Terça-feira, 28 de Julho de 2026
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FMM Sines: não lhe chamem “world music”

Por Graziano Tullio 28 Jul 2026

Há muito que o Festival Músicas do Mundo de Sines deixou de ser apenas um lugar para descobrir sons vindos de outras geografias.

Durante décadas, “world music” foi um rótulo conveniente para reunir tradições musicais de diferentes continentes, quase sempre vistas a partir de um olhar ocidental. Mas os dois dias passados em Sines mostram precisamente o contrário: a música que hoje ali se ouve não vive da tradição; vive da forma como a tradição é reinventada para falar do presente.

Durante dois dias, artistas como The Cavemen, La Niña, Made Kuti, Aïta Mon Amour e Garota Não partilharam o mesmo palco sem que existisse uma única estética dominante. Ainda assim, havia um fio condutor: a forma como cada artista usava a sua própria tradição para construir uma linguagem profundamente contemporânea.

Logo nos primeiros concertos percebe-se isso.

Os The Cavemen, duo nigeriano formado apenas por baixo e bateria, conseguem preencher todo o castelo sem recorrer a qualquer excesso. Em “Me You I”, os ritmos partidos alternam entre delicadeza e intensidade, enquanto as duas vozes brincam com respostas antifonais e ornamentações herdadas do highlife. Em “Adaugo”, a alternância entre registos agudos e spoken word cria uma tensão constante que mergulha o público num silêncio quase absoluto; pouco depois, “Bena” faz do groove um convite irresistível à dança. O highlife está lá, mas não como peça de museu. É matéria viva, moldada por uma linguagem profundamente contemporânea, onde a alegria, a introspeção e a espontaneidade coexistem sem esforço.

Também La Niña parte da tradição napolitana para construir algo completamente atual. A voz mantém as inflexões do canto popular, mas não recusa sintetizadores, texturas eletrónicas ou linhas harmónicas próximas do pop alternativo. Canta em napolitano, mas não procura preservar um passado idealizado. Pelo contrário, usa essa identidade para falar da condição feminina, do corpo, da maternidade, da violência e da liberdade. “O Ballo d’ ‘E ‘Mpennate” desperta de imediato a curiosidade do público; “Ahi Ahi” abranda o ritmo e encontra um equilíbrio quase espiritual. Mas é com “Mammamia” e “Figlia d’ ‘a Tempesta” que tudo muda: as coristas tornam-se protagonistas, o público rende-se por completo e a dança instala-se naturalmente. O dialeto napolitano transforma-se numa linguagem universal.

 

Essa mesma ideia atravessa o concerto de Made Kuti. O apelido transporta inevitavelmente o peso do legado de Fela Kuti, mas seria injusto olhar para Made apenas como herdeiro. A maturidade da banda confirma-o desde os primeiros minutos. O afrobeat continua assente na repetição hipnótica do groove, mas Made introduz uma linguagem jazzística muito mais livre nas secções improvisadas. O concerto começa verdadeiramente com “Take It All In Before The Lights Go Out”, onde a festa ganha corpo. Depois chega a homenagem direta ao avô, com “Trouble Sleep Yanga Wake Am”, sem nunca soar a exercício de nostalgia. O momento mais impressionante surge já perto do fim, com “Story”: o longo solo de saxofone, sustentado pela respiração circular, não funciona como demonstração técnica, mas como elemento dramático. A tensão acumula-se lentamente até libertar toda a energia na explosão final, levando parte do público a subir ao palco.

Se Made Kuti mostra como um legado pode continuar vivo, Aïta Mon Amour demonstra que a tradição pode tornar-se quase irreconhecível sem perder a sua essência. O projeto da cantora marroquina Widad Mjama e do produtor tunisino Khalil Epi parte da Aïta, uma tradição oral marroquina interpretada historicamente pelas cheikhats. Mas bastam os primeiros segundos para perceber que ninguém ali pretende recriar um arquivo sonoro. Antes da primeira música, Widad saúda “os irmãos e irmãs da Palestina”. A atualidade entra em palco antes da própria música. O lotar, o oud, o violino magrebino e as percussões dialogam constantemente com as camadas eletrónicas de Khalil Epi, criando uma textura sonora onde nenhum dos dois universos procura dominar o outro. Em “Chalini”, voz e eletrónica crescem em espiral, atingindo um nível de tensão quase insustentável; durante vários minutos, o público parece incapaz de se mover, preso à intensidade que vem do palco. Só no último suspiro chega a libertação, num grito coletivo de catarse. “Hajti fi Grini” mantém essa energia, como um comboio impossível de travar. Durante largos minutos, parece que até as muralhas do castelo vibram ao ritmo da voz de Widad, que não abranda nem procura descanso.

Também os chilenos Calle Mambo, já no fim da noite, no palco junto da praia, recusam qualquer ideia de tradição cristalizada. Misturam ritmos andinos, cumbia, huayno, música balcânica, ska e eletrónica, mas as canções continuam profundamente ligadas ao território. A secção de sopros funciona como principal motor melódico, enquanto a percussão mantém um pulso constante que torna quase impossível ficar parado. Mas, por trás da energia contagiante, existe sempre um discurso político. Falam da terra, da preservação da natureza, das injustiças sociais e da resistência das comunidades locais. A dança nunca surge como fuga à realidade; pelo contrário, torna-se uma forma de a enfrentar coletivamente. O resultado é música de dança que nunca abdica de fazer pensar.

Essa preocupação atravessa igualmente Garota Não, talvez o exemplo mais próximo de casa. A sua escrita parte da canção de intervenção portuguesa, mas não permanece presa ao passado. Durante “Ferry Gold”, centenas de braços levantam-se no ar enquanto o público canta cada palavra, confirmando que a crítica social continua a encontrar lugar na música nacional contemporânea. Pouco depois chega uma surpresa improvável: “Killing in the Name”, dos Rage Against the Machine. A distância entre José Afonso, o rock de protesto norte-americano e a nova canção portuguesa parece desaparecer por completo.

O paradoxo é curioso. Enquanto a globalização parecia conduzir a uma música cada vez mais uniforme, concebida para funcionar da mesma forma em qualquer cidade do mundo, muitos dos artistas que passaram por Sines escolheram o caminho oposto: quanto mais contemporâneos são, menos sentem necessidade de esconder as suas raízes. O highlife dos The Cavemen, o afrobeat de Made Kuti, a aïta de Widad Mjama, a tradição napolitana de La Niña, a canção de intervenção de Garota Não ou os ritmos latino-americanos dos Calle Mambo não sobrevivem por preservarem um passado. Sobrevivem porque interpretam os desafios do presente, encontrando nas próprias raízes uma voz única, mas universal, capaz de dialogar com o mundo inteiro. Talvez seja esse o verdadeiro significado de Músicas do Mundo, em 2026.

 

Artigo de Graziano Tullio (colaborador)
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Graziano Tullio