Filipe Tavares, director do Azores Burning Summer, faz o balanço da edição que levou quase 6000 pessoas à Praia dos Moinhos e revela os caminhos que podem marcar o futuro do festival.
A 12.ª edição do Azores Burning Summer terminou com um recorde de público, mas o número é apenas uma parte da história. Quase 6000 pessoas passaram pela Praia dos Moinhos, num festival que continua a procurar o equilíbrio entre crescimento, escala humana, descoberta musical e relação com o território.
Em entrevista ao Música Total, Filipe Tavares olha para uma edição que considera a melhor prestação de sempre da organização, fala sobre os desafios colocados pelo aumento da afluência e explica por que razão o futuro do festival não passa por crescer sem limites.
A mobilidade, a sustentabilidade, o envolvimento das comunidades, o trabalho com crianças e jovens e a ligação a outros projectos culturais dos Açores estão também no centro da conversa. Para 2027, a intenção é continuar a experimentar sem perder a identidade construída ao longo de 12 edições.
Entre o balanço de um ano recorde e aquilo que ainda pode ser feito, Filipe Tavares deixa uma ideia que resume bem a relação do festival com o lugar que o acolhe: “Queremos crescer com o Porto Formoso e não apenas no Porto Formoso.”
A 12.ª edição do Azores Burning Summer terminou com quase 6 000 participantes, a maior adesão de sempre. Que balanço faz desta edição e quais foram, para si, os momentos que melhor definem este ano do festival?
O balanço é extremamente positivo. Alcançámos a maior adesão de sempre, com quase 6000 participantes, mas o que verdadeiramente nos marcou foi a felicidade e a satisfação que sentimos no público. Ver pessoas de diferentes idades e origens a descobrirem novos artistas, a dançarem, a conversarem e a partilharem a Praia e o Parque dos Moinhos é, para nós, o melhor sinal do sucesso do Festival.
Destaco também, com enorme orgulho, a forma como toda a organização respondeu aos desafios desta edição. Apesar do aumento significativo do público, a equipa de produção e todos os parceiros demonstraram um nível extraordinário de profissionalismo, dedicação e capacidade de resposta, garantindo uma experiência confortável e segura, bem como um atendimento eficiente. Foi, provavelmente, o nosso melhor desempenho de sempre. Tenho uma enorme consideração e admiração por esta grande família que, ano após ano, dá vida ao Azores Burning Summer.
É difícil escolher apenas alguns momentos, mas os concertos de Lura, Paulo Flores, Tabanka Djaz, Capitão Fausto, Zé Ibarra e Throes + The Shine traduziram muito bem a diversidade, a energia e o espírito de descoberta desta edição. No Palco KIA Tropical, os DJ sets prolongaram esse ambiente ao longo das duas noites. Também não podemos esquecer tudo o que aconteceu antes do Festival: as iniciativas culturais, ambientais, educativas e comunitárias realizadas durante os meses de julho e agosto, que reforçaram a nossa ligação ao território e às suas comunidades.
No fundo, esta edição ficou definida pela conjugação de três fatores: uma adesão sem precedentes, o desempenho extraordinário de toda a organização e a capacidade de crescermos sem perder aquilo que somos: um lugar de descoberta, proximidade, partilha e encontro entre culturas.
O crescimento do público era uma meta assumida pela organização ou o resultado ultrapassou as expectativas? O que significa este recorde para o futuro do Azores Burning Summer?
Queremos naturalmente que o Festival chegue a mais pessoas, mas nunca encaramos o crescimento numérico como um fim em si mesmo. A nossa prioridade é proporcionar uma experiência de elevada qualidade e preservar a identidade e a escala humana do projeto. A adesão deste ano superou as nossas expectativas e representa, acima de tudo, um sinal de confiança e reconhecimento por parte do público.
