Entre música, escrita e investigação cultural, Nuno Costa tem vindo a construir ao longo de mais de duas décadas um percurso singular na cena alternativa dos Açores. Natural das Furnas, em São Miguel, começou por se afirmar como músico, tocando bateria em projectos ligados ao metal e ao underground regional, mas rapidamente alargou a sua intervenção ao jornalismo musical e à promoção cultural.
Foi o criador do SoundZone, fanzine e posteriormente website que durante anos acompanhou a actividade musical alternativa das ilhas, reunindo entrevistas, notícias e críticas. Colaborou também com a revista Loud!, uma das principais publicações portuguesas dedicadas ao rock e ao heavy metal, e esteve envolvido na organização de iniciativas culturais e concertos.
Em 2023 publicou o livro «Quimeras de Lava – Uma História do Metal Açoriano 1985–2000», um trabalho de investigação com mais de 500 páginas dedicado à memória do heavy metal no arquipélago.
Agora apresenta Complexo N, uma nova publicação independente que mistura fanzine, almanaque e revista cultural, com o objectivo de aprofundar histórias, artistas e contextos da cultura alternativa açoriana. Num tempo marcado pela velocidade da informação, o projecto aposta numa abordagem de leitura mais lenta, analítica e próxima dos criadores.
Nesta entrevista, Nuno Costa fala sobre o percurso que o levou até aqui, a importância de documentar a cena alternativa das ilhas e a visão que tem para o futuro da cultura independente nos Açores.

O Complexo N nasce de uma longa ligação à música alternativa açoriana. Quando começou a sentir necessidade de criar uma publicação própria dedicada a esta cena?
Em meados de 2024. Mas neste conceito em concreto, porque a vontade de ter uma publicação impressa vem desde o início do meu trajecto, ou seja, desde 2003. O meu sonho teria sido publicar o SoundZone em formato físico e profissional, mas tal nunca foi possível, até porque era bem mais jovem. Mas tentativas não faltaram. E muitos sonhos. No entanto, como poderão saber, o SoundZone teve 14 edições em formato fanzine fotocopiado, antes de passar para o formato website durante dez dos doze anos em que esteve activo. O Complexo N já surge como súmula de uma experiência acumulada e de um hábito, ou vício, de promover uma área de que se gosta. E da suposta importância que todo e qualquer projecto de divulgação cultural deve ter. Portanto, surge da vontade de trabalhar no sentido de um bem comum.
Antes deste projecto esteve envolvido em bandas, fanzines e jornalismo musical. Que aprendizagens desse percurso acabaram por moldar a identidade do Complexo N?
Muitas. Inevitavelmente. Aprende-se com a persistência, tentativa e erro, com muita autocrítica e com a percepção que se cria das necessidades dos artistas. A aprendizagem nunca estanca, é preciso estarmos sensíveis ao que é necessário em cada momento da sociedade e em como isso se reflecte nas ambições ou carências dos artistas. Felizmente, tive a honra de ser intérprete, ou músico, como queiram chamar, durante muitos anos, era baterista. Pude sentir muitas das dores dos músicos, o que se reflectia na minha sensibilidade como jornalista. Assim sendo, quero acreditar que tal foi uma mais-valia para gerar uma marca ou identidade distinta na minha abordagem escrita.
A publicação assume-se como uma espécie de “jornalismo lento”. O que significa isso na prática e por que sente que faz falta hoje?
Escrever com profundidade, assim se explica. É, aliás, um conceito cada vez mais “estudado”, mais adoptado e aliciante. A mudança dos tempos obriga a certas reflexões. Complementando, trata-se de ser minucioso e investigativo para combater a velocidade, a superficialidade, o imediatismo e a falta de detalhes de muitos serviços informativos. Combater a “visão ingénua da informação”, como diz Harari. E a falta de coração, já agora, embora se diga que informar é um acto de frieza, sem prejuízo da imparcialidade e ética. Todavia, o Complexo N é um conceito de escrita livre, lúdica e recreativa, mas assente num rigoroso suporte de investigação jornalística. Unir os dois mundos, informação e prazer pela leitura, são os objectivos.
A cena alternativa açoriana tem muitas vezes menos visibilidade fora das ilhas. Que histórias ou artistas sentiu que estavam por contar e que o motivaram a avançar com este projecto?
Há sempre algo a acontecer no “pátio das traseiras”, nos bastidores, jovens que estão a começar e que ainda têm reservas e até mesmo vergonha em se darem a conhecer, até aos artistas já firmados cuja obra ainda não foi explorada por certos prismas ou até certos níveis de detalhe. Trata-se de contar histórias de outra forma, de forma que fique, que não fuja assim que deslizamos pelo scroll infinito, em que o esquecimento é o que fica do tanto que vemos e não vemos. Não há laços profundos sem tempo e atenção. E, sinceramente, não acho que a cena alternativa açoriana tenha menos visibilidade fora das ilhas, ou pelo menos por alguma razão mais “labiríntica”. Estamos mais ligados do que nunca, há muitos anos, falo da Internet, claro, e estamos a duas horas de Lisboa. A questão é que o mundo é muito grande e há muitos a correr no mesmo sentido. Persistência, paciência e competência é ao que nos obriga.
