Entrevista a Piner: “Esta música faz-me sentir forte, confiante e livre”

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Num momento em que as discussões sobre identidade, igualdade e autonomia ganham novo peso no espaço público, a artista canadiana Piner, natural de Kingston, na província de Ontário, apresenta “Odelia”, uma canção que cruza narrativa pessoal com reflexão social. O tema chega acompanhado por um videoclipe que transforma a história da música numa pequena parábola visual sobre pressão social, escolhas individuais e a necessidade de permanecer fiel a si próprio.

Nesta conversa, Piner revisita as origens da sua relação com a música, fala sobre o processo criativo por detrás de “Odelia” e explica como as experiências que testemunhou ao longo da vida continuam a influenciar a forma como escreve. Entre memória, presente e futuro, a artista reflete também sobre storytelling, colaboração e o tipo de impacto que gostaria que as suas canções tivessem nas pessoas que as escutam.

1. Olhando para trás, quais foram as primeiras experiências da sua vida que a levaram a fazer música e a contar histórias através das canções?

Algumas das minhas primeiras memórias envolvem a música como parte do meu mundo quotidiano. Cresci rodeada de música, na minha família e no meu bairro. Durante a infância, a minha família viveu e fez voluntariado em comunidades que apoiavam membros marginalizados da sociedade nos Estados Unidos, bem como no Peru e no México. Vi muitas pessoas que enfrentavam pobreza, instabilidade habitacional e acesso limitado a cuidados de saúde, como resultado de barreiras profundas, sistémicas e muitas vezes invisíveis, enraizadas na história, nas políticas e nas estruturas sociais. Escrever canções tornou-se uma forma de processar essas desigualdades injustas e experiências, e de tentar compreender o mundo à minha volta. Com o tempo, contar histórias através da música acabou por se tornar a forma mais honesta de comunicar e falar sobre aquilo que observava no mundo que me rodeia.

2. Quando escreveu “Odelia” pela primeira vez, que emoções ou momentos pessoais estavam a moldar a canção nesse período?

Quando comecei a escrever “Odelia”, estava a pensar muito sobre resiliência e sobre o que significa encontrar a própria voz num mundo que muitas vezes tenta moldar-nos de diferentes formas. “Odelia” surge num momento em que as conversas em torno dos direitos das mulheres e da comunidade 2SLGBTQI+, da autonomia e do poder parecem ao mesmo tempo urgentes e necessárias. “Odelia” tornou-se uma personagem que representa alguém que se recusa a tornar-se pequena ou a perder-se. Existiu certamente muita emoção no processo de escrita, esperança, luta e, no final, a ideia de se erguer acima dessas pressões.

3. De que forma as suas primeiras influências musicais ajudaram a definir a artista que acabou por se tornar?

As minhas primeiras influências estavam muito ligadas a artistas que valorizavam a narrativa, músicos que não tinham medo de ser honestos nas suas letras. Isso teve um grande impacto em mim porque me mostrou que a música podia ser ao mesmo tempo pessoal e universal. Penso que essas influências moldaram a minha abordagem à composição. Sempre me senti atraída por canções em que a história importa tanto quanto a melodia.

4. Neste momento, com o lançamento do videoclipe de “Odelia”, que mensagem espera que os ouvintes e espectadores levem da canção?

Mais do que tudo, espero que as pessoas saiam desta experiência sentindo-se encorajadas a acreditar na sua própria voz. A história de “Odelia” fala de alguém que enfrenta pressão e dúvida, mas que acaba por encontrar força para se levantar e seguir aquilo que realmente importa para si. Se alguém que veja o vídeo sentir, nem que seja por um momento, um pequeno sentido de empoderamento ou inspiração para seguir o seu próprio caminho, então a canção cumpriu aquilo para que foi criada.

5. No presente, como equilibra a narrativa pessoal com temas sociais mais amplos, como identidade, igualdade e autoconfiança?

Para mim, essas coisas estão ligadas. As histórias pessoais refletem muitas vezes temas maiores que estão a acontecer na sociedade. Quando escrevo, normalmente começo por algo emocional ou pessoal, mas essas experiências acabam por tocar em ideias como identidade, pertença ou igualdade. A chave é manter a narrativa humana e próxima, em vez de tentar primeiro fazer uma declaração. Se a história for honesta, os temas maiores acabam por surgir naturalmente.

6. Qual foi o momento mais memorável ou inesperado durante as filmagens do vídeo de “Odelia”?

Um dos momentos mais memoráveis foi ver a história ganhar forma visual depois de ter vivido com a canção durante tanto tempo.

7. Nesta fase da sua carreira, sente que a sua escrita de canções evoluiu em comparação com as primeiras gravações?

Penso que me tornei mais intencional em relação à mensagem que estou a tentar transmitir. À medida que me fui tornando mais consciente dos meus sentimentos e comecei a compreender-me melhor, consegui ser mais clara sobre aquilo que quero comunicar e sobre a história que quero contar.

8. Olhando para o futuro, imagina continuar a combinar narrativa forte com storytelling visual nos próximos lançamentos?

Sem dúvida. Tenho-me interessado muito pela forma como a música e a narrativa visual podem trabalhar juntas. Uma canção já cria uma imagem emocional, mas um vídeo pode expandir esse universo e dar ao público outra forma de se ligar à história. Gostava muito de continuar a explorar essa relação entre música e cinema em projetos futuros.

9. Existem direções musicais ou colaborações que gostaria de explorar nos próximos anos?

Estou sempre interessada em colaborações porque trazem novas perspetivas para o processo criativo. Trabalhar com outros compositores, músicos ou até realizadores pode levar uma canção para direções inesperadas. Musicalmente, estou aberta a explorar sonoridades que continuem a apoiar a narrativa, mas que talvez expandam um pouco mais o universo sonoro.

10. Se imaginar o seu percurso artístico daqui a cinco ou dez anos, que tipo de impacto gostaria que a sua música tivesse no público e nas comunidades?

Gostaria que a música continuasse a ressoar com as pessoas a um nível pessoal. Se uma canção puder fazer alguém sentir-se compreendido, inspirado ou um pouco menos sozinho, isso já é extremamente significativo. Para além disso, gostaria que a música contribuísse para conversas sobre identidade, resiliência e autoconfiança. No final de tudo, se as canções conseguirem criar ligações entre as pessoas e encorajá-las a continuar os seus próprios caminhos, esse é o tipo de impacto de que eu teria orgulho.

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