que a programação deixa de ser apenas uma coleção de atividades e ganha uma dimensão crítica. O Iminente coloca em discussão a própria existência dos espaços onde a cultura nasce, circula e sobrevive.
Marvila recebe quatro dias de ocupação cultural
A programação completa-se com iniciativas que aproximam ainda mais o festival do quotidiano do bairro e do espaço da escola.
Há futebol no sábado, com o projeto CAMISOLAS, equipamentos criados por artistas para clubes com quem o festival trabalha. O Iminente Breaking Battle integra também o programa, juntamente com tatuagens, skate e gastronomia.
O halfpipe da RVCA regressa ao festival e, este ano, a seleção de restaurantes convidados conta pela primeira vez com uma escolha feita pelo Kid Abril, ao lado do arraial popular que junta associações e lojas dos bairros.
Criado em 2016, o Iminente chega assim à sua décima edição com uma programação que não procura apenas celebrar o passado. A antiga Escola Industrial Afonso Domingues torna-se, durante quatro dias, um espaço de encontro entre artistas, comunidades e públicos.
A música será o ponto de entrada para muitos visitantes. DJ Premier será o nome maior de uma programação que atravessa o hip hop, a eletrónica, o rock, a música popular e novas linguagens urbanas. Mas o verdadeiro alcance desta edição está naquilo que acontece à volta dos palcos.
Cinema, exposições, conversas, oficinas e projetos comunitários transformam o festival numa experiência que começa antes da abertura das portas e que procura deixar marcas para além dos quatro dias.
Dez anos depois, a pergunta do Iminente permanece aberta: o que pode realmente fazer um festival quando decide ocupar não apenas um espaço, mas também a memória, a comunidade e a própria cidade?
BILHETES
Passe 4 dias: 60 €
Passe 3 dias: 55 €
Passe fim de semana: 38 €
Bilhete diário, venda antecipada: 20 €
Bilhete diário, à porta: 25 €
