Segunda-feira, 24 de Agosto de 2026
Editorial

Jarl Flamar leva o Afro House para as dunas da Arábia Saudita

Por Mafalda Matos 24 Ago 2026

Jarl Flamar escolheu as Red Sand Dunes, na Arábia Saudita, para apresentar um Hybrid DJ Set onde o Afro House encontra instrumentos orgânicos, electrónica e referências sonoras do Médio Oriente. O cenário impressiona desde os primeiros segundos, mas é o som que acaba por definir a experiência.

O vídeo, realizado para a Raw Escapes, coloca Flamar perante uma paisagem que parece feita para este tipo de música. Sem clube, sem multidão e sem a arquitectura habitual da noite electrónica, sobra espaço para perceber como o artista constrói o ambiente através do ritmo, das texturas e dos instrumentos.

Um set que começa pelo groove

A música de Jarl Flamar não depende de grandes mudanças para criar movimento. O groove é construído de forma progressiva, com a percussão a funcionar como ponto de ligação entre a electrónica e os elementos tocados ao vivo.

É uma abordagem próxima da linguagem do Organic House, mas com uma dimensão mais física. A batida mantém a pista imaginária em movimento enquanto as camadas melódicas vão alterando a atmosfera sem quebrar a continuidade do set.

É precisamente essa continuidade que funciona nas dunas. Num espaço onde quase tudo parece parado, o ritmo cria a sensação de deslocação. A música avança mesmo quando a paisagem permanece imóvel.

Flamar também evita transformar os instrumentos orgânicos num simples adorno. Eles entram dentro da construção electrónica e ajudam a dar ao set uma identidade própria. O resultado não procura escolher entre tradição e produção contemporânea. Trabalha as duas coisas no mesmo espaço sonoro.

 

 

O Médio Oriente está no som, não apenas na imagem

A localização poderia facilmente transformar-se no elemento principal do vídeo. O deserto tem uma força visual evidente e existe sempre o risco de uma sessão deste género funcionar mais como filme promocional do que como peça musical.

“O deserto amplifica a música, mas não pode substituí-la.”

 

Aqui, a relação entre som e espaço é mais interessante.

As referências melódicas e percussivas associadas ao universo sonoro do Médio Oriente não aparecem apenas como decoração. São integradas numa estrutura electrónica que mantém a lógica repetitiva e hipnótica do Afro House.

Essa fusão é uma das características mais interessantes do trabalho de Flamar. O artista constrói uma electrónica que não tenta esconder as suas influências acústicas. Pelo contrário, deixa que elas alterem a textura da música.

O resultado é menos sobre choque cultural e mais sobre continuidade. Ritmos contemporâneos e elementos tradicionais encontram-se sem que nenhum deles precise de desaparecer para dar espaço ao outro.

Quando a paisagem começa a competir com a música

As Red Sand Dunes dão ao set uma dimensão que dificilmente seria reproduzida num clube. A escala do deserto amplia cada gesto e transforma a actuação numa experiência quase cinematográfica.

Mas essa força visual também cria o principal desafio do vídeo.

O cenário é tão dominante que, por momentos, pode roubar atenção à própria música. A imagem das dunas, a luz e o movimento da câmara criam uma narrativa paralela que compete com aquilo que está a acontecer no som.

É uma questão importante porque um bom DJ set não deveria precisar de um cenário extraordinário para justificar a sua existência.

Neste caso, a música consegue manter-se suficientemente consistente para não desaparecer completamente atrás da imagem. O groove continua a ser o centro da experiência e a utilização dos instrumentos dá ao set uma dimensão performativa que o distingue de uma simples sessão gravada num local exótico.

O que fica quando desaparece o deserto

É aqui que o Hybrid DJ Set de Jarl Flamar se torna mais interessante. A paisagem dá escala à música, mas não é capaz de substituir uma identidade sonora.

Flamar parece compreender isso. Em vez de acelerar o set para criar impacto imediato, trabalha a repetição, a textura e pequenas alterações de ambiente. É uma linguagem que pede tempo e atenção, mais próxima de uma viagem sonora do que de uma sequência pensada para provocar reacções instantâneas.

O resultado funciona precisamente porque existe uma coerência entre o espaço escolhido e a música apresentada. O deserto não serve apenas de fundo. Amplifica a sensação de isolamento, repetição e movimento contínuo presente no próprio som.

Mas a verdadeira prova está noutro lugar: fechar os olhos e ouvir.

Sem as dunas, sem a fotografia e sem a dimensão cinematográfica do vídeo, continuam a existir groove, instrumentos, textura e uma identidade suficientemente definida para sustentar a experiência.

E é isso que torna este set mais interessante do que uma simples actuação filmada num cenário espectacular. Jarl Flamar leva o Afro House para o deserto, mas o desafio mais difícil é fazer com que o deserto permaneça na música depois de o vídeo terminar.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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