Fevereiro tem este frio húmido que entra pelos ossos.
E tem datas que não passam despercebidas.

 

 

Os Passos Pesados fazem 35 anos no dia 2 de fevereiro.
Sem espetáculo nesse dia.
A comemoração verdadeira vem depois.
Dia 7 de fevereiro à noite.
Concerto na Baía dos Anjos, em Ponta Delgada.
Luz baixa. Som alto. Como deve ser.

A rua anda molhada. Açores.
O cartaz está colado torto numa parede antiga.
Ninguém o endireita.
Há coisas que não precisam de correção.

Finais de março de 1990

Antes de haver palco

A ideia de formar a banda surge nos finais de março de 1990.
Não como plano.
Mais como urgência.

Toni Pimentel já trazia outras histórias musicais no corpo. Outros projetos.
Nada de romantismos tardios.
Vida real, ensaios longos, salas emprestadas.

Convida amigos. Conhecidos. Pessoas disponíveis.
A banda nasce assim.
De proximidade.

Demoram quase um ano até ao primeiro concerto.
Hoje parece exagero.
Na altura era respeito pelo som.
Pelo silêncio antes do som.

2 de fevereiro de 1991

A Cheer’s ainda existe, de alguma forma

A primeira aparição pública acontece a 02 02 1991.
Na Discoteca Cheer’s.
Ponta Delgada. São Miguel. Açores.

A Cheer’s já não existe fisicamente.
Mas existe na memória coletiva.

Só originais.
Todos em português.
Nada de versões para agradar.

Pelo que se sabe foi a primeira banda rock do arquipélago a apresentar um concerto inteiro nesse formato.
Sem rede.
Sem teste.

Imagino o nervosismo.
O cheiro da sala.
A pausa antes da primeira nota.

A primeira formação era composta por
Toni Pimentel na voz e guitarra
Luís Ferreira na viola ritmo e voz
Rui Vitorino no baixo
Pedro Andrade na bateria

Ao quarto concerto Rui Vitorino sai.
Luís Ferreira passa para o baixo.
Pedro Vale assume a bateria.

Nada de drama.
As bandas ajustam se ou acabam.
Eles ajustaram se.

Ser banda nos Açores não é detalhe

É identidade

Os Passos Pesados são uma banda rock açoriana.
Sediada em Ponta Delgada.

Isso pesa.
Não como obstáculo. Como identidade.

A distância do continente.
As tendências culturais que chegam filtradas.
As escolhas culturais feitas primeiro para dentro e só depois para fora.

Cantar sempre em português nunca esteve em discussão.
Mesmo quando parecia não dar retorno.
Mesmo quando diziam que não funcionava.

Funcionou porque era verdadeiro.
E porque insistiram.

A formação atual

Três pessoas, muito caminho

Hoje a banda é composta por
Toni Pimentel na voz principal e baixo
Pedro Castelo Branco na guitarra solo e vozes
Pedro Botelho na bateria e vozes

Três corpos.
Trinta e cinco anos de estrada atrás.
E ainda vontade à frente.

Onze discos. Sem atalhos

Ao longo de 35 anos de atividade ininterrupta editaram 11 álbuns de longa duração
Vícios 1997
Até que o Mundo Acabe 2000
Dez 2002
Perdido no Espaço 2005
O Que Mudou 2006
Recortes 2008
Quando a Água do Mar 2012
Vidas 2015
25 26 2017
Vinil 2021
Porto de Abrigo 2025

Nenhum parece feito por obrigação.
Soam a capítulos.
Não a produtos.

Neste momento a banda está já a gravar os primeiros temas do 12º álbum.
2026 aparece ao fundo.
Sem pressa.

Palcos grandes. Palcos pequenos. O mesmo chão

Atuaram no Estádio da Luz perante 64 mil pessoas.
Um clássico Benfica FC Porto.
Um momento histórico.

Mas também passaram pelo Coliseu Micaelense.
Teatro Micaelense.
Monte Verde Festival.
Semana do Mar.
Novas Ondas.
Festas da Praia.
Maré de Agosto.
Semana Cultural de Velas.
E tantos outros.

O vento entra no palco.
O som adapta se.
A cultura acontece assim.

Reconhecimento sem desvio de rota

Receberam votos de congratulação do Governo Regional dos Açores aos 25 e 30 anos.
Voto de congratulação municipal de Ponta Delgada aos 30.
Diploma de mérito municipal aos 34.

Importa.
Mas não muda a rotina.

O ensaio continua.
A porta do café range.
Alguém deixa um livro numa mesa.

Fevereiro continua

Dia 2 fazem 35 anos.
Dia 7 tocam à noite na Baía dos Anjos.

Sem balanços definitivos.
Sem fecho.

O som continua.
Mesmo quando a rua seca.