EGO regressam com novas gravações e um passado que ainda pesa no presente

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Voltar a uma banda como os EGO em 2026 não é só revisitar memória, é perceber o que resiste quando o tempo passa. A palavra-chave aqui é EGO banda açoriana, mas não no sentido literal do nome.

 

É identidade, persistência, continuidade. Há poucas bandas que podem dizer que começaram nos anos 80, pararam, e voltaram com a mesma base criativa intacta. E isso muda tudo na forma como se ouve hoje.

Formados em 1984 em Vila Franca do Campo, os EGO nasceram num contexto típico de garagem. Quatro elementos, instrumentos básicos e uma vontade clara de criar música própria em português. Armando Rodrigues, Luís Andrade, José Luís Pimentel e Paulo Cabral definiram logo à partida uma linha que não era negociável. Não eram versões, eram temas originais. E isso, na altura, já os colocava fora do circuito mais fácil.

EGO uma identidade construída antes de existir “cena”

Nos anos 80 e 90, falar de uma banda de originais nos Açores era quase um ato de resistência. Os EGO fizeram-no com naturalidade. Temas como “O homem de duas caras”, “Batalha” ou “Cinzento escuro” não eram apenas músicas. Eram afirmações de linguagem dentro de um contexto ainda pouco estruturado.

Os concertos que marcaram essa fase mostram uma banda em crescimento constante. Desde a estreia em 1984 no salão paroquial até palcos como o Coliseu Micaelense ou festivais locais como o Novas Ondas, há uma progressão clara. Não explosiva, mas consistente. E depois há momentos-chave, como a abertura para a banda Ritual Tejo ou as atuações em eventos culturais que ajudaram a cimentar o nome no circuito regional.

O mais curioso aqui não é a quantidade de datas. É a continuidade de visão. Mesmo com mudanças na formação, a entrada de elementos como Duarte Pimentel ou Mário Pacheco não desviou o foco criativo.

O silêncio de 25 anos e o regresso com peso emocional

Depois do início dos anos 2000, a banda entra em pausa. E aqui acontece algo interessante. Não há dissolução dramática, não há fim oficial com narrativa pesada. Há simplesmente silêncio. Um afastamento que dura cerca de 25 anos.

O regresso em 2024 no Bliss Vibes não surge como estratégia de carreira. Surge como gesto. Uma homenagem a Duarte “Roias” Pimentel. E isso nota-se no tom. Não é um comeback calculado, é um reencontro carregado de significado. A atuação como banda de abertura para Mariza reforça essa dimensão simbólica. Uma banda de garagem dos anos 80 a abrir para um dos nomes mais fortes da música portuguesa contemporânea.

E, de repente, aquilo que era memória volta a ser presente.

Entre a nostalgia e a reinvenção sonora dos EGO

O mais interessante neste regresso não é a nostalgia. É a forma como a banda decide trabalhar o seu próprio catálogo. Em vez de simplesmente tocar os clássicos, os EGO optam por reinventar. Ajustar, modernizar, regravar.

A gravação de “O homem de duas caras” para o projeto Anticiclone 2025 marca esse ponto de viragem. Já não se trata apenas de tocar ao vivo. Trata-se de fixar o som, adaptá-lo ao presente e levá-lo para plataformas digitais. O mesmo acontece com “Batalha”, atualmente em fase de finalização.

Musicalmente, há uma base clara nos anos 80. Guitarras com peso, estrutura pop rock, melodias diretas. Mas há também uma tentativa de atualizar esse ADN. Menos ingenuidade, mais controlo. Menos urgência juvenil, mais intenção.

Poucos concertos, mais intenção

Hoje, os EGO não querem quantidade. Querem precisão. A estratégia é clara. Menos datas, mais qualidade. Isso vê-se na escolha dos eventos e na forma como encaram cada atuação.

O concerto marcado para 18 de junho de 2026, na Praça Bento de Góis, integrado no S. João da Vila, não é apenas mais um espetáculo. É mais um capítulo de um percurso que nunca foi linear, mas sempre coerente.

Há também mudanças recentes na formação, com a saída de Mário Pacheco e a entrada de Hélio Ponte. E, ainda assim, o núcleo duro mantém-se. Baixo, bateria, guitarra solo e voz. Isso, numa banda com esta longevidade, é raríssimo.

No fundo, os EGO não estão a tentar recuperar o passado. Estão a negociar com ele. Ajustar o que foi ao que é possível agora. E talvez seja isso que os torna relevantes outra vez. Porque não estão presos ao que foram. Estão a tentar perceber o que ainda podem ser.

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