Depois de quase uma década a construir este disco, houve algum momento em que pensaste que ele nunca iria existir? O que te fez continuar?
Não. O processo criativo já é, por si só, um motivo para continuar. Aliás, vivemos tempos em que tudo é fugaz. Para isso, parece que temos de produzir compulsivamente, mas estou num processo inverso. Só depende de mim.
O processo de criação atravessou pandemia, mudanças pessoais e um mundo em tensão. Em que momento sentiste que essas camadas começaram realmente a infiltrar-se na música?
Desde sempre. Estava a sentir todos esses momentos. Tal como um escritor tem necessidade de escrever, eu tinha necessidade de musicar estes problemas. A música tem essa força. Para além de ser lúdica, pode ter um papel de reflexão e de transformação.
Quando ouves hoje as primeiras ideias que deram origem a Fora do Lugar, reconheces o mesmo músico ou sentes que já eras outra pessoa?
Reconheço o mesmo músico, mas estamos sempre em transformação. Não significa que seja para melhor, mas somos diferentes. Sinto que mantinha as ideias iniciais, porque neste momento acho que já não chegava lá, mesmo que quisesse. Ainda gosto do que ouço e isso era o objetivo.
O disco parece funcionar como um filme interior. Costumas compor a partir de imagens mentais ou a narrativa surge apenas depois da música estar construída?
Tenho os dois processos.
Vivemos num tempo em que a tecnologia acelera tudo, incluindo a criação artística. Sentiste necessidade de abrandar deliberadamente para preservar humanidade no processo?
Não tenho necessidade de abrandar, mas sim de ser humano. Estamos assoberbados de trabalho, com metas para atingir, e quase não “desligamos”. Tenho necessidade de respirar e fazer, com tempo, aquilo que me dá prazer.
Paralelamente tenho outros trabalhos musicais, também de criação artística e como músico. Obviamente dou prioridade onde tenho um retorno financeiro mais imediato. Logo, desacelerei o projeto de criação, mas aprendi a lidar com isso.
O single “Fora do Lugar” aponta para uma distopia muito próxima da realidade. Acreditas que a música ainda tem força para alterar consciências ou o seu papel é mais íntimo do que coletivo?
Acho que ainda continua a ter força, apesar de andarmos todos mais distraídos. Em situações de aflição as pessoas unem-se e acredito que o gatilho de uma canção pode mudar consciências. Obviamente que temos de acreditar no peso da mensagem para espelhar isso noutras pessoas.
Ao longo do teu percurso estiveste envolvido em projetos muito diferentes. O que é que Torcido te permite dizer que não consegues dizer em mais lado nenhum?
Nos outros projetos em que estou envolvido também tenho voz e vão muito ao encontro do que idealizo, porque certamente já não estava lá se assim não fosse. Torcido é a minha visão e estética, onde me exprimo musicalmente em todas as áreas, pois gravo vários instrumentos e a construção dá-me alento.
A tua experiência como professor e diretor artístico influencia a forma como compões? Existe um diálogo entre a pedagogia e a criação autoral?
Claro que sim. Estamos sempre a aprender e a utilizar métodos. Um diretor artístico também compõe, aliás é o que dá mais trabalho. São sempre vários instrumentos e temos de escrever para todos eles.
Relativamente à pedagogia também tenho esse cuidado. Dou aulas de instrumento e quero sempre que os alunos criem. O improviso é muito importante na abordagem de um instrumento.
Trabalhas muito a dimensão cinematográfica do som. Já imaginaste este disco a transformar-se num espetáculo multimédia mais imersivo?
Sim, já imaginei.
Depois de tantos anos a maturar este primeiro longa-duração, sentes libertação ou um novo peso de expectativa?
De certa forma sinto-me aliviado. Há alturas em que temos de largar o “filho” e dar-lhe liberdade para se expandir.
O que aprendeste sobre ti próprio durante a construção de Fora do Lugar que não sabias quando começaste?
Aprendi a ser mais resiliente, a baixar as expectativas, pois muita coisa está fora do nosso alcance. Temos sempre de ter objetivos na vida e a rapidez muitas vezes é inimiga da perfeição. A perfeição, neste caso, é a minha satisfação pessoal.
Se olharmos para a frente, que território ainda te falta explorar enquanto criador? Existe algum risco que ainda não tenhas tido coragem de assumir?
A verdade é que já fiz muita coisa. Para teatro, para orquestra, para curtas-metragens. Mas acho que vai ser sempre desafiante voltar a fazer. Ainda não fiz para cinema.
O risco está e estará sempre presente quando criamos. Vamos ser alvo de críticas e opiniões. Eu gosto sempre de sair da minha zona de conforto. Fico com algum receio, mas o desafio é mais forte do que o medo.