O Azores Burning Summer defende um acesso equilibrado e controlado, adequado às características do recinto e à experiência que queremos proporcionar. Por isso, a lotação é deliberadamente limitada pela organização: não somos, nem pretendemos ser, um festival de massas. A experiência da edição de 2026 dá-nos motivação e confirma que nos preparámos adequadamente para receber o público na lotação máxima. Antecipámos esse cenário e reforçámos o atendimento, o serviço de shuttle, as instalações sanitárias e as condições de acessibilidade e inclusão, garantindo conforto, segurança e qualidade, mesmo perante uma adesão sem precedentes.
O futuro do Azores Burning Summer não passa, portanto, por um crescimento ilimitado, mas pela consolidação e qualificação do projeto. Queremos continuar a evoluir na qualidade da experiência que proporcionamos, preservando o equilíbrio entre dimensão, conforto e proximidade, sempre com profundo respeito pela Praia dos Moinhos, pela comunidade que nos acolhe e pelos princípios de sustentabilidade que orientam o Festival.
O festival tem uma identidade muito ligada à Praia dos Moinhos e ao Porto Formoso. Como é que o crescimento da dimensão do evento pode continuar a ser compatível com a relação próxima com o território e com a comunidade local?
A Praia dos Moinhos e o Porto Formoso não são apenas o cenário do Festival; são parte da sua identidade. Qualquer crescimento terá de respeitar a capacidade do lugar, o quotidiano dos moradores e o equilíbrio ambiental daquela zona. Se esse respeito se perder, perde-se uma parte essencial do Azores Burning Summer.
Isso exige diálogo permanente com a comunidade e com as entidades locais, planeamento rigoroso dos acessos, controlo da circulação automóvel, gestão responsável dos resíduos e uma avaliação realista da capacidade do recinto. Exige também que o Festival deixe valor no território, envolvendo agentes locais e criando atividades que se prolonguem para além dos dois dias do evento. Queremos crescer com o Porto Formoso e não apenas no Porto Formoso.
A programação voltou a cruzar artistas de Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Brasil, Espanha e Reino Unido. Que critérios estão na base da construção do cartaz e que geografias ou linguagens musicais gostariam de explorar nas próximas edições?
A programação parte sempre da curiosidade e da vontade de proporcionar descobertas. Procuramos artistas com identidade, propostas consistentes e capacidade para criar uma relação genuína com o público. Não construímos o cartaz apenas em função dos nomes mais conhecidos ou das tendências do momento. Interessa-nos o cruzamento entre gerações, culturas e linguagens musicais, com uma atenção muito especial ao universo lusófono e às suas múltiplas expressões.
Também procuramos que o cartaz faça sentido como uma viagem e não como uma simples soma de atuações. Nas próximas edições, gostaríamos de continuar a aprofundar as ligações atlânticas, africanas e ibero-americanas, assim como explorar diálogos entre a música tradicional, a criação contemporânea, a eletrónica e novas formas de fusão. Mais do que antecipar geografias concretas, queremos manter aberta a possibilidade de surpreender o público.
A sustentabilidade tem vindo a ganhar espaço dentro do festival. Depois dos resultados desta edição, que medidas gostaria de aprofundar ou implementar no futuro?
Os resultados desta edição confirmam que as medidas de sustentabilidade funcionam quando são simples e compreendidas pelo público. A devolução de 80% dos copos reutilizáveis, com reembolso da caução, a redução das beatas e a melhoria da separação permitiram manter o volume de resíduos ao nível da edição anterior, apesar da maior afluência. Reduzimos também o horário do Festival e o número de horas de emissão sonora. Embora não agrade a todos, esta medida tem sido, em geral, compreendida e bem recebida, pelo respeito que demonstra pela comunidade e pelo território.
No futuro, queremos apostar ainda mais na prevenção, melhorar a monitorização dos consumos e resíduos, envolver fornecedores e operadores e reforçar o car sharing. A sustentabilidade orienta as nossas decisões e faz parte da experiência do Azores Burning Summer.
