A cultura da Tuna continua a existir muito para lá das noites académicas e dos circuitos universitários. Em 2026, o EITA quer provar exatamente isso. Entre os dias 24 e 30 de junho, o festival regressa ao Ave com uma dimensão difícil de ignorar, espalhando programação gratuita por Guimarães, Mondim de Basto, Vizela, Póvoa de Lanhoso e Fafe.

O objetivo passa por transformar uma tradição muitas vezes fechada sobre si própria num espaço vivo, aberto e contemporâneo.
A edição deste ano assume um peso maior logo à partida. Mais de mil participantes de seis países diferentes vão ocupar ruas, auditórios e espaços culturais numa semana que mistura música, pensamento, território e encontro humano. O EITA já não funciona apenas como festival temático. Está a crescer como plataforma cultural ibero-americana.
Uma tradição académica que tenta fugir ao museu
O mote “O Património por Descobrir” ajuda a perceber a direção do festival. Em vez de olhar para a Tuna como peça de arquivo ou nostalgia universitária, o EITA tenta puxá-la para o presente. A ideia passa por mostrar que esta linguagem ainda consegue criar diálogo entre países, gerações e diferentes formas de expressão musical.
Ao longo de sete dias, cerca de 600 tunos vindos de Portugal, Espanha, Porto Rico, Chile, Colômbia e México vão cruzar experiências num formato que aposta muito na convivência artística. O lado internacional tornou-se uma das grandes marcas do evento e ajuda a explicar porque o EITA começou a ganhar dimensão fora de Portugal.
Existe também um esforço claro para aproximar o festival de públicos menos ligados ao universo académico. A programação gratuita e espalhada pelo espaço público procura precisamente quebrar essa barreira histórica. Nem sempre os festivais ligados à tradição conseguem escapar ao nicho. Aqui percebe-se vontade de abrir portas.
Guimarães volta a assumir o centro do festival
A Plataforma das Artes e da Criatividade, em Guimarães, será novamente o principal ponto de encontro do EITA. É ali que acontecerão os grandes espetáculos internacionais e parte significativa das residências artísticas que juntam tunas de diferentes países.
O ambiente prometido aponta mais para uma lógica de convivência cultural do que para um festival clássico de palco e plateia. As colaborações improvisadas, os encontros entre músicos e as atuações conjuntas continuam a ser um dos elementos mais fortes do projeto.
Ao mesmo tempo, o festival espalha atividade pelos restantes municípios envolvidos, criando circulação cultural dentro do território do Ave. Essa descentralização acaba por ser importante num momento em que muitos eventos continuam excessivamente concentrados nos grandes centros urbanos.
Debates, exposições e cruzamentos inesperados
O EITA 2026 não vive apenas de concertos. O ciclo TunaeTalks, na Black Box do CIAJG, vai reunir debates dedicados à diplomacia cultural ibero-americana, aos desafios da tradição em ambiente digital e à forma como os festivais internacionais podem criar novas redes culturais.
Já na Sociedade Martins Sarmento, a exposição “Tuna: Matriz Ibérica, Identidade Global” pretende olhar para a expansão internacional desta tradição e para o impacto simbólico que ganhou fora da Península Ibérica.
A programação inclui ainda um lado mais experimental através do cruzamento entre linguagens musicais distintas. O artista português José Alberto Reis, o Coro En’Canto e o cantautor mexicano Luis Carlos Gago são alguns dos nomes confirmados para esta edição, participando em colaborações que procuram aproximar a tradição académica da música contemporânea.
O festival que quer mexer na economia cultural do Ave
Com uma previsão de cerca de 15 mil espectadores ao longo da semana, o EITA assume também uma dimensão económica relevante para os municípios envolvidos. Hotéis, restauração, comércio local e circulação turística acabam naturalmente ligados ao impacto do festival.
Mas existe outra questão mais interessante aqui. O EITA parece estar a tentar construir uma ideia de cultura ibero-americana menos institucional e mais humana, feita de encontros concretos, sotaques diferentes, canções partilhadas e ocupação do espaço público.
Num período em que muitos festivais disputam atenção através dos mesmos nomes e formatos repetidos, o EITA continua a crescer numa direção diferente. Talvez seja precisamente aí que reside a sua força.

