Jorge Rivotti recupera “Fado do Bebedor” e lança colectânea especial em vinil

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O vinil continua a sobreviver entre coleccionadores, audiófilos e músicos que ainda acreditam no ritual físico da música. Jorge Rivotti parece saber isso melhor do que ninguém.

O músico acaba de anunciar “As Tias no seu Melhor… O Bestofe em Longue Plei.”, nova colectânea exclusivamente editada em vinil, já disponível em pré-venda e apresentada como uma edição limitada que poderá nem chegar às lojas.

Mais do que uma simples compilação, o disco funciona quase como um arquivo afectivo da obra recente de Rivotti. O alinhamento reúne dez canções escolhidas a partir dos álbuns “…e outras canções que não quiseram ficar para Tias”, volumes 1 e 2, editados em 2023 e 2025 pela AVM Music Edition.

Um disco construído entre humor, melancolia e sobrevivência

A linguagem irónica e teatral de Jorge Rivotti continua muito presente na forma como apresenta este lançamento. O próprio músico descreve as canções como sobreviventes das “intempéries” de uma escolha difícil, entre limitações financeiras, custos elevados de produção e a velha conversa de que “a música não se vende”.

Esse humor semi-surrealista atravessa toda a comunicação do disco. O vinil colorido é descrito como um objecto pensado para “iluminar os audiófilos nas suas emoções mais refinadas”, numa espécie de sátira afectuosa ao romantismo que ainda envolve o formato físico.

Musicalmente, o álbum reúne temas como “Santa Apolónia”, “Vida de Gaveta”, “Tolok”, “Rosinha Vem-te Comigo” ou “Dame Una Rosa”, cruzando o lado mais boémio da música portuguesa com elementos de chanson, fado satírico e canção popular desconstruída.

“Fado do Bebedor” regressa com novo arranjo

Entre todas as músicas da colectânea, “Fado do Bebedor” ocupa lugar especial. A canção tinha sido originalmente editada em “Dias da Publicidade”, lançado em 2001, e regressa agora numa nova versão que serve também como tema de apresentação do disco.

Druk surge como referência conceptual para esta nova leitura da música. O tema aborda a relação humana com o álcool, os limites do estado de embriaguez e a forma como a bebida altera comportamentos sociais.

Curiosamente, Rivotti escolhe uma abordagem menos dramática do que o tema poderia sugerir. A melodia mantém um lado leve e quase festivo, criando contraste com a fragilidade emocional presente na letra. Existe ali uma ironia muito portuguesa: rir enquanto se tropeça.

O videoclipe oficial acompanha precisamente essa atmosfera entre o excesso, a nostalgia e a observação social meio amarga, meio divertida.

Uma colectânea feita de encontros

O disco conta ainda com vários convidados que ajudam a reforçar a dimensão colectiva do projecto. Entre os nomes presentes estão Samuel Úria, Zeca Medeiros, Manuel João Vieira, Donatello Brida e António Rivotti.

Essas participações acabam por transformar o álbum numa espécie de retrato de cumplicidades artísticas acumuladas ao longo dos anos. Há uma sensação constante de tertúlia musical, como se cada faixa tivesse nascido entre conversas longas, copos partilhados e noites demasiado demoradas.

Num tempo dominado por playlists rápidas e consumo instantâneo, Jorge Rivotti continua a apostar num objecto físico, assumidamente excêntrico e quase fora do tempo. Talvez seja precisamente por isso que este vinil faça sentido.

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