A mobilidade foi também uma preocupação, com car sharing, parques gratuitos e transporte shuttle. Perante o aumento do público, considera que será necessário repensar a mobilidade e os acessos à Praia dos Moinhos nas próximas edições?
Sim. Os dois parques gratuitos disponibilizados pela organização, graças à colaboração de um proprietário privado e da Junta de Freguesia do Porto Formoso, esgotaram a sua capacidade. Embora o serviço de shuttle tenha funcionado de forma muito eficiente, este resultado confirma a necessidade de encontrar uma resposta com maior capacidade.
Há já algum tempo que estamos a analisar, em conjunto com a Câmara Municipal da Ribeira Grande e a Junta de Freguesia do Porto Formoso, uma solução que possa servir não apenas o Festival, mas toda a freguesia, os seus diferentes eventos e os utilizadores da Praia dos Moinhos. O objetivo é criar uma resposta estruturada e definitiva para o estacionamento, reduzindo a pressão automóvel junto à praia e melhorando as condições de acesso ao local.
Continuaremos também a apostar no car sharing, porque é uma solução que faz todo o sentido: reduz a pegada carbónica, diminui o número de viaturas em circulação e permite utilizar de forma mais eficiente a capacidade de estacionamento disponível.
O Azores Burning Summer desenvolve atividades culturais, ambientais e educativas durante os meses que antecedem o festival. Que importância tem esta dimensão para a identidade do projeto e que novas iniciativas poderão surgir no futuro?
Essa dimensão é essencial. O Azores Burning Summer não começa quando se abrem as portas do recinto nem termina quando se apagam as luzes do palco. Projetos como o Cinema da Autonomia, o Cinema na Praia, o VIVE – Programa Comunitário de Saúde, o Letras n’Areia, o Moinhos Revival e o HABITAT – Crescer Sustentável permitem-nos estar presentes no território, trabalhar com diferentes gerações e criar relações mais duradouras com as comunidades.
Queremos continuar a desenvolver iniciativas que aproximem cultura, ambiente, saúde, ciência e participação comunitária. Poderão surgir novas residências artísticas, encontros entre criadores e comunidades, ações ligadas ao oceano e à biodiversidade, oficinas e projetos de memória local. Tudo dependerá das parcerias e dos recursos disponíveis, mas a intenção é clara: aprofundar a presença do Festival ao longo do ano e alargar o seu impacto para além dos concertos.
O envolvimento das crianças e dos jovens, nomeadamente através do HABITAT – Crescer Sustentável, pode ganhar uma dimensão ainda maior nas próximas edições? Que ideias estão a ser pensadas nesse sentido?
Sem dúvida. Encaramos o investimento nas gerações mais jovens como parte da nossa missão. Num quotidiano cada vez mais marcado pelos ecrãs, consideramos fundamental criar oportunidades para que crianças e jovens se desliguem do ambiente digital, se aproximem da Natureza e vivam experiências mais humanas, presenciais e participativas.
O HABITAT mostrou-nos que existe um grande interesse por atividades que promovem o contacto direto com o património natural, a ciência e os projetos ambientais dos Açores. A literacia do oceano, o contacto com investigadores e a visita à Lotaçor permitiram transformar temas complexos em experiências concretas, acessíveis e capazes de despertar a curiosidade dos participantes.
Queremos alargar e diversificar estas atividades, estabelecer relações mais continuadas com escolas, centros de atividades de tempos livres e instituições científicas e criar condições para que os jovens deixem de ser apenas participantes e assumam também um papel ativo. Oficinas de criação, pequenos projetos de investigação, ações de monitorização ambiental e momentos de apresentação das suas próprias ideias são alguns dos caminhos possíveis. Este crescimento deverá ser acompanhado, consistente e orientado por objetivos educativos claros, ajudando a formar jovens mais conscientes, participativos e ligados à Natureza.
A colaboração com a PDL26 – Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura aproximou o festival de outras iniciativas culturais da região. Que possibilidades vê para reforçar estas ligações entre o Azores Burning Summer e outros projetos culturais dos Açores?
