Domingo, 12 de Julho de 2026
Radar Açores

Há Cinquenta Anos, a História da Música Fez-se na Terceira

Por Beatriz Ambrósio 12 Jul 2026

Muito antes de Portugal conhecer os grandes festivais de verão que hoje fazem parte do calendário nacional, a Praia da Vitória escreveu uma página singular da história da música ao vivo.

Artigo e fotos autoria de: Jason Sparks

 

 

Em julho de 1976, a Praia da Riviera acolheu um acontecimento que ultrapassou a dimensão de um simples festival e se transformou num símbolo de liberdade, criatividade e confiança no futuro.

Este mês assinala o 50.º aniversário desse momento inesquecível. Mais do que recordar um cartaz ou um conjunto de concertos, importa revisitar uma iniciativa que refletiu o entusiasmo de uma geração e deixou uma marca duradoura na história cultural da ilha Terceira.

Um sonho que ganhou forma na Praia da Riviera

Nos dias 10 e 11 de julho de 1976, o areal da Praia da Riviera transformou-se num palco ao ar livre como os Açores nunca tinham conhecido. Milhares de pessoas reuniram-se para um fim de semana de música ao vivo, campismo, convívio e celebração.

Aquilo que começou como uma ideia ambiciosa de um pequeno grupo de jovens praienses viria a ser considerado um dos primeiros grandes festivais de música de verão realizados em Portugal após a Revolução de Abril. Cinquenta anos depois, continua a ser um dos acontecimentos culturais mais marcantes da história da ilha.

Embora muitos o recordem simplesmente como o Festival da Riviera, o evento chamava-se oficialmente Musical Açores. O nome permanece ligado a uma iniciativa pioneira que continua a inspirar quem acredita no poder da cultura para transformar comunidades.

 

 

O contexto de um país em mudança

Para compreender a importância do Musical Açores, é necessário recordar o Portugal de 1976. A democracia dava ainda os primeiros passos depois de quase meio século de ditadura. Nos Açores tinha acabado de ser eleita a primeira Assembleia Legislativa Regional e vivia-se um tempo de descoberta, esperança e mudança.

Foi neste ambiente que Carlos Costa, Carlos Parreira, Luís Dores e uma equipa de voluntários decidiram organizar um festival que parecia impossível para a realidade da época.

Não havia internet, telemóveis nem redes sociais. As bandas eram contactadas através de telefonemas, cartas e contactos pessoais. Toda a organização dependia da dedicação dos voluntários, da amizade e da convicção de que era possível fazer acontecer algo verdadeiramente diferente.

E aconteceu.

À medida que o fim de semana avançava, a Praia da Riviera encheu-se de tendas, músicos e visitantes vindos da Terceira, de outras ilhas açorianas e de Portugal continental. Quando a noite caía, guitarras, amplificadores e milhares de pessoas transformavam a praia num espaço de celebração raro para a época.

O cartaz reuniu algumas das bandas mais conhecidas da Terceira, músicos de outras ilhas dos Açores e artistas ligados à Base das Lajes. Os concertos prolongaram-se pela noite dentro e deixaram memórias que continuam vivas meio século depois.

A influência da Base das Lajes e um legado que permanece

O sucesso foi tão expressivo que o Musical Açores regressou em agosto de 1977, com uma edição ainda mais ambiciosa. O festival recebeu músicos provenientes de Portugal continental e dos Estados Unidos, despertando também o interesse da comunicação social nacional.

Passados cinquenta anos, estas duas edições são reconhecidas como um marco importante na evolução dos festivais de música em Portugal e ajudaram a afirmar a Praia da Vitória como um inesperado centro de dinamização musical durante um período particularmente transformador.

A história levanta inevitavelmente uma pergunta: porque aconteceu aqui e não em Lisboa ou no Porto?

Não existe uma resposta única, mas há um fator que ajuda a explicar este fenómeno.

Durante décadas, a presença norte-americana na Base das Lajes criou uma ponte cultural única no país. Militares e famílias americanas conviviam diariamente com a população local, trazendo consigo discos, instrumentos, equipamentos e novas tendências musicais. Muitos músicos açorianos atuavam para públicos americanos e tiveram contacto com o rock e a pop muito antes de estes géneros se tornarem populares noutras regiões de Portugal.

O Musical Açores não surgiu por acaso. Representou a afirmação pública de uma cena musical que vinha crescendo discretamente ao longo dos anos. Vários investigadores e testemunhos da época apontam precisamente para esta combinação entre identidade açoriana e influência norte-americana como um dos fatores que tornaram possível o nascimento deste festival.

Cinquenta anos depois, a música regressa a casa

Embora o festival original tenha existido apenas durante dois verões, o seu legado nunca desapareceu. Em 2017, o Município da Praia da Vitória homenageou os seus organizadores com uma placa comemorativa, reconhecendo o contributo que deram para a vida cultural da ilha.

Ao mesmo tempo, o arquivo oficial do Musical Açores continua a preservar fotografias, cartazes, recortes de imprensa, gravações e testemunhos pessoais, permitindo que as novas gerações descubram o que aconteceu na Praia da Riviera durante aqueles verões memoráveis.

No dia 11 de julho de 2026, a música regressa ao lugar onde tudo começou. A Praia da Riviera volta a receber o Musical Açores – 50 Anos, com atuações dos Mini Bárbaros, Bárbaros, Os Sombras e Os Coxe.

Mais do que um concerto comemorativo, esta será uma celebração da imaginação, da determinação e do espírito de comunidade de um grupo de jovens que acreditou ser possível criar algo extraordinário numa pequena ilha do Atlântico.

A história nem sempre se guarda nos museus. Às vezes permanece num cartaz antigo, numa fotografia já desbotada ou numa memória contada entre amigos e família. Há cinquenta anos, um grupo de jovens olhou para a Praia da Riviera e imaginou um festival que ninguém julgava possível. Neste julho, quando a música voltar ao mesmo areal, celebra-se muito mais do que um aniversário. Celebra-se a coragem de sonhar, a vontade de inovar e a certeza de que a cultura também pode mudar o rumo de uma comunidade.

 

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Beatriz Ambrósio