Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026
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Eu, Tu e o Outro: “A música nem devia ter géneros”

Por Mafalda Matos 16 Set 2026

Nasceu no quarto de alguém, cresceu sem pressa e foi ganhando forma em diferentes partes do mundo. Eu, Tu e o Outro é um projeto musical português que escolhe colocar as canções no centro, deixando para segundo plano os rostos e as identidades de quem as cria.

Com “Contraste” a abrir o Ciclo I, a 11 de setembro, o projeto apresenta seis singles que serão revelados ao longo dos próximos meses. Entre dark pop, música alternativa e rock, as canções atravessam diferentes ambientes sem se prenderem a géneros ou a uma fórmula definida.

Nesta conversa com o Música Total, falamos sobre a origem do projeto, o processo de composição e gravação em diferentes casas e países, a decisão de não transformar os seus criadores nos protagonistas e a vontade de fazer música que possa, um dia, ganhar um lugar na vida de quem a ouve.

 

 

“Eu, Tu e o Outro” apresenta-se como um projeto sem protagonistas. O que significa, na prática, retirar o foco de quem faz a música e colocá-lo nas canções?

Significa dar importância ao que realmente merece destaque: a música, a sua mensagem, as sensações que nos provoca e as memórias que construímos com ela, e não necessariamente ao rosto por trás dela.

Claro que existem rostos na composição, existem músicos, existem vozes. Mas aqui o propósito é partilhar momentos e trazer apenas a embalagem mínima necessária para acompanhar a música. Um projeto precisa de uma imagem para poder circular, mas não precisa de uma imagem que se sobreponha à música.

O importante é o coração. E o coração está na canção. É daí que vem a ausência de protagonismo: o foco está na música.

O projeto nasceu “no quarto de alguém”. Como começou esse processo e o que é que esse espaço representou para a criação das primeiras músicas?

As canções começam sempre no espaço de alguém. O quarto é um espaço de intimidade, e a música também traz intimidade, traz “eu”.

Mas, para quem compõe, todos os espaços podem ser esse quarto, desde que estejamos a conseguir construir alguma coisa. Para mim, este processo começou há muitos anos, a partir do momento em que tive o primeiro contacto com um instrumento e, quase imediatamente, senti vontade de o usar para explorar e criar, e não apenas para interpretar coisas que já existiam.

Acho que cada nova música, cada excerto, cada riff ou cada linha são uma continuação desse mesmo processo.

Tocar e compor é um espaço de intimidade, de segurança. É um lugar onde gosto de habitar.

As canções foram escritas e amadurecidas sem pressa, ao longo de dois anos. O que é que esse tempo permitiu fazer que um processo mais rápido provavelmente não permitiria?

Na verdade, a grande maioria destas canções tem bastante mais do que dois anos. Estes dois anos foram sobretudo de organização, de alinhamento de ideias, de reformulação de arranjos e de foco no processo de gravação.

E quis que esse processo não fosse o convencional de entrar num estúdio e gravar um disco. Quis algo mais pessoal. Por isso, foi essencialmente gravado em casa, ou, melhor dizendo, em várias casas. Cada músico gravou no seu espaço, no seu lugar de conforto, e quero acreditar que isso também se sente no som.

A falta de pressa permite digerir, sentir, medir e calibrar a forma final com que queremos apresentar uma canção. É difícil fazer isso quando estamos demasiado pressionados por objetivos ou calendários.

Este é um projeto sem pressa e sem agenda.

As gravações aconteceram em diferentes partes do mundo. De que forma esses lugares e as pessoas que foram aparecendo pelo caminho influenciaram o resultado final?

A composição, as vozes e as guitarras são portuguesas. Os restantes instrumentos presentes nas canções deste Ciclo I foram tocados por músicos de outros países, pessoas que fui conhecendo, músicos que admiro e que tive a felicidade de poder convidar para este trabalho.

E há algo de bonito nisso. Música que começou num espaço de intimidade, naquele tal “quarto”, viajou pelo mundo e foi ganhando corpo e forma através de músicos excelentes, a gravar nos lugares onde vivem.

E quero acreditar que essa viagem e essas pessoas também ficaram, de alguma forma, dentro das canções.

“Contraste” é a primeira música a ser revelada. Porquê começar precisamente por esta canção?

“Contraste” foi a primeira escolha porque sinto que sintetiza alguns dos ambientes que vamos explorar e transmite com verdade aquilo que é Eu, Tu e o Outro.

Tem intimidade, vulnerabilidade, reflexão, amor, falta, emoções muito humanas e, simultaneamente, tem ritmo. É também uma música que mostra algo de que gosto muito: a melancolia não tem de ser triste. E esse é definitivamente um território de Eu, Tu e o Outro.

Por isso, pareceu-me um bom cartão de visita. Mesmo sabendo que, já neste primeiro ciclo, vamos passar por ambientes bastante diferentes.

O título “Eu, Tu e o Outro” sugere uma relação entre diferentes pessoas. Quem são, afinal, esse “eu”, esse “tu” e esse “outro” dentro do projeto?