A parceria com a PDL26 foi fundamental para dar maior visibilidade ao Azores Burning Summer e levar a sua mensagem a novos públicos. Mostrou também que os projetos culturais dos Açores ganham força quando trabalham em conjunto, partilham conhecimento e coordenam a sua comunicação. Esta ligação poderá abrir caminho a coproduções, circuitos de programação e intercâmbios entre artistas e equipas, aproximando públicos de diferentes concelhos e ilhas.
O Azores Burning Summer pode partilhar a experiência adquirida nas áreas da música, da produção, da sustentabilidade e da intervenção comunitária, ao mesmo tempo que aprende com outros projetos da região. Uma rede cultural mais próxima e organizada dará maior projeção à criação açoriana e facilitará a circulação de artistas, ideias e projetos dentro e fora do arquipélago.
Depois de 12 edições, sente que o festival já encontrou a sua fórmula ou acredita que é importante continuar a correr riscos e experimentar novos formatos?
Ao longo de 12 edições, encontrámos uma identidade sólida, mas não uma fórmula fechada. Sabemos o que queremos preservar: a descoberta musical, o encontro entre culturas, a proximidade com o público, a ligação à Natureza, o compromisso com a sustentabilidade e a relação com a comunidade. Estes são os princípios do Azores Burning Summer, mas a forma de lhes dar vida deve continuar a evoluir.
Queremos manter a liberdade de experimentar novos artistas, linguagens, espaços, iniciativas e formas de participação. Essa aposta deve ser responsável e adequada aos recursos disponíveis, mas é indispensável para que o Festival continue vivo, relevante e capaz de surpreender. A curiosidade esteve na origem deste projeto e continuará a ser um dos seus principais motores.
Se pudesse imaginar o Azores Burning Summer daqui a cinco anos, o que gostaria que tivesse mudado e, sobretudo, o que gostaria que permanecesse exatamente como está hoje?
Daqui a cinco anos, gostaria de encontrar um Festival ainda mais sólido, sustentável e acessível, com melhores soluções de mobilidade, maior capacidade para medir e reduzir o seu impacto ambiental e uma programação comunitária e educativa mais abrangente. Gostaria também que tivesse reforçado as suas redes culturais e contribuído para a circulação de mais artistas, ideias e projetos entre os Açores e outras geografias.
Mas há aspetos que gostaria que permanecessem exatamente como estão: a Praia dos Moinhos, a escala humana, a proximidade entre artistas e público, a vontade de descobrir e o sentimento de que todos participam numa experiência especial e genuinamente humana. Espero que, daqui a cinco anos, quem chegar pela primeira vez se sinta imediatamente acolhido e que quem nos acompanha desde o início continue a reconhecer o Festival que ajudou a construir.
Há também um objetivo mais imediato, muito simples e concreto: não encontrar uma única beata no chão do recinto. Seria um pequeno gesto com um enorme significado e a demonstração de que todos compreendemos a responsabilidade de cuidar deste lugar.
A edição de 2027 já está marcada para 27 e 28 de agosto. Pode levantar um pouco o véu sobre as ideias, novidades ou caminhos que a organização gostaria de apresentar na próxima edição?
Ainda é cedo para anunciar artistas ou novidades concretas, mas posso garantir que a preparação da edição de 2027 começou antes mesmo de fechar a programação de 2026. Este é um trabalho contínuo, feito de avaliação, aprendizagem e planeamento.
Voltaremos a investir na nossa equipa e a privilegiar o diálogo e a partilha de ideias. Ouviremos os parceiros, os patrocinadores, os moradores, a população local e o público, porque uma parte importante da próxima edição será construída a partir dessas diferentes perspetivas.
O desafio é continuar a evoluir e a surpreender sem perder a nossa essência. Queremos que o Festival continue a ser um momento e lugar de encontro, descoberta e felicidade coletiva: uma experiência que permaneça no coração de todos.
