ENTREVISTA: Morbid Death, três décadas de resistência no metal açoriano e um novo capítulo com Veil of Ashes

Share

Mais de trinta anos depois de nascer em São Miguel, a banda Morbid Death continua a ser um dos nomes centrais do metal extremo feito nos Açores. Formados em 1990, atravessaram mudanças de formação, transformações na indústria musical e períodos de silêncio, mas mantiveram sempre a mesma determinação que marcou os primeiros ensaios e concertos.

Agora, com o novo álbum Veil of Ashes, com lançamento marcado para 13 de março de 2026 pela Firecum Records em parceria com o Museu do Heavy Metal Açoriano, a banda abre um novo capítulo na sua história. Entre memórias dos primeiros tempos, desafios ao longo das décadas e uma visão clara para o futuro, os Morbid Death falam sobre o percurso da banda, o metal feito nos Açores e a energia que continua a alimentá-los depois de tantos anos de estrada. Segue entrevista com Ricardo SAntos.

 Recuando a 1990, quando a banda nasceu em São Miguel, o que vos movia naquele momento e que memórias guardam dos primeiros ensaios e concertos?
RS – O que nos movia era o desconhecido e o querer, à nossa dimensão, vivenciar um pouco do que os nossos ídolos viviam.
Tudo era vivido e sentido intensamente. Cada ensaio e, consequentemente, cada espetáculo eram motivo de enorme orgulho, porque faziam-nos amadurecer enquanto indivíduos e músicos.

 Na altura, sentiam o peso do isolamento geográfico ou isso funcionava como combustível extra para provar que era possível fazer metal extremo a partir dos Açores?
RS – Digamos que houve interesse da malta não residente nos Açores em saber o que era musicalmente feito por cá e, por diversas vezes, o feedback era bastante positivo.
Com este feedback, aumentava a vontade de sairmos daqui e mostrar “in loco” o que tínhamos para oferecer. Aconteceu por algumas vezes, mas era sempre um esforço financeiro significativo, principalmente para uma banda com poucos recursos. Mas tentávamos ao máximo mostrar que, mesmo assim, com o facto de estarmos afastados dos grandes meios onde o metal e os seus sub-géneros eram consumidos por imensos fãs, também era possível juntarmo-nos a esta globalização musical.

 Ao longo de mais de três décadas passaram por mudanças de formação, fases distintas e transformações na própria indústria musical. Qual foi o momento mais desafiante da vossa história?
RS – Arrisco-me a dizer que todas as alterações de formação foram as mais desafiantes, cada uma à sua maneira.
Recrutar músicos novos e aprender a lidar com diferentes personalidades, por vezes pode ser extenuante devido ao recomeço de todo o processo. Há ali um momento criativo que estagna. Inevitavelmente, há uma adaptação geral entre todos os elementos e entre os novos elementos e as músicas já existentes.
Contudo, com esta nova formação, no espaço de um ano muito se fez. Com anteriores formações, teria sido necessário três ou quatro anos para conseguir os mesmos resultados. Não é por nada que, entre cada álbum, existem intervalos muito longos.

Olhando para a vossa discografia, onde colocam Veil of Ashes no percurso da banda? É um regresso às raízes ou uma evolução natural?
RS – Pode ser considerado uma mistura, tanto de regresso às raízes como uma evolução natural, mas colocaria VEIL OF ASHES logo a seguir à segunda demo-tape (SHAMELESS FAITH).
É curioso que esta nova formação assimilou na perfeição o que era pretendido como futuro a seguir. Quase arrisco a dizer que, caso ainda houvesse os elementos originais nas fileiras, VEIL OF ASHES poderia muito bem ser a sonoridade obtida.

Os temas já revelados mostram uma sonoridade mais direta e agressiva. Esta abordagem foi uma decisão consciente ou surgiu de forma orgânica em estúdio?
RS – Foi uma decisão consciente e surgiu de uma forma muito descontraída, com o coletivo bastante ativo. À medida que se foi compondo, era posto logo em prática nos ensaios e gravámos as demos de cada música. Como coletivo, funcionamos muito bem.

