Sábado, dia 24 de janeiro, 21h00. Vulcana, Ribeira Grande. Os KAKERLAKK apresentam oficialmente, em formato físico, o álbum The Sound of Grief. Listening Party. Meet & Greet.

Uma semana depois, a 31, o disco ganha corpo em palco, pela primeira vez, no Lava Fest, no Nordeste. O essencial é isto. O resto vem aos poucos. Ou não vem de todo.
Janeiro não facilita. Nunca facilitou. Há um frio que não é só temperatura. É outra coisa. Entra pelas mãos, fica. As salas parecem mais pequenas. Os sons mais nítidos. Talvez por isso este disco chegue agora. Não antes. Agora. Como quem espera o momento certo, ou pelo menos um momento possível.
Em outubro passado, os KAKERLAKK anunciaram o lançamento do segundo álbum. A informação espalhou se pelas redes sociais, apareceu nas plataformas digitais, seguiu o caminho previsível. Tudo rápido. Demasiado rápido para um disco destes. The Sound of Grief nunca pareceu confortável nessa velocidade. Não pede pressa. Pede atenção. E alguma disponibilidade interior, se isso ainda existir.
O formato físico ainda resiste
O CD surge agora em formato digipack, possível graças a uma iniciativa da Basalto Cultural Associação de Artes. Parece um pormenor logístico. Não é. Há trabalhos que precisam de existir como objeto. De ser tocados. De ter peso. O digital resolve muita coisa, mas não resolve tudo. Aqui, não chegava.
Abrir um disco. Ler nomes. Virar a capa. Voltar atrás numa faixa. São gestos simples. Quase banais. Mas fazem parte da experiência. A cultura também vive destes rituais pequenos, discretos, que não cabem bem em estatísticas.
Vulcana como pausa necessária
A apresentação na Vulcana não é um concerto. É uma escuta. Uma sala. Cadeiras alinhadas sem grande cerimónia. Um silêncio que, às vezes, incomoda. O disco vai ser ouvido faixa a faixa, com a banda presente. Para conversar. Para explicar, se fizer sentido. Ou para não explicar nada. Também serve.
Há quem mexa no telemóvel. Há quem fique quieto demais. Há sempre alguém que tosse no pior momento. Tudo isso faz parte. Não é espetáculo. É presença. A cultura, quando abranda, mostra outras camadas. Nem todas confortáveis.
Uma história feita de interrupções
KAKERLAKK nasce nos Açores, em 2000, como projeto a solo de Carlos Matos. Depois, a história afasta se da linha reta. Surgem hiatos. Longos. Perdas pessoais. Pausas que não se escolhem. A música continua a ser escrita, mas fica guardada. À espera. Sem plano definido.
Em 2023, o projeto renasce. Não como nostalgia. Como urgência. Nesse ano sai Overdue, o álbum de estreia. Um disco que chega tarde apenas no calendário. No som, parecia ter estado sempre ali, à espera que alguém tivesse coragem de o mostrar.
The Sound of Grief, editado em 2025, aprofunda esse caminho. O título não suaviza nada. O luto está lá. A memória também. Não como dramatização exagerada, mas como peso constante. Um disco contido. Circular. Que volta aos mesmos lugares. Como acontece quando se perde alguém. Ou alguma coisa.
Do estúdio ao risco do palco
No dia 31, no Lava Fest, estas canções vão existir ao vivo pela primeira vez. E isso muda tudo. O palco traz ruído. Erro. Imprevisto. Aquilo que no estúdio é controlado, ao vivo fica exposto. Algumas músicas crescem. Outras revelam fragilidades. É assim. Faz parte.
O Lava Fest, no concelho de Nordeste, não é apenas mais um festival no calendário. É um desses espaços onde a cultura acontece fora dos centros óbvios. Onde projetos menos imediatos encontram lugar. Sem grandes holofotes. Mas com insistência.
Pequenos sinais, sem slogans
Não há aqui grandes discursos sobre renascimentos culturais. Há sinais. Um disco físico lançado em janeiro. Uma sala cheia sem pressa. Um festival num concelho que raramente aparece nas manchetes. São gestos pequenos. Mas repetidos. E isso conta.
A cultura constrói se assim. Em continuidades discretas. Em projetos que não desaparecem quando o caminho abranda. Os KAKERLAKK parecem estar exatamente aí. A fazer o seu percurso. A mostrar trabalho. A convidar quem quiser parar e ouvir.
O convite fica. Vulcana. Sábado. 24. 21h00.


















