Crescer artisticamente numa ilha exige mais do que talento. Exige resistência, visão e uma capacidade rara de não desaparecer.

Desde 1997, Filipe Martins do Vale tem construído um percurso contínuo na música açoriana, atravessando géneros, bandas e fases distintas sem perder identidade.
O nome FIP0S nasce dessa trajetória longa e acumulada. Não é um projeto isolado. É o resultado de quase três décadas de palco, estúdio e reinvenção constante dentro do rock moderno feito nos Açores.
Das primeiras bandas ao peso do metal
O início acontece em São Miguel, na Fajã de Baixo, com os MC Maniac CreaTures. O ponto de partida foi o pop rock, terreno fértil para experimentar composição e presença em palco. O contexto era local, mas a ambição nunca foi pequena.
Poucos anos depois surge a necessidade de endurecer a linguagem sonora. Em 2001 funda os Blasphemy e mergulha no rock mais pesado, expandindo técnica vocal e intensidade performativa. Ao longo da década integra outros projetos dentro do metal, culminando nos Oppressive em 2009. Esta fase consolida uma assinatura clara: versatilidade e entrega física em palco.
Uma voz ativa na cena açoriana
Paralelamente ao trabalho autoral, destaca-se como vocalista no circuito de covers na ilha. A cofundação dos Rock n’ Kovers amplia a ligação direta ao público, cruzando clássicos do rock com energia contemporânea. Em 2012 integra a Banda.com, reforçando a dimensão colaborativa do seu percurso.
A intervenção na cena não se limita aos concertos. Em 2009 cria o programa Açores Underground, plataforma digital dedicada à promoção da música alternativa açoriana. Num território onde a visibilidade é limitada pela geografia, esta iniciativa representou um gesto concreto de construção comunitária.
Duques e a afirmação além-fronteiras
Em 2021 funda os Duques. Um ano depois, a banda conquista o prémio de Melhor Performance de Rock nos International Portuguese Music Awards, em Rhode Island, com o tema Terra Água Fogo e Ar. O reconhecimento internacional funciona como validação de um trabalho persistente desenvolvido maioritariamente fora dos grandes centros.
Este momento não surge por acaso. É consequência de anos de consistência, adaptação e construção de repertório sólido. Num panorama onde muitos projetos insulares enfrentam obstáculos logísticos e mediáticos, alcançar distinção internacional reforça a ideia de que identidade forte supera limitações geográficas.
Black Orange Studio e o presente em expansão
Em 2024 funda a Black Orange Studio, espaço próprio onde compõe, grava e explora novas sonoridades. Este passo representa autonomia criativa e maturidade estratégica. Controlar o processo de produção significa também controlar a narrativa artística.
Atualmente divide-se entre o projeto FIP0S, a cofundação e vocalização da banda Orange 3 e o trabalho como vocalista freelancer. Longe de dispersar energia, esta multiplicidade reforça presença. Mostra adaptação a um mercado fragmentado e confirma um papel central no rock açoriano contemporâneo.
Quase trinta anos depois do primeiro ensaio adolescente, o percurso mantém-se ativo e em transformação. Não se trata apenas de memória acumulada, mas de continuidade real. Num arquipélago onde cada projeto precisa de lutar contra a distância física e simbólica, permanecer relevante durante décadas é, por si só, uma declaração silenciosa de resistência.