Trabalhar no StepKeys Studio, em Ponta Delgada, teve algum impacto especial no processo criativo? Há algo de diferente em gravar “em casa”?
RS – Foi uma experiência muito positiva, não fosse o Stepan uma pessoa super descontraída e de fácil trato.
Com as demos todas entregues ao Stepan, creio que não foi necessário efetuar qualquer alteração estrutural de cada música. Houve algumas opiniões “estéticas” do Stepan que tivemos em consideração. É normal que o produtor sempre participe com alguma sugestão.
Os nossos astros estavam alinhados com os dele e tudo foi feito de uma forma natural.

 Depois de tantos anos de estrada, o que vos continua a motivar a compor, ensaiar e subir ao palco com a mesma intensidade?
RS – No meu caso em particular, a paixão por este género musical e por esta banda que fez e faz parte da minha vida desde os meus 18 anos de idade.
No entanto, é importante lembrar que nunca seria possível conseguir isto sozinho. Todos os membros, os atuais e os ex que passaram por Morbid Death, são responsáveis por este percurso e por estes anos de estrada.

Sentem que existe uma identidade própria no metal feito nos Açores? Podemos falar numa verdadeira cena açoriana?
RS – Não creio que haja uma identidade própria. Metal é metal e é universal.
A qualidade do que se tem produzido por cá, em Portugal, facilmente se pode dizer que está ao nível do melhor que se faz por este mundo fora. Simplesmente falta aquela estrelinha da sorte e maior rodagem noutras paragens.

Se essa cena existe, quais são as suas características distintivas? União entre bandas, dificuldades estruturais, espírito de resistência?
RS – No geral, os açorianos são resilientes. Em MD somos resilientes e teimosos! Embora já tenha havido vontade de atirar a toalha ao chão, por diversas vezes, isso serviria de quê e para quê!?
Com o passar dos anos, fomos ganhando calo, percebendo que não são favas contadas. A nossa atitude mudou e agora, de há uns anos para cá, vamos em frente por paixão e diversão.
Além disso, com os problemas do dia a dia, isto é uma enorme terapia, um enorme escape.

 Como veem a nova geração de músicos açorianos? Encontram ecos do vosso percurso nas bandas mais recentes?
RS – Podemos ter tido um papel de importância no desenrolar do meio musical local, mas existe uma nova geração de músicos que ganhou asas e está a fazer coisas incríveis, coisas a que a maioria não dá a devida importância.
É urgente que olhem por eles, senão poderá chegar o dia em que desistem, perdendo-se grandes valores, tal como já perdemos de uma outra geração mais velha.

 No panorama nacional, acreditam que o metal extremo português está a viver um momento de afirmação ou ainda enfrenta barreiras estruturais?
RS – Pelo que tenho visto, existem muitas bandas portuguesas que poderiam estar num patamar bem acima do que estão. A qualidade existe e poderiam estar taco a taco com qualquer banda internacional.

 Pensando no futuro, o que desejam para os Morbid Death nos próximos anos: mais edições, digressões fora do país, colaborações, ou simplesmente continuar a manter a máquina viva?
RS – Um dos objetivos é sermos mais regulares na edição de novos álbuns. Não podemos levar mais 4, 5 ou 6 anos para encontrar o sucessor de Veil of Ashes, tal como vinha sendo hábito. Perdíamos muito tempo com nada e isso não pode voltar a acontecer, quebrava em demasia toda a dinâmica e o bom funcionamento da banda.
Já estamos com a ideia de, no final de 2026 ou princípio de 2027, voltar ao estúdio. Com isto, acredito que manteremos a máquina bem viva. Tudo o que vier por acréscimo será muito bem-vindo!!!

banda portuguesa de death/thrash metal Morbid Death regressa

LER MAIS

Notícias Locais