O Complexo N mistura formatos de almanaque, fanzine e revista cultural. Como foi pensada essa estrutura editorial e que experiência quer oferecer ao leitor?
Baseou-se tudo em equilibrar custos e relevância cultural. A originalidade é quase uma utopia hoje em dia, mas acredito que este formato é inédito, pelo menos nas ilhas. Não me recordo de nenhuma publicação com uma edição dedicada exclusivamente a um artista, onde lhe é “extraída” a alma e onde são expostos detalhes que normalmente não cabem noutros contextos editoriais. Há um ar biográfico, mas também filosófico. Fala-se de praticamente tudo, com tempo, espaço para análise séria, mas também descontracção, sem ser frívola. Há o cuidado de cruzar referências de todos os campos artísticos, ou mesmo da sociedade e da actualidade em geral, para que a leitura resulte o mais rica possível e a cultura geral seja estimulada. Pode parecer um desafio presunçoso, mas é pelo menos isso que nos move, em cada linha, em cada letra. Resumindo, a questão entronca no que já foi dito, gerar profundidade para que algo permaneça após a leitura.
O projecto pretende aproximar artistas e público. Na sua visão, o que ainda falta para que a cultura alternativa açoriana tenha maior reconhecimento?
Não falta nada. Ou melhor, não falta nada que já não tenha sido feito. Mais precisamente ainda, não falta nada que possa ser feito pelos intervenientes mais próximos da cultura, e não falo de governantes. Os músicos, os promotores, aqueles que se enquadram num plano mais amador e lutam na base desta pirâmide para gerar alguma coisa, não podem fazer muito mais. A afirmação da cultura na sociedade portuguesa é um desafio muito complexo. É uma questão de política cultural, sem dúvida, mas vai além disso. Ainda estamos a pagar a factura de quase 50 anos daquela coisa feia, com taxas de analfabetismo nos níveis que sabemos e onde a sobrevivência era e continua a ser a preocupação legítima principal. Sim, parece uma questão meramente política, e é-o em primeira instância, mas não arredo responsabilidades a uma sociedade que, tendo já tanta coisa ao seu dispor, e de qualidade, parece preferir outros caminhos. Somos todos livres. E cinjo-me a isto. De resto, sim, o projecto pretende aproximar artistas e público através de uma escrita mais “longa” e aprofundada, onde conhecerão os artistas e a sua obra como normalmente não conhecem.
Depois de tantos anos a acompanhar música e cultura nas ilhas, como descreve hoje o estado actual da cena alternativa nos Açores?
Creio que existe quantidade e qualidade. E diversidade, talvez mais do que nunca. O único desafio é enquadrar todos. Apesar da imensidão de eventos e iniciativas, parece mais difícil encontrar sítios e programas que acolham artistas jovens e alternativos. Há demasiados eventos com as mesmas características. Há medo de arriscar pelos privados, o que me parece legítimo até certo ponto, mas grave do ponto de vista da consciência social. Assim sendo, tem de haver uma política pública reforçada de incentivo à criação. Apesar disso, creio que nunca se produziu e lançou tanta música, o acesso a tecnologias naturalmente privilegia isso, e acho que por aí devemos estar orgulhosos e optimistas. Resta tentar criar condições para que todos caibam, mas também deve haver a noção de que os Açores nunca podem ser o ponto de chegada, mas sim o ponto de partida para um mundo que está mais ou menos à nossa mercê e que oferece outras possibilidades. Mesmo nesse mundo, nunca haverá lugar para todos, mas essa não é razão para desistir. É, sim, para redefinir metas, objectivos e o que significa sucesso.
Publicar em papel numa era dominada pelo digital pode parecer quase um gesto de resistência cultural. Foi também essa a intenção?
Na verdade, é um acto de loucura, diga-se. Talvez até de burrice. Mas há vísceras, há sentimento, há propósito. Nem que se morra à nascença. Fica o exemplo. O objectivo não foi apenas “lascivo” ou fetichista. Carregava consigo a obrigação de fazer valer este formato, até financeiramente. Portanto, a responsabilidade e a pressão eram consideráveis, na medida em que era preciso tentar oferecer um produto que justificasse todo o esforço e investimento. Teria de ser distinto, mas realista e exequível, tratando-se de um projecto totalmente independente. Creio que conseguimos gerar um produto com grande personalidade.
Que tipo de impacto espera que o Complexo N possa ter na comunidade artística açoriana nos próximos anos?
Não espero nada. Terá de perguntar às pessoas.
Olhando para o futuro, imagina o Complexo N a crescer para outras áreas como eventos, arquivos culturais ou novas publicações? Que caminhos gostaria de explorar?
Neste momento, nenhum. Já explorei essas actividades há quase vinte anos e não me parece que tenha condições hoje para assumir certos riscos. Passo a tocha a quem tiver força e capacidade para escalar essa montanha. Já não penso em coisas megalómanas. O que não quer dizer que não acorde um dia com uma ideia mirabolante, uma sequência de sonhos cartesianos ou tenha um momento Eureka e decida pôr em prática algo que seja válido para as pessoas, e não só para mim. Até lá, ficarei no meu canto.

