A mesa não estava à espera de um livro. Papéis por tratar, uma caneta largada sem tampa, restos de um dia prático, desses que não pedem reflexão nenhuma.

E no meio disso tudo, quase como quem se mete sem pedir licença, Ensaio sobre a Cegueira. Não pousado com cuidado. Atirado para o centro. Como acontece quase sempre com as coisas importantes.
A capa não ajuda a entrar devagar. Aquele rosto gasto, os olhos abertos e vazios, parece olhar para quem passa e perguntar qualquer coisa que ninguém quer responder logo. Antes de abrir o livro já há um peso. Uma antecipação estranha. Isto não vai ser confortável.
O dia normal como ponto de rutura
A cegueira não chega com sirenes. Não há aviso. Não há música de fundo. Chega no meio da rotina. No trânsito parado. No trabalho que se repete. Nos gestos automáticos que já não se pensam. É isso que torna o romance de José Saramago tão difícil de largar.
Tudo começa onde ninguém está atento. E talvez seja isso que incomoda mais. A sensação de que não é preciso grande coisa para tudo falhar. Basta um pequeno desvio. Uma indiferença a mais. Um olhar que não se cruza.
A capa não ilustra, acusa
As ilustrações de Pablo Auladell não estão ali para embelezar. Não explicam cenas. Não facilitam a leitura. Fazem o contrário. Criam silêncio. Criam pausa. Criam desconforto.
Os rostos parecem cansados antes da história começar. Como se já soubessem o que aí vem. Há algo de quase sujo no traço. Nada está limpo. Nada está resolvido. E isso cola demasiado bem ao texto.
Ler devagar porque não dá para correr
Este não é um livro para ler entre tarefas. Pede tempo. Pede presença. Obriga a parar várias vezes. Às vezes não por cansaço, mas por reconhecimento. Aquela sensação incómoda de já ter visto isto antes. Não no livro. Na vida.
Cada página empurra o leitor para um sítio pouco simpático. Não há grandes heróis. Não há saídas claras. Há pessoas a tentar. A falhar. A repetir erros.
Porque continua a voltar à mesa
Há livros que ficam na estante. Este aparece em cima da mesa quando menos se espera. Talvez porque ainda não acabou de dizer o que tinha para dizer. Ou porque o mundo insiste em dar-lhe razão.
No meio do ruído diário, dos alertas constantes, das opiniões instantâneas, este livro não grita. Fica ali. À espera. Como se soubesse que mais cedo ou mais tarde alguém vai precisar de o abrir outra vez. Não para aprender. Mas para lembrar.