Eu, Tu e o Outro pode ser aquilo que tu quiseres.

Posso ser apenas “eu”. Podem ser três. Pode ser uma infinidade de coisas. Tantas coisas na vida acontecem em relações triangulares, ou até em formas geométricas bastante mais complexas.

Talvez seja uma merecida homenagem à complexidade.

Falamos muito da beleza das coisas simples, talvez porque somos complexos e admiramos aquilo que é mais puro, mais imediato, aquilo que tem menos lados, menos pontas, menos sombras.

Eu, Tu e o Outro é um pouco tudo isso. E, acima de tudo, aquilo que tu quiseres que seja.

O projeto cruza dark pop, música alternativa e rock. Como definiriam a identidade sonora que procuram construir entre estes universos?

A música nem devia ter géneros.

Mas, olhando para ela dessa forma segmentada, é possível que, para além da dark pop, da música alternativa e do rock, apareça música clássica, metal ou qualquer outra coisa. Aquilo que fizer sentido para determinada canção.

Não quero que seja o género a decidir o que uma música pode ser.

Acima de tudo, há uma identidade portuguesa. São músicas escritas em português, pensadas em português, vividas e construídas em Portugal.

Gosto de pensar nelas assim: muito portuguesas, mas livres.

Existe uma preocupação em não revelar demasiado sobre quem está por trás da música ou a prioridade é simplesmente não transformar essas pessoas no centro da narrativa?

Se há coisa de que este projeto procura estar livre é da pressa e das preocupações. Ele também nasceu para ser uma espécie de bolha dentro de uma vida quotidiana que já está cheia dessas duas coisas.

Portanto, não existe uma preocupação em esconder. A prioridade é simplesmente a música e dar-lhe espaço para poder ser recebida sem ficar imediatamente colada a alguém.

Eu, Tu e o Outro não nasceu com a necessidade de se apresentar como uma banda. Mas também não quero fechar portas. As coisas evoluem e, quem sabe, um dia poderá fazer sentido.

O Ciclo I será composto por seis singles lançados ao longo de vários meses. Porque escolheram revelar as canções uma a uma em vez de apresentar o projeto de uma só vez?

Acima de tudo, porque quero que cada música tenha espaço para ser ouvida em separado. Quando lançamos seis ou dez músicas em simultâneo, é muito fácil que sejam consumidas rapidamente. Gostava que cada uma tivesse o seu momento de vida e de exposição.

E há outra coisa de que gosto: o sabor doce da espera.

Hoje tudo é muito rápido e estamos cada vez menos habituados a esperar. Mas há qualquer coisa de excitante na espera, no flirt, em ter paciência, em imaginar mais do que consumir. Imaginar o que poderá vir a seguir, como soará a próxima música, sobre o que poderá falar.

Talvez uma destas canções não diga absolutamente nada a alguém. Mas talvez diga muito a uma pessoa em particular.

É dessa que estamos à procura.

Os títulos “Lobo Mau”, “Boreais”, “Nada”, “O Monstro” e “Birra” parecem apontar para universos muito diferentes. Existe uma história ou uma ligação entre estas seis canções?

Cada música foi pensada de forma independente e cada título nasce muito mais da própria canção do que da procura de uma coerência entre todas.

Foram escritas pela mesma pessoa e, neste ciclo, são cantadas pela mesma pessoa. Portanto, necessariamente existirão ligações. Algumas serão óbvias. Outras ficarão por descobrir.

Dizem que a música pode acompanhar, curar, fazer chorar ou dar força. Há alguma canção deste primeiro ciclo que tenha assumido um significado particularmente forte para quem a criou?

A música tem qualquer coisa de extraordinário. É uma espécie de entidade abstrata capaz de preencher e decorar o tempo, de nos fazer viajar.

É incrível perceber, por exemplo, que pessoas com Alzheimer, mesmo quando tantas memórias já se perderam, podem continuar a reconhecer, acompanhar ou cantar músicas que fizeram parte das suas vidas. É difícil encontrar uma imagem mais bonita da forma como a música se entranha em nós.

A música pode fazer-nos companhia, dar-nos força, fazer-nos chorar, quase dar-nos um abraço. E acho que foi também por sentir isso que nasceu, há muito tempo, a minha vontade de tocar e de compor.

Não conseguiria escolher uma deste ciclo. Todas têm um significado particularmente forte.

Quando o Ciclo I estiver completo, o que gostariam que ficasse no ouvinte: uma imagem sobre quem está por trás do projeto ou uma canção que passe a fazer parte da vida dessa pessoa?

Gostava, primeiro, que ficasse uma grande vontade de ouvir o Ciclo II.

Mas, acima de tudo, seria maravilhoso que uma destas canções fosse adotada por alguém. Que alguém gostasse dela o suficiente para a trazer para a sua própria vida e que, de alguma forma, ela lhe fizesse companhia, lhe acrescentasse alguma coisa ou lhe tornasse a vida um pouco melhor.

Se isso acontecer com uma pessoa, já aconteceu muita coisa.

 